“Carta de amor aos filhos, particularmente aos meus”, por Vera Dias António

Nesta semana que começa assinala-se, em Portugal, o Dia dos Filhos. Se me pedissem para indicar uma palavra que abarcasse tudo o que há na terra e no universo, que englobe o bom e o menos bom, todas as alegrias e os todos os medos, naquilo que pode representar o próprio equilíbrio, eu escolheria a palavra Filho. Porque é muito isto.

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Quando abraçamos a felicidade e a responsabilidade de ter um filho é esta a mudança nas nossas vidas, muda tudo, num exercício constante de equilíbrio. Começa no parto aquela mistura de dor e um imenso amor, quase inexplicável.

Ter um filho, se retirarmos as camadas de amor romântico, é fundamentalmente um processo. Um projeto. Um plano que duas pessoas assumem. Um plano fundamentado, a maioria das vezes, com objetivos e orçamento. De preferência com um plano de sustentabilidade. A frio, é muito isto.

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Depois, ou antes, se preferirem, é um imenso e enorme ato de amor.

Será das coisas mais bonitas na vida a felicidade de trazer um novo ser ao mundo. O olhar para um bebé recém-nascido e perceber que existe, é real, foi feito por nós, que resulta da junção de duas pessoas cuja mistura de ADN e uma carrada de processos biológicos resultou naquele ser. Maravilhoso.

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Um filho, biológico ou não, muda-nos enquanto pessoas. O foco deixa de estar em nós e assumimos uma quantidade de responsabilidades para as quais nos preparamos, muitas vezes, enquanto acontecem, ou nos são exigidas. Sem formação, algumas vezes sem noção, sem manual (quem nunca desejou um manual?!) e muito instinto. Ah! E conselhos, muitos conselhos, tantos conselhos. Especialmente os contraditórios. Ficamos a um passinho da loucura, certo?!

Nos primeiros tempos as preocupações são básicas, tão básicas como as necessidades mais primárias que temos, como ver se respira, o que come, se bebe, se ganha o peso suposto, se dorme, ou porque não dorme, ou ainda se será normal dormir demais. Medimos cada questão como se fosse um problema digno de um génio. E adivinhar se tem frio, ou calor, se está confortável, se o choro será de cólicas, ou se é feitio… o que é isto?! Ficamos a um passinho da loucura, certo?!

Nos primeiros anos vemos o seu desenvolvimento como pequenas vitórias, uma sequência de feitos, como se tivéssemos uma check-list e vamos colocando um certo em cada conquista.

Olhamos a nossa casa e tentamos adivinhar tudo aquilo em que podem tocar, mexer, em que se podem magoar, tentamos adivinhar cada armadilha, e são tantas. Ainda assim nunca temos imaginação suficiente. Mas os filhos, já se sabe, têm-na de sobra. E todo o processo de antecipação não chega, é necessária uma atenção permanente, tudo o resto passa para depois, não se sabe quando. Ficamos a um passinho da loucura, certo?!

Entretanto crescem. Trazem ao nosso dia-a-dia uma quantidades de gracinhas que contamos aos nossos, à família, bem como todas as fotografias que partilhamos como que a questionar e a afirmar, ao mesmo tempo, o ser extraordinário que temos a sorte de ter na nossa vida. São picos de afirmação, de conforto, aqueles momentos em que nos auto-fagamos e sentimos que se calhar, estamos a fazer tudo bem.

Depois há o outro lado, o das febres, das quedas, de problemas que não se sabe de onde vêm, de questões essencialmente de saúde para as quais, uma vez mais, não estamos preparados. Idas ao médico, noites no hospital, dúvidas, sentimentos de culpa e muita auto-comiseração. São desafios que nunca julgámos ter e medos que nunca pensámos sentir. Tantos medos. Tantos. Ficamos a um passinho da loucura, certo?!

Neste processo de altos e baixos, de temer e de fazer paz, eles, os filhos, vão crescendo. Nunca fica mais fácil. Os desafios são apenas outros.

As entradas na escola, o aparecimento dos medos e receios deles, que aumentam os nossos, mas para os quais nos fazemos fortes, sorrimos e dizemos que vai correr tudo bem.

As birras que crescem com eles numa perfeita relação de proporção. O não quero tomar banho, o não quero vestir isso, o não era essa prenda que queria, o porque é que me puseram este nome, o porque é que tenho que ir à escola, um enjoo permanente face a tudo o que lhes proporcionamos. Os amigos, as zangas com os amigos, ou simplesmente, os amigos é que sabem e nós não percebemos nada da vida. As respostas espertas, ou aquelas mesmo espertinhas. As vezes em que temos que contar até 10 para não sair asneira. As tarefas, tão simples, que se esquecem de cumprir, o tédio imenso que é ajudar. E partilhar. O “porque é que não sou filho único”, isto quando temos mais que um, claro. Pergunta particularmente estranha quando não são o mais velho… Ficamos a um passinho da loucura, certo?!

Depois há também as descobertas que fazem, os feitos que alcançam, as aprendizagens de coisas que nem nós sabemos fazer, os sinais de mudança no mundo deles, que se refletem nos nossos. E quando nos surpreendem. Quando dão ou fazem algo que não estávamos à espera. Quando se superam. Quando também eles fazem paz, sorriem e dizem que vai correr tudo bem.

Os filhos são uma experiência permanente para a qual temos sempre altas expetativas, na qual depositamos por vezes os nossos próprios dramas e objetivos. Entretanto aprendemos que estamos a criar pessoas, não tanto à nossa imagem, com com vida própria. Claro que nos cumpre orientar, aconselhar, ajudar, repreender, mas o desafio maior é perceber, ouvir mesmo quando não falam, estar alerta, dar espaço e perceber as suas particularidades, os seus dons, jeitos, gostos, vontades e desejos. O que eles nos dizem, nas pequenas coisas que fazem, ou não fazem, e que nos explicam muita coisa. E, de novo, orientar,  aconselhar, ajudar e repreender, se necessário. E enaltecer. Amar. E deixar que nos surpreendam. Porque conseguem ser absolutamente maravilhosos!

A minha mãe diz muitas vezes que quanto mais crescemos, mais preocupações lhe damos. Ainda hoje fica muitas vezes a um passinho da loucura, certo?!

Nesta semana que começa assinala-se, em Portugal, o Dia dos Filhos. Se me desafiassem para fazer um análise crítica ao filme que é ter um filho, diria que é uma comédia romântica, com uns picos de drama, mais nossos que deles, a maior parte das vezes.

O guião deste filme é, na verdade, muito simples: dor, amor e muito humor, ou ficamos a um passinho da loucura, certo?!

Bom dia dos filhos, Filhos! Um beijinho especial ao Amadeu, ao Rui, ao Lourenço e à Rita, os