Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“Ceia”, por Armando Fernandes

O termo – ceia – persiste em várias zonas rurais portuguesas. Na alta sociedade a ceia é uma refeição, normalmente, realizada à saída de um espectáculo e/ou confraternização de amigos feita a horas tardias cuja composição assenta no gosto e disponibilidades de quem convida.

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A História regista lautas ceias a quais contribuem para o sinistro anexim de lautas ceias estão as sepulturas cheias. Por essa razão desligo o desejo de as evocar singularmente, no colectivo apenas referencio a peça teatral de Júlio Dantas (o alvo de Almada Negreiros) intitulada «A Ceia dos Cardeais» cuja leitura recomendo dada a actual situação política.

A ceia dos meios rurais e urbanos de antanho na maioria das vezes não passava de uma sopa ou caldo com um pedaço de pão sem conduto. As gentes viviam mal, utilizar azeite nessas sopas só estava ao alcance de remediados e proprietários, os pobres esmiolavam a boroa ou centeio engrossando-a e os possuidores de malaguetas amigos do seu ardor cortavam-nas finamente (segavam-nas) colocando-as no cimo das migalhas em jeito de cereja em cima do bolo.

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A ceia na sociedade rural finalizava o dia de trabalho, servia-se após o toque das Trindades, nas longas noites invernais comiam-se castanhas, quando existiam, evocavam-se entes queridos, cortava-se na casaca dos mal-queridos, eram os serões na província dos humildes e precisados de tudo.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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