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“Carta de amor aos sonhos”, por Vera Dias António

Sonhar é bom e faz bem. O poeta Sebastião da Gama disse-nos que “pelo sonho é que vamos” e a fundamentação está na última frase do poema, quando afirma que “Partimos. Vamos. Somos.”

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Sonhar faz-nos ser. Ser mais, conseguir mais, ir ao encontro de nós, do que nos faz felizes.

Confesso que tinha uma certa dificuldade em afirmar sonhos. Pragmática, achava que o que devemos ter é objetivos pois um objetivo é algo que se trabalha e faz por concretizar.

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Percebi depois que ter um sonho é criar uma visão do que se deseja, os objetivos acabam por ser o processo desde o que é sonhado ao que é concretizado. Não sendo sinónimos, sonhos e objetivos são partes de um processo.

Mas é nos sonhos que nos fazemos, que sentimos. Porque os sonhos tornam-se parte de nós, do nosso ser, da nossa essência. E levam-nos a fazer.

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Não é tão simples como sonhar e esperar, que a coisa acontece. Pois não, ou o mundo seria o paraíso. Acreditando que todos sonhariam o bem. Ou então não, pois acredito que muitos sonhem o mal do outro. Ainda bem que não é assim tão simples.

Os sonhos têm mesmo que se manifestar em nós, no nosso trabalho diário, no nosso esforço, em tudo o que fazemos, no dar a alma com alegria, voltando ao poeta.

Os sonhos dão trabalho, quer sejam pessoas, quer sociais.

O sonho de Martin Luther King sobreviveu-lhe e ainda é um processo em construção. Porque é de muita gente, e corre contra muita gente, é um processo complexo, como tudo o que se almeja para um mundo melhor.

Já em relação aos sonhos pessoais… bem, o processo tem outra escala, mas acaba sempre por esbarrar no outro, no apoio ou dificuldades que nos impõem, com que nos deparamos. Mas com mais ou menos dificuldades, atingir a tal visão é o que nos faz bem e faz pessoas.

Os sonhos de quando dormimos são um género de experiências, brincadeiras da nossa imaginação. Bem, para Freud são desejos recalcados, o que pode ser assustador, convenhamos.

Mas o sonhar acordado é querer e crer em algo. É buscar algo mais, é ambicionar. E se não fizer mal a ninguém, é sempre um bom sonho.

Talvez um dos problemas do mundo seja o facto de sonharmos pouco. É que se não sonharmos tornamo-nos vítimas do marasmo, do deixa-andar, da avalanche que é viver-se em sociedade. Que é mesmo duro. É muita gente e muitas energias diferentes. Impossível controlar.

Por isso é que às vezes temos que olhar para nós, deixar o resto. Olhar para nós e perceber o que sonhamos, sem vergonha nem medos.

E permitir-nos sonhar.

Talvez no processo educativo, enquanto crescemos, nos vão apagando esta certeza e a beleza do que é sonhar. Quando deveria ser um processo que nos acompanha e cresce connosco, primeiro o sonho infantil, inocente, depois o sonho que é aquela coisa que nos dá força para partir, ir e ser. Nem é preciso ir para outro lado, é dentro de nós.

Neste mundo dos sonhos, é também muito bom sonhar a dois. É assim que crescem famílias, num processo contínuo de sonhos a dois. Tão bom!

O mais incrível é que ao ir pelo sonho acontece, por vezes, que o próprio sonho muda, talvez porque nos muda, e sonhamos de novo o que nos faz felizes. E se cada um de nós estiver feliz, o mundo sente-o e melhora também.

É urgente que se sonhe mais. 

Em início de ano, numa fase tão complicada do mundo e da vida de cada um é muito urgente que se sonhe mais. A jeito de uma corrente positiva que começa como uma experiência da imaginação (e é tão bom sonhar acordado) e depois é ir em busca da sua realização, passo a passo. Sabendo que certos dias serão maus e outros de concretização.

A certeza de que é bom sonhar é que há quem o tenha feito, e conseguido. Não somos mais nem menos que os outros, devemos permitir-nos sonhar.

Pelo dia de Reis recebi um postal onde estava escrito, por dois sonhadores, que as palavras nos ajudam a sonhar novos mundos e outros futuros. 

É muito isso. E acreditem que vem de quem sabe o trabalho que os sonhos dão e que há dias difíceis. Mas entre o sonhar e o concretizar formam-se projetos bons e dá-se espaço aos sonhos dos outros!

Vamos ao sonho?!

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Vera Dias António
Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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