Cernache do Bonjardim | Belmiro e as 16 receitas de caracol que nunca passam de moda

Está a decorrer até 30 de agosto no jardim do Clube de Cernache do Bonjardim mais uma edição da Feira do Caracol. Foto arquivo: mediotejo.net

É desde muito novo um apreciador de caracol, e as voltas da vida lá o levaram a colocar em prática os dotes de cozinheiro e de helicicultor. Falamos de Belmiro Domingos, responsável pela fundação da Confraria do Caracol e melhor que isso… o Grão-mestre que criou 16 receitas diferentes de confeção do caracol. Há para todos os gostos, e o nosso jornal pôde comprovar isso mesmo na XIII Feira do Caracol que decorre em Cernache do Bonjardim, concelho da Sertã, até dia 29 de julho.

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Este domingo, dia 22, foi dia de festa. A Confraria do Caracol completou 9 anos de existência. O convívio e a boa disposição, embalados pela música tradicional portuguesa entre outros êxitos intemporais do rock, vivem-se sob a vigilância do sobreiro centenário do Jardim do Clube Bonjardim, onde estão as tasquinhas da Feira do Caracol.

Encontrámos facilmente Belmiro Domingos, de 68 anos, uma pessoa bem disposta e com ar despachado logo nos convida a sentar. Mal sabíamos nós que estávamos prestes a entrar numa incrível aventura pelo país sempre em torno do bicho “de pauzinhos ao sol”.

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Talvez a visão não seja tão romântica assim, uma vez que acabará cozinhado, mas Belmiro fala-nos de “uma paixão antiga” e de uma “grande história”.

“Eu era publicitário/comerciante, morava em Aveiro, entusiasmei-me com o caracol e comecei com isto na Charneca da Caparica. Hoje já faço a promoção do caracol por todo o país”, contou, acrescentando que é costume andar pela Covilhã, Portalegre, e até já promove eventos ibéricos em Barcelona e Vigo. “Mas não tenho tempo para tudo”, diz, gesticulando, como quem diz que nada pode fazer quanto a isso.

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Belmiro Domingos, o Grão-mestre da Confraria do Caracol, com a mascote Tobias e entre amigos. Foto: mediotejo.net

Em Cernache do Bonjardim, freguesia de onde é natural, sendo que a sua terra dista cerca de 3 km da sede, é o 13º ano que a Feira do Caracol se realiza, e segundo Belmiro Domingos “é um sucesso, é muito bom, ‘tá a ver?”, e aponta à sua volta, para as dezenas de participantes que ocupavam as mesas, desde crianças a idosos, a degustar as receitas de caracol por si confecionadas.

“Comecei com duas receitas de caracol e depois comecei a inventar, e a criar, e a criar,… Ensinaram-me a fazer o escargot à Francesa. Encontrei uma senhora emigrante que o confecionou durante 20 anos em Paris, e ela lá me ensinou a receita”, recordou. E deixando escapar a modéstia, lá diz que deve ser “o nº1 em Portugal”.

A gastronomia tradicional também lhe diz muito, pelo que, além do caracol, já vai introduzir outras especialidades nomeadamente o picarralho, o picarralhito e o picarralhão. E lá nos explica, na tasquinha, que o primeiro é feito com pedaços fininhos de bifanas de porco fritas com um molho que leva banha, o segundo é feito com polvo e o terceiro com calamares. Todos com servidos com pickles e azeitonas pretas e que levam um molho especial por cima.

Uma das especialidades a pensar naqueles que não apreciam caracol ou que queiram outro complemento: o picarralho, idêntico ao vulgarmente chamado Pica-pau. Foto: mediotejo.net

Mas outros eventos acabam por surgir, caso do Festival que fará na sua terra natal, Matos do Pampilhal. “Vou fazer um Festival de Peixe do rio, onde não vão faltar as enguias”, outra das suas especialidades, confidenciou ao nosso jornal.

Enguia frita e ensopado de enguia, algo que lhe ficou dos 30 anos vividos em Aveiro. Isso, e a pronúncia, que também não deixa margem para dúvidas.

Cozinhar uma tonelada de caracol? Deixem para o Grão-mestre

Durante o certame em Cernache do Bonjardim, diz Belmiro que chegam a ser cozinhados mil quilos de moluscos gastrópodes, ainda que possa ser difícil imaginar o consumo desta quantidade. “Ainda este sábado à noite, eram duas da manhã e estava eu a cozer”, diz, mostrando que além da paixão, há ali muito esforço e sacrifício para levar o evento avante.

Os participantes, que chegam até a encomendar para levar para casa um balde ou caixa, vêm de todo o país. “Vem gente de muito longe” para comer caracóis à moda do Grão-mestre Belmiro, desde Lisboa, Abrantes, Leiria, Castelo Branco, Montemor-o-Novo, Nisa ou Évora, Portalegre, entre outros da região e não só. Segundo Belmiro esta dinâmica é facilitada pela localização do certame, na zona Centro, e “já é uma tradição, já conhecem há 13 anos e são caracóis que não se encontram em qualquer lado”, remata, puxando a brasa ao seu caracol.

