“Carta de amor às festas de verão (especialmente a minha)”, por Vera Dias António

Foto: Vera Dias António

Neste fim-de-semana em que escrevo foi ponto assente, desde que me lembro de ser gente, ser a festa de verão do meu bairro, do meu espaço. A minha festa de verão. A festa de S. Miguel. Este ano não há cá festa, não há festas de verão. Há eventos pontuais que marcam, como se pode, a data. E que data! Que ponha a mão no ar quem nunca foi a uma festa de verão.

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O ano passava e nós crescíamos à espera do verão e das respetivas festas marcadas, ritmicamente, fim-de-semana após fim-de-semana num roteiro que começava com o Santo António e terminava, antes com o Casal e, mais tarde, com a Carregueira. Simples, assim. A agenda já a encontrámos feita e, ainda que algumas coincidissem, que não havia calendário para tanta festa de tanta terra, o fim-de-semana dava para tudo.

Não havia grande margem de escolha enquanto se crescia, as festas entravam-nos no roteiro existencial, como a família ou os vizinhos. Eram um dado adquirido. E eram tão nossas!

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Reparem que falo no passado. As festas de verão vivi-as intensamente nos anos 90. Hoje fazem-me a falta de encontrar alguns amigos e familiares, daqueles que só víamos, que só vemos, na nossa festa. Que era quando vinha tudo, se enchiam as ruas de carros e as casas fechadas viviam de gente lá dentro. Ainda acontece.

Este ano não há cá festa, não há festas de verão. Eu gostava daquelas festas em que os salões, os palcos, a quermesse, era tudo improvisado, postes de madeira armados ao alto, balcões de tábua e rama de eucalipto por cima. E depois o cheiro do eucalipto misturava-se com o do frango assado e esse, meus amigos, é o cheiro de uma verdadeira festa de verão.

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As associações foram fazendo melhorias, é bom que assim seja, e o esforço dos homens de todos os anos construirem o espaço da festa foi sendo compensado por infraestruturas de betão. Salões, palcos, quermesse… as aldeias passaram a ter associações melhoradas, mais cómodas, adequadas à ocasião. Mas falta-lhe o cheiro, aquele intenso cheiro a eucalipto.

A minha festa, como muitas, vivia-se durante quatro dias. Quer dizer, começava antes. Meses antes a fazer flores de papel, ao sábado à noite, e depois a fazer também as rifas. Ainda hoje, a jeito de tique, é raro o papel usado que não termine em forma de rifa. Nem penso nisso, começo a enrolar na ponta e em menos de nada está feito.

Na semana antes da festa a quarta-feira era dia de os homens irem colocar as luzes de várias cores. Na quinta-feira íamos todos, velhos e novos, homens, mulheres e crianças. Era o dia em que uma carrinha de caixa aberta ia com alguns homens ao eucalipto. Punham-se os fios de flores no ar. Enfeitava-se o caminho da procissão. Criavam-se os espaços. Mesas e cadeiras no lugar. E no fim da noite estreavam-se os grelhadores. Bifanas grelhadas com pão, batatas fritas e Sumol. A festa estava montada. E já mal se dormia na expetativa do dia seguinte.

Este ano não há cá festa, não há festas de verão. Mas lembro-me tão bem do momento exato em que começava a festa. A aparelhagem vinha logo depois do almoço e quando se ouvia música no ar, a mais pimba que consigam imaginar, estava aberta a festa.

Para uma miúda era mais complicado, ainda tínhamos que pensar no que íamos vestir nos quatro dias. Isto é tão certo como matemática pura.

Cada vizinho, cada pessoa do bairro tinha a sua tarefa, uns na cozinha, outros no bar, os que vendiam as senhas, o pessoal do loto, as mulheres na quermesse e, mais tarde, na barraquinha de chá.

Às vezes, muitas vezes, quando o largo estava cheio de gente, tanta gente, e a festa pulsava dentro de nós, eu subia ao primeiro andar da casa grande da associação e, na varanda, apreciava tão bonita composição. E ficava feliz como um raio! A nossa festa estava a correr bem.

Vinham os amigos, as minhas queridas amigas, as de cá e as que fui fazendo enquanto estudava, era neste fim-de-semana que vinham conhecer a minha terra e a minha festa. Um ritual.

Este ano não há cá festa, não há festas de verão mas acreditem que pelo menos três das minhas amigas conheceram ali os futuros maridos. Depois dos namoros dos nossos avós que se arranjavam quando se ia à fonte buscar água, as festas de verão foram palco de muitos amores, eventualmente desamores, e casamentos, claro!

Na cozinha era grande a azáfama. O frango, a bifana, o prego no pão, um reboliço naquele fim-de-semana que, para muitos homens, era o único em que metiam pé na cozinha.

O frango assado era a refeição que se repetia todos os fins-de-semana, festa após festa, e nunca enjoava. Porque cheirava também a eucalipto.

As rifas eram quase um vício, as mais baratas de desenrolar, coloridas, um jogo de sorte ou azar, pois não saía sempre prémio. As mais caras já eram sempre premiadas. Quantos fins-de-semana acabaram com uma coleção imensa de gaiolas para grilos, baralhos de cartas, um trator de plástico, berlindes e lápis de carvão… Quem não?!!!

E depois o loto. O jogo do loto, fonte de rendimento da festa e que se repetia tantas vezes quanto possível. Alto e pára o baile que se vai cantar o loto. A jeito de bingo, para quem não sabe. E no palco ouvia-se “vinte e dois, dois – dois, dois patinhos” e depois o “córenta e três, quatro – três” ou o inesquecível “um, sozinho, um, o pilinhas”. O que é que há para não gostar disto?!

E voltava o baile. O dancing era palco de alegria. Foi nestas festas que o meu pai me ensinou a dançar. E que mais tarde tanto dancei com as amigas e, depois, com rapazes. Era quase um ritual de crescimento. E era quando o meu pai saia da cozinha e vinha “ver o ambiente”.

E as brigas, havia sempre uma boa briga, não era?!

No domingo era dia de dar espaço à festa religiosa até porque, convenhamos, o Santo era o mote da festa. Ao domingo almoçávamos nos meus avós e num dos quartos tínhamos um conjunto de tolhas que só saiam da caixa naquele dia. E para quê? Para levar o Santo, claro! Pois que saíam no final da missa, em procissão, os Santos da terra e, com ou sem milagres, como bem ilustra a foto, tínhamos um grupo fixo de amigas para levar o Santo, amigas de infância, daquelas que ficam para a vida. Anos após ano, as quatro e o Santo. Abençoadas. Ah! As toalhas! As melhores e mais bonitas toalhas serviam para enrolar e colocar no ombro, para não nos magoarmos com o andor, que era pesado. Depois da festa eram lavadas e arrumadas na caixa para usar no ano seguinte.

Este ano não há cá festa, não há festas de verão mas uma coisa vos digo, crescemos felizes debaixo dos toldos de eucalipto, impregnados de cheiro a frango assado, música má, mas tão alta que se tornava boa, uma banda sonora tão nossa, tão cultural, tão portuguesa.

As festas de verão mudaram, estão mais sofisticadas, bons cartazes musicais, eventos paralelos que atraem mais gente. Eu parei ali. Naqueles anos enquanto crescia.

Este ano não há cá festa, não há festas de verão. Voltará a haver. Da memória não mas tiram. Fazem parte de mim! De nós. Dos que estão, dos que partiram, e do verão, a quem pertencem. Onde pertencem. No final da festa, que acabava tão depressa, retirava-se o eucalipto, desmontava-se o espaço, desprendiam-se as flores e arrumavam-se as luzes. Confortava-nos a ideia de que “para o ano há mais”!

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Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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