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“Carta de amor aos finais felizes”, por Vera Dias António

Gosto de finais felizes. Não há o que não gostar. Se um final é feliz, tudo correu bem, como devia, tudo encontrou o seu caminho, o rumo certo, o resultado desejado.

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Gosto de finais felizes. Especialmente porque alguns finais são, afinal, o início de algo novo. Creio que somos todos assim. Talvez porque trazemos, da infância, esta magia à volta do “e viveram felizes para sempre”.

A bem da verdade quando comecei esta crónica, chegados que estamos ao final do ano, de mais um ano, seria essa a linha de pensamento. Sobre a renovação que os finais nos trazem, sejam quais forem. E uma mudança de ano é, efetivamente, de forma muito natural, tempo de renovar planos, pesar feitos, delinear projetos. Somos assim, todos ou quase todos. E ainda bem.

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Acontece que estava esta crónica meio escrita e aconteceu aquilo que nos mostra que às vezes achamos que as coisas estão mal e conseguem ficar pior, ou acontece o que não desejamos e o final feliz é adiado.

Trouxe-nos alguma esperança e o conforto de que as coisas vão melhorar, a notícia do início da vacinação, o haver uma vacina que nos permitirá controlar esta pandemia que tanto agoniou 2020. E começámos a ver alguma esperança para 2021.

Foi com esta esperança ao peito que a véspera de Natal se revelou um dia de grande angústia em Mação, com o aparecimento de um surto de Covid-19 no Lar de Mação.

E começou tudo a mudar. Várias colegas da minha mãe e muitos utentes do Lar infetados e, de repente, um óbito.

Já referi que a notícia da vacina nos trouxe algum alento. Sim, e os Lares vão recebe-la dentro de uma semana. Este surto, este ter que ser logo agora foi muito frustrante…

O nosso Natal que já seria de separação foi de afastamento total pois a minha mãe continuou a trabalhar e sabíamos que estava exposta, que podia acontecer.

E aconteceu.

Esta semana, em vésperas de ano novo, a minha mãe acabou por testar positivo. E digo-vos uma coisa, são várias fases, processos contínuos de angústia.

A minha mãe testou positivo e o meu pai eventualmente também testará.

E é assim que terminamos 2020, este ano que nos marcou de forma muito particular, um ano em que o mundo foi todo, rigorosamente todo, afetado por um problema comum e que agora nos chegou a casa. Terminamos 2020 com um surto em Mação que já atingiu cerca de uma centena de pessoas. O que é grave. Sentimo-nos fragilizados.

Eu queria falar-vos da beleza dos períodos de renovação. Bem que queria. Mas vamos adiar o tema. Como vamos adiar a euforia de uma passagem de ano.

Temos, isso sim, muito desejos para 2021, dificilmente um ano terá começado com tanta expectativa.

Tenho lido, e já escrevi também, sobre o desejo de que o mundo volte ao normal.

Vi entretanto, num filme, a ideia de que a normalidade é um conceito sobrevalorizado e que causa muitos estragos.

E fiquei a pensar nisto.

Na forma como julgamos os outros pela nossa suposta normalidade sem percebermos que o nosso normal não é o do outro. Se não respeitarmos as várias formas de normalidade seremos todos, sempre, perfeitamente anormais.

Depois há o facto de ansiarmos que o mundo volte ao normal quando o mundo, pensem bem, não tem nada do que deveria ser o suposto normal.

O mundo não precisa de voltar ao normal… o mundo precisa de um final feliz.

Para uns é um prato de comida. Para outros uma casa. Uma cama com lençóis lavados e tantas coisas pequenas que, por serem certas para muitos de nós, nem sabemos dar-lhe o valor. Porque ninguém se queixa do conforto.

Mas este ano vivemos todos terrivelmente desconfortáveis. E revelamo-nos… para o bem e para o mal.

Li um comentário sobre o aumento de casos em Mação com a consideração de que “esta gente deve comer m***@ às colheres”. Assim, com o maior à vontade do mundo.

Não, não precisamos que o mundo volte ao normal. Precisamos de repensar quem somos e o que andamos a fazer. E a dizer. Neste infeliz comentário façamos o exercício de pensar em tudo o que dizemos e ouvimos e no que nos leva a fazer considerações sobre os outros, sem história, nem memória, sem respeito, sem consideração, por vezes sem um pingo de humanidade.

Neste ano que termina, o final feliz (adiado) de que precisamos é o fim deste inimigo invisível em forma de vírus que nos veio desarranjar as vidas.

E o final de um outro vírus, que corrói e faz mal, que afeta o mundo naquilo que devia ser a sua base: a humanidade.

Precisamos, mesmo, de ser melhores pessoas. Há males que têm cura, outros exigem mais de cada um de nós. Mas a história mostra que ninguém se tornou grande por fazer dos outros menores. Bem pelo contrário. A isso chama-se insegurança. E não é normal.

Que 2021 nos traga os finais felizes de que precisamos. Todos.

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Vera Dias António
Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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