Afirma que a confeção feita por si “é diferente” e logo se socorre das especialidades que todos têm de provar: desde o Caracol à Pescador, com travo a caldeirada de peixe, onde o pimento vermelho e o belo caldo picante não faltam, ou à Caçador que é confecionado com coelho no tacho. Mas o ex-libris, diz o expert na matéria, é o Caracol Frito. “É uma categoria”, afiança.

Durante a tarde o Caracol à Pescador teve muita saída, tal como o Caracol tradicional. Foto: mediotejo.net

Outras receitas do menu saltam à vista, caso da Sopa de Caracol e do Fondue. “Ohh!… Isso é muito elaborado. Nem sempre tenho, mas é muito bom, feito com queijo e mais uns truques do fondue”, termina, deixando-nos a imaginar o resultado final da receita.

A confeção varia essencialmente no uso dos temperos e especiarias, e produtos endógenos, onde entra o caril, a malagueta, o alho, o picante, a cebola, o pimento, mas também as “ervas alentejanas”, como lhe chama o Grão-mestre, desde o poejo, aos óregãos e hortelã da ribeira.

Mas em honra ao patrono da Confraria, Nuno Álvares Pereira, cujo berço se acredita ter sido Cernache do Bonjardim, fez também uma receita a que esta figura da História de Portugal dá o nome. Explicou-nos que se inspirou na Batalha de Aljubarrota, “quando estiveram cercados a certa altura, e pressupõe-se que tiveram de deitar mãos a tudo para se alimentar e sobreviver. Então, como aconteceu em agosto, havia de certeza caracol!”, disse, sempre de sorriso no rosto, bem disposto e orgulhoso das suas saborosas criações.

Quanto às 16 receitas, diz que parou por ali porque “depois já era muita confusão” e então estas “são as oficializadas”. Mas sabe fazer outras, admitindo as infinitas possibilidades de confeção do molusco gastrópode.

A Confraria, os confrades e a promoção do caracol pelo país fora

A missão de Belmiro Domingos começou logo que, pelos lugares onde passou, foi confecionando algumas das suas receitas. As pessoas tomaram-lhe o gosto, e com a criação da Confraria, a promoção da gastronomia do caracol começou a ocupar-lhe todo o ano.

A Confraria foi fundada em 2009, em Ílhavo, onde foi feita a escritura com cerca de 20 confrades. As entronizações são anuais e acontecem junto à estátua de Nuno Álvares Pereira. “Este ano era para ter entrado um confrade, vinha da Figueira da Foz, mas como se atrasou, entra para o ano”, explicou Belmiro, descansado com a situação, que no ano seguinte se resolverá. Os confrades estão espalhados pelo país, desde os distritos de Porto, Lisboa, Aveiro, e na zona Centro, nos quais a promoção do caracol é feita.

Para ser confrade, e hoje contam-se mais de 40, é preciso, em primeiro lugar, “gostar de caracol”, pois “se não gostar, não faz muito sentido”. E em segundo lugar, “arranjar 150 euros para comprar o traje/farda”, disse entre risos, mas com honestidade, referindo que existem regras para cumprir, mas que crê serem simples.

Foto: mediotejo.net

Este ano, a “tour”, como lhe chama, iniciou a 21 de abril em Montemor-o-Novo, e passou por Castelo Branco, Estarreja, Évora, Tocha, Arronches, até chegar à Feira do Caracol de Cernache do Bonjardim que agora decorre, até dia 29 de julho. Após este evento, seguir-se-á Boidobra, na Covilhã, de 3 12 de agosto, o Bairro do Atalaião, em Portalegre, de 17 a 26 de agosto, encerrando-se a temporada em Ponte de Sor, entre 1 a 9 de setembro.

Ainda assim, a Confraria do Caracol é muito requisitada. Mas “o calendário está super cheio”, uma vez que em janeiro já fico tudo programado para cada temporada. Apesar de fazer caracol “o ano todo”, Belmiro Domingos refere que as iniciativas onde está presente costumam ser sempre entre abril e setembro.

O segredo? Diz que é “ter bons fornecedores de caracol”. Neste momento trabalha com um importador que vai buscar a Marrocos, e nunca lhe falha. Tal como a chama da paixão pela gastronomia do caracol, que diz tê-lo absorvido. “Sem paixão, nada se faz”, atira, com a sapiência de quem já leva algumas décadas disto.

Quem quiser encontrar Belmiro, é entre as gentes apreciadoras de caracol, boa comida e boa bebida, entre a animação e azáfama das feiras e tasquinhas. Se não o encontrar à primeira, é porque estará entre os tachos e frigideiras, a preparar caracol à Helicicultor ou caracoleta na chapa, se necessário pela madrugada fora.

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