Ourém: Centenário Aparições: “Fátima impôs-se à Igreja e à História”

José Sardica concluiu que terá sido o ambiente histórico da época que possibilitou o fenómeno Fátima. FOTO: mediotejo.net

O diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, José Sardica, e a diretora da Rádio Renascença, Graça Franco, foram os oradores convidados para o segundo jantar-conferência do ciclo “Conversas de Fátima”, no âmbito do programa da sociedade civil do Centenário das Aparições de Fátima. Na terça-feira, 25 de outubro, o historiador e a jornalista deram a sua perspetiva sobre os acontecimentos de 1917. As conclusões foram semelhantes: Fátima foi-se impondo à Igreja Católica e à História, impulsionado por um período histórico específico e a religiosidade dos povos.

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Subordinado ao tema “Portugal 1917–2017, Estado, Sociedade – Razão e Fé”, o jantar-conferência no Hotel Lux Fátima reuniu figuras da sociedade civil, religiosa e empresarial de Ourém e Fátima, incluindo o Reitor do Santuário de Fátima. A primeira intervenção partiu de José Sardica, que ao longo do seu discurso admitiu que, enquanto cidadão, era crente nas Aparições de Fátima.

O próprio começou por admitir que “falar deste tema é difícil”. “Como historiador não posso atestar as Aparições”, uma vez que não existem factos científicos que possam comprovar a existência do fenómeno místico. “As Aparições são matéria de Fé”, salientou, que ele, enquanto indivíduo, acredita, mas enquanto historiador não pode efetivar. Mas, continuou, há de facto muita documentação que atesta a existência de um fenómeno de grandes proporções em Fátima e uma realidade histórica inerente, que deve ser tida em conta.

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“Como devemos abordar historicamente o que não podemos cientificamente atestar?”, questionou. José Sardica lembrou que as Aparições de Fátima surgiram no âmbito do profundo laicismo instalado pela primeira República, com uma forte componente ideológica e um sentimento geral anti-jesuíta compartilhado pelos intelectuais. Fátima, explicou, deve ser encarado nessa perspetiva histórica, económica e social.

“Fátima impôs-se à Igreja e à História”, defendeu várias vezes, tornando-se um acontecimento de dimensões nacionais. Surgiu no momento da crise republicana, no ano de Sidónio Pais (a primeira tentativa de um regime mais autoritário), no ano da entrada de Portugal na Grande Guerra, que pouca gente entendia as causas, quando a Igreja voltava a ganhar espaço entre as populações.

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“Pergunto se não terá sido o ambiente a convocar aquelas Aparições”, concluiu. “Fátima é um alerta, independentemente das leituras individuais, da complexidade entre as relações do indivíduo com o coletivo”, referiu, comentando que a “modernidade não exclui a religiosidade”.

Já Graça Franco recordou algumas das suas experiências como jornalista, colocando-se no lugar dos primeiros jornalistas que acompanharam as Aparições de Fátima. “Viam o fenómeno ou como uma manipulação gigantesca ou que superava a sua compreensão”, refletiu. “Pode ser uma hipótese que as Aparições tenham sido convocadas pelo ambiente” de 1917, anuiu.

Graça Franco comentou que a verdadeira particularidade de Fátima foram as três crianças muito jovens, mais jovens até que a criança de Lourdes. Na época, a hierarquia da Igreja Católica não se pronunciou. Mas o povo vai aparecendo e Fátima “vai-se tornando irreversível”. “Fátima vai-se impondo”, referiu, apesar da oposição que veio de vários setores.

Ponderando todos os acontecimentos, constatou que se “não tivesse existido o tal fenómeno atmosférico ou a dita «alucinação coletiva» e tudo talvez tivesse ficado por ali”.

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