“Cerejas”, por Armando Fernandes

Foto: DR

A torto e a direito costumamos trazer em nosso auxílio as cerejas e as ginjas suas irmãs a fim de ilustrarmos uma afirmação dizemos «foi a cereja no topo do bolo», «soube que nem ginjas» são exemplos de auxílio prestado por estes frutos ácidos e açucarados, dulcíssimas algumas variedades, bem acídulas outras, todas a potenciar prazeres palatais de vários teores, seja no tocante a receites sólidas, sopas frias muito apreciadas nos dias calorentos, seja na qualidade de ingrediente na preparação de pratos de peixe e carne (assados e guisados), seja ainda (e de que maneira!) no capítulo das bebidas (cerveja, aguardente, brandy, licor disto e daquilo) sem esquecer as compotas e os ditos bolos cujo topo é coroado por uma cereja.

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O leitor não necessita das minhas descoloridas considerações históricas relativamente a estes frutos rosados ao de leve ou carregados até à negritude (pensemos nas ginjinhas das casas da sua bebida). Caso consultem a Internet têm ao seu dispor dezenas de notícias e comentários referentes aos frutos das cerejeiras e ginjeiras, se intensificarem as pesquisas vão ficar estonteados ante a profusão de obras de múltiplos géneros cuja motivação está nas ditas espécies vegetais.

Trago-as à colação por causa da pandemia, sim a pestífera praga está a originar problemas quer na apanha das cerejas e das ginjas, quer na sua comercialização, pois para lá dos constrangimentos devido à não mobilidade (as pessoas têm medo), os produtores vêm os custos agravados em virtude das normas de higienização e conservação.

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A Internet não trará o episódio castigador do chaveiro do Céu, o Senhor São Pedro por Jesus Cristo, dada a sua preguiça em apanhar uma ferradura em dia tórrido nas imediações do Mar Morto, o Mestre dobrou-se, recolheu o sapato da alimária, vendeu-a a um ferrador e gastou o produto da venda adquirindo cerejas. O pescador Pedro pecador preguiçoso se quis apaziguar os ardores dos lábios secos teve de se dobrar várias vezes à medida que Jesus Cristo ia deixando cair as cerejas, uma a uma, no chão pedregoso.

As cerejeiras estão distribuídas pela generalidade do território nacional, se existirem dúvidas consultem um dicionário toponímico, homens e mulheres carregam apelidos e alcunhas derivados de tais árvores a comprovarem a sua amplitude, talvez algum leitor ainda tenha memória dos saborosos gostos da resina que eu tantas vezes masquei num arremedo de pastilha elástica, talvez alguma leitora ainda utilize os pés de cereja na preparação de chás, talvez vários  leitores deste jornal saibam por experiência própria as consequências da desmesura na ingestão das rubicundas ou lisas cerejas principalmente se mornas, eu sei, nós sabemos serem segundos de felicidade no dia a dia de milhões de pessoas porque apesar de poderem ser brincos (leiam a torrejana Maria Lamas), as cerejas são um fruto popular cujos caroços os meninos aproveitavam para os colocarem num tubo (uma cana sem nós) e os sopravam na direcção das meninas de soquetes e das desprovidas deles.

Saladas, envoltas em iogurtes, recheios de pastéis e bolos, laminadas a coadjuvarem frutos secos e peixes fumados, a escorrerem sumo sobre carnes recesas, esmagadas de forma a rechearem peixes brancos, são algumas (poucas) representações das qualidades culinárias das cerejas.

Os pobres de pedir obrigados a não terem vergonha de pedir, os meninos de estômagos vazios e os pássaros sem figos, em tempo de cerejas ficavam mais felizes. Ora, os tempos mudaram, porém a época está a principiar, eu não possuo o talento de Olivier Messiaen que falava e compunha para os passarinhos, porém atrevo-me a recomendar o aprazimento sensorial comendo cerejas temporãs e não temporãs. Sempre.

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