Sexta-feira, Dezembro 3, 2021

“Castanha”, por Armando Fernandes

Desiludir os leitores apetece-me de vez em quando, por que uma crónica referente à castanha é bom tema (rebentou-lhe a castanha na boca) vou invocar o senhor São Martinho, o da capa milagrosa no fito de conseguir tal propósito.

- Publicidade -

Não vou trazer ao tablado da escrita a descrição das várias espécies de castanha, não vou aduzir o que podemos ler na Internet sobre os seus benéficos efeitos na saúde dos humanos, os diabéticos não saem a lucrar se comerem castanhas regularmente nesta altura do ano, também esqueço os muitos provérbios dedicados ao fruto do castanheiro.

Prefiro perguntar: a castanha deu o nome à cor, ou foi a cor a dar o nome à castanha? Os castanheiros acorrem à chamada, majestosos, lembram ser a castanha pingada dos seus ouriços, portanto foi «o ovo ou a galinha a aparecer primeiramente» não tem razão de ser. Insisto, e o castanheiro provém de onde?

- Publicidade -

Não sei, o leitor faça o favor de averiguar e mande a solução para este jornal. Os leitores também têm de picar os dedos no ouriço do saber, sujar os dedos na abertura de livros repletos de pó porque poucos estão na disposição de os lerem.

Ando a queimar as pestanas de tanto ler e fico furioso quando surgem nas televisões umas fulanas e uns beltranos a perorarem sobre o modo de induzirmos os jovens a ler, referindo de seguida que os portugueses estão a ler mais, quando a todo o tempo e todo o transe verificamos o «novo estilo de não leitura teclando sem cessar» expondo a gritante iliteracia reinante. Ponha os meninos e as meninas à prova pedindo-lhe a feitura de um texto e a leitura de Gil Vicente, Camões ou Camilo e logo verificamos o logro. Este logro é alimentado a todos os níveis, existindo bibliotecários relapsos à formação de públicos leitores de ler, até conheço um especialista em liquidar Bibliotecas.

Sendo assim e é (digo eu) o melhor é tirar as castanhas do lume ou do assador, queimar os dedos ao leve pelo efeito de despir as castanhas do casado e da camisa, verificar a lisura de um lado e as rugosidades de outro, nesse ponto estão em condições de serem saboreadas preferentemente na companhia de vinho ou bebidas licorosas e de regozijo. Nas aldeias do tempo da Maria Cachucha as mulheres dos povoados rurais bebiam jeropiga e vinho abafado, tempos de parcimónia, permito-me lembrar.

Os meninos ladinos devem afiar e fortalecer os dentes roendo castanhas, roer, roer. Por seu turno, os velhos desdentados entre suspiros e despejo de lágrimas de saudade da juventude perdida não as roem, se o fizerem perdem os teclados postiços colocados nos maxilares, daí lhes sugerir papas, purés e caldinhos de castanhas. O palato fica contente, a memória comunga do mesmo prazer.

Este ano a escassez de chuva reduziu as castanhas a esquálidos fetos, as prenhas, ficam aprisionadas na concha das mãos dos compradores agastado pelo seu elevado custo.

Gosto de castanhas reboludas, nas diversas cozeduras: ao vapor. Assadas, caramelizadas, cozidas, fritas, estufadas, grelhadas, guisadas, ao vapor, peladas, em papas, em migas, em açordas, a acolitarem peixes e carnes, a serem elemento principal de saladas, a engrossarem milhos e a concederem substancioso sabor a caça de pêlo e pena.

Não lhe concedo grande fervor no capítulo dos licores, mas sim nas pastas doceiras e compotas em solitário ou na companhia de ervas de cunho silvestre e doméstico.

Caro leitor:

Este ano o triste fadário da seca conseguiu dar-lhe elegância, secas sem secagem, mesmo assim não as ignore nesta quadra esqueça a mágoa bebendo vinho vigoroso, pujante, deixe a água-pé para os presumidos montadores de equídeos de cá, de lá, a trote ou a pinote.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome