Centenas de alunos marcharam em Alcanena contra poluição ambiental (C/VIDEO)

Cerca de 600 alunos protestaram esta segunda-feira contra a poluição ambiental que se respira em Alcanena, tendo promovido uma marcha silenciosa entre a escola secundária e a Câmara Municipal, onde leram um manifesto apelando a uma solução para o problema.

PUB

“Os maus cheiros intensos e irritantes que invadem Alcanena e as terras das redondezas são prejudiciais para a saúde pública, provocam irritação na garganta, dores de cabeça e vómitos aos alunos e à população, e tem levado a que alguns estudantes tenham mesmo de sair da escola e ir para casa pelo que o objetivo da marcha silenciosa é mostrar a nossa indignação e pedir para que resolvam o problema”, disseram Madalena Gomes e Joana Capaz, duas das estudantes que integram o Grupo de Jovens em Prol do Bem-Estar Social, um “grupo informal” criado pelos alunos da escola secundária.

Aos cerca de 600 jovens, muitos deles vestidos de preto e ostentando cartazes e com máscaras na cara simbolizando que o ar que respiram “não é saudável”, juntaram-se algumas dezenas de populares junto da escola secundária de Alcanena, de onde marcharam ordeiramente e em silêncio entre a escola, cerca 09:00, e a Câmara Municipal, num percurso de cerca de 500 metros, tendo sido acompanhados pelas autoridades policiais que ajudaram na gestão do trânsito automóvel, intenso àquela hora da manhã.

PUB
Centenas de alunos marcharam em Alcanena contra poluição ambiental. Foto: mediotejo.net

À chegada à Praça 8 de maio, onde se situa a Câmara Municipal, meia hora mais tarde, a marcha silenciosa já havia engrossado com a presença de populares que se foram juntando ao protesto, tendo sido recebidos pela presidente da Câmara, Fernanda Asseiceira, e pelo seu executivo, que os aguardava no exterior do edifício dos Paços do Concelho.

Ali, com o apoio de um microfone e de um sistema de som que a autarquia havia previamente preparado, Mariana Gameiro leu o manifesto dos estudantes, tendo começado por afirmar que “a situação ambiental em Alcanena tem sido relegada por vários intervenientes para níveis inaceitáveis ao longo de décadas” e que, “nos últimos meses, a situação tomou proporções calamitosas”, sendo “insustentável” frequentar a escola secundária com as salas a cheirarem a “podre” logo pela manhã.

Foto: mediotejo.net

“Não há exagero nenhum da nossa parte, nem dos populares, em se manifestarem veementemente contra o caos que se tornou respirar em Alcanena”, com um cheiro que é “pestilento, provoca reações a nível de saúde, como enxaquecas, enjoos ou dores físicas”.

Nesse sentido, frisou, “esta marcha lenta de luto, em forma de funeral pelo destino de Alcanena, serve para marcar uma posição” e exigir da autarquia “a resolução do problema”, independentemente de “quem são os culpados: interessa-nos a resolução do problema”, reiterou.

“A imagem que caracteriza Alcanena são os estores pretos. A nossa escola não foge a este destino cruel. A nossa pergunta é legítima: se os estores tão pretos, como ficam os nossos pulmões? O que é que estamos a respirar? Temos todo o direito de não estudar num ambiente destes”, afirmaram, concluindo: “A todos vós, lançamos um último apelo: salvem-nos! Porque, como dissemos, o que estão a fazer não está certo!”, remataram, perante os aplausos das centenas de alunos e protestos mais vivos por parte dos populares, que levaram a presidente de Câmara e os estudantes presentes a apelar a alguma moderação.

Fernanda Asseiceira, presidente da CM Alcanena, dirigiu-se aos presentes. Foto: mediotejo.net

Fernanda Asseiceira usou da palavra para reconhecer que “a poluição que se tem feito sentir, nomeadamente com os odores extremamente agressivos, desagradáveis e prejudiciais, põem em causa o ambiente e a saúde pública”, e para apontar os incumprimentos ambientais de algumas empresas do setor de curtumes na utilização das redes de coletores e da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) como causa do problema.

PUB

“As unidades industriais, as redes de coletores e a ETAR têm de estar em equilíbrio”, defendeu, tendo revelado incumprimentos “elevadíssimos” em descargas efetuadas para o sistema ao nível de gorduras, de “170 mil mg por litro contra os 700 mg/l” permitidos por lei, e ao nível de sulfuretos, com “registos de 200 mg/l contra os 36 mg/l”, e que “comprometeram” o bom funcionamento do sistema.

Para “ultrapassar o mais rapidamente possível o que aconteceu”, e cujos últimos episódios de poluição ambiental situou entre meados de agosto e até meados de outubro, a autarquia apostou na “sensibilização das empresas que utilizam o sistema para a importância do investimento e das boas práticas ambientais, o que já foi feito”, notou.

Centenas de alunos marcharam em Alcanena contra poluição ambiental. Foto: mediotejo.net

“Agora é com tolerância zero às gorduras e tolerância zero aos sólidos”, afirmou, tendo defendido ainda a necessidades da dessulfurização das unidades industriais para que os coletores e a ETAR funcionem melhor”, concluiu, numa manhã em que os maus cheiros não se faziam sentir em Alcanena.

Não tendo obtido a garantia de que mais episódios de poluição possam suceder, – “não estávamos à espera de uma resposta imediata, porque sabemos que isso não é fácil” – , os alunos desmobilizaram com o sentimento de dever cumprido “dando a conhecer o nosso descontentamento e esperar que seja interpretado como um incentivo para encontrar uma solução daqui para a frente”, notou a estudante Mariana Gameiro.

Para-a diretora da escola, Ana Cohen, que acompanhou os alunos na iniciativa, foi com “orgulho” que viu a “postura cívica exemplar” de jovens que “querem ser a voz da comunidade, dizer o que sentem, e fazer parte da solução”.

Centenas de alunos marcharam em Alcanena contra poluição ambiental. Foto: mediotejo.net

A questão dos maus cheiros, que tinha sido sentida com intensidade no verão de 2017, regressou nos últimos meses, depois do resgate do contrato de gestão do sistema de tratamento de águas residuais de Alcanena da associação de utilizadores para a empresa municipal criada pela câmara.

O município tem acusado os industriais de não estarem a cumprir com um conjunto de obrigações e estes alegam que a empresa municipal não tem capacidade para gerir o sistema.

c/LUSA

PUB

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here