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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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“Cerejas”, por Armando Fernandes

Os noticiários dão conta da enorme quebra da produção de cerejas cuja causa está na persistente chuva durante os meses de Abril e Maio, o jornal Nordeste Informativo de Bragança titula: “Cereja vendida a peso de ouro”.

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Das cerejas guardo documentação de várias proveniências e teores porque em tempos foi pensado construir-se um receituário cosmopolita dedicado a estes frutos, acrescentando-lhe pontos de referência científicos e culturais a explicarem as suas qualidades e virtudes alimentares e medicinais. O projecto não saiu do papel, os papéis estão guardados.

No livro único da segunda classe em uso tempo do Estado Novo vem um escrito de teor moralizante no qual S. Pedro relapso a baixar-se uma única vez a fim de apanhar uma ferradura, a seguir Jesus obrigou-o a dobrar-se várias vezes a fim de retirar do pó cerejas que o Mestre deixava cair compassadamente.

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A escritora torrejana Maria Lamas escreveu um livro destinado às crianças intitulado Brincos de Cerejas, outros escritores de variadas latitudes e épocas delas retiraram inspiração, a elas consagraram obras poéticas, teatrais, romances, contos e novelas. O leque de existências é grande e variado.

Se o leitor é frequentador de Museus ou Galerias de pintura conhece de «ginjeira» composições pictóricas nas quais as cerdeiros, as cerejeiras, as cerejas e as ginjas (cerejas ácidas) estão representadas conforme apeteceu ao artista. Os pintores japoneses prestam grande atenção à flor das cerejeiras a qual também é venerada na Índia.

Por cá a corografia atesta a implantação da cerejeira nas terras altas do interior, Cerdeira e Cerejais são exemplo disso mesmo, a primeira localidade no distrito de Bragança, a segunda no distrito da Guarda. A cerejeira gosta do frio por essa razão aclimata-se onde ele se faz sentir, seja na Ásia (originária desse continente), seja na Europa ou na América do Norte.

As diversas qualidades de cerejas são empregues culinariamente e na farmacopeia de acordo com as suas virtudes, daí ser possível elaborar-se um receituário compreendendo entradas, sopas, acompanhamento de peixes e carnes, doces, bolos, compotas, licores e aguardentes.

Porque ricas em taninos manda a prudência não se abusar no seu consumo, os abusadores pagam dobrados a desmesura, além de os seus estômagos ficarem irritados durante algum tempo.

Os amigos das ginjinhas sabem quão mal dispostos ficam quando extravasam a conta, peso e medida no seu beber, o doce transforma-se em azia dando azo a sedenta ressaca.

A sazão da cereja terminava em meados de Julho, a globalização eliminou a denominada sazonalidade, de qualquer modo, animo o leitor a respeitar a tradição, faça o favor de as apreciar em saladas, em sopas frias, em recheios e acompanhamentos de peixes brancos e carnes da mesma cor, em tartes, pudins e bolos de todos os géneros. Ainda no referente a chocolates, gelados, sem esquecer os beberes licorosos.

 

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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