Quinta-feira, Março 4, 2021
- Publicidade -

“Carta de amor às palavras”, por Vera Dias António

São tão interessantes as palavras. Altas, baixas, robustas, enfezadas. Existem. São. Fazem-nos.

- Publicidade -

Poderia falar das letras, do conjunto de possibilidades de escrever as palavras. Mas falo das palavras em si. Porque só em conjunto as letras fazem sentido. Têm sentido. 

O melhor e o pior das palavras é exatamente o seu sentido, a par do seu conceito, o que as faz serem o que são.  O contexto, o tom, o histórico em que se inserem, quem as dá, quem as recebe, mais o como, o porquê e o quando.

- Publicidade -

Fazemos muito das palavras, para o bem e para o mal.

As palavras são o amanhecer, pantufas quentes, dias de chuva. O cheiro a bolo, o vapor do chá acabado de fazer. Tudo são palavras.

O sair de casa, o som da porta a fechar, o carro, o trânsito, o trabalho, a sequência de tarefas, papéis, pausas, café e computador. As palavras são tudo isto. 

O colégio, os miúdos a entrar no carro, as mochilas espalhadas, derrubadas, atiradas para uma pausa, as palavras precisas que o descrevem.

O fim do dia, o jantar, o refogado, o assado no forno, a sopa. A loiça na máquina, as roupas estendidas, as conversas mantidas. Tudo são palavras.

Palavras que dão sentido às músicas, força aos sentimentos, lugar ao ser.

Palavras que regam as flores, arrumam brincadeiras, colocam os legos na caixa, os livros na prateleira, tudo no seu lugar, no que as palavras indicam. Sem legendas, só hábito, saber, vida.

As palavras são o doce, o apego, o carinho, ou então são brutas, drásticas, espalhafatosas. Violentas até.

As palavras são dias de sol e pensamentos bolorentos em dias de chuva.

As palavras são a esperança, mas também o desespero, a perda, a tragédia.

São racismo, desprezo, xenofobia, armadilhas sociais. Mas são também conhecimento, sabedoria. São tolerantes, as palavras.

As palavras são até pandemia. Estado de emergência. Confinamento.

Chovem palavras de montanhas de gente encaixotada em cima dos móveis. 

Gritam palavras do fundo do bolso que se mantém fechado, discreto, guardando palavras cheias de sabedoria.

Voam palavras quando sonhamos por feitos, conquistas, prazeres, sonhos e desejos. Mais ou menos profundos, as palavras não se importam, só os levam pelo ar, muitas vezes em silêncio.

As palavras são loucas, desreguladas, insatisfeitas, atiradiças, vencedoras, virgens, santas, putas ou meio levianas. São o que quisermos que sejam.

Com as palavras ultrapassam-se quezílias, atiçam-se outras tantas, contornam-se sistemas, comem-se leis e arrotam-se postas de pescada.

Chutam-se palavras ao vento ou guardam-se no mais fundo de nós, contidas, em gritos mudos como sapos engolidos vivos.

Vivemos, nós e as palavras, neste é ou não é, nesta roda que é a vida, enquanto as disfarçamos ou damos ar de dondocas. Simples ou excêntricas, muitas vezes transmutadas.

Mais ou menos sensuais, mais ou menos polidas, mais ou menos assassinadas, porque não as conhecemos bem. E as dizemos mal.

Revoltam-se as palavras no jogo do é ou não, envolvidas em artifícios ocos. Desditas, mal amadas. Usadas. 

Ou ambíguas, escondidas em capas de cobardia. São engodo.

Estão gastas as palavras, as eternamente jovens palavras. Cheias de saber, de boca em boca, em pedaços de papel, no ar, na mente, onde quer que haja gente. 

Em sopas, ou cruzadas. Na paz, na guerra, no sim e no não. Sempre a verdade e o seu oposto, igualmente real.

São ou não são? São-no sempre, as eternas palavras, ainda que varridas, atropeladas, escondidas, tantas as que ficam por dizer, como as que são mal ditas.

Mais as malditas, de outra categoria, as pragas, o vexame, as raispárta.

Armam-se as paradigmáticas e as holísticas, as voluptuosas, umas peneirentas.

Respiram em nós as palavras, nem ao silêncio dão espaço, picam-nos o miolo, enrolam-se na garganta, levam-nos o coração à mão. Chegam a ser vomitadas.

Cheias de artimanhas, malabares de língua em língua, sedentas de palco. Trapaceiras. 

Falsas, dão o dito por não dito.

Belas peças, as palavras.

Mais as das falinhas mansas, as sensuais, as tais…

Estranho o mundo das palavras, em que as sérias são as que se dão.

São sorte, trabalho, lágrimas e suor. E descanso. Prazer. Conforto.

Precisa o mundo de palavras bonitas, maravilhosas, fantásticas, verdadeiras, mágicas ou milagrosas.

Precisa o mundo de palavras amigas, amantes e amadas. 

Precisamos todos de palavras bem ditas, que sabem estar. 

Queremos todos palavras de bom ar, senhoras do seu lugar, harmoniosas.

Precisamos de palavras radiantes, orgulhosas, humildes e generosas. Palavras boas, não necessariamente boazinhas. Palavras sinceras. 

Só quando todas as palavras souberem estar no seu lugar, sendo o que são, terá paz o mundo e descanso o coração.

São o início e o fim. É. Foi. E no meio, mais palavras.

E a certeza de que nos sobrevivem. E de que não vivemos sem elas.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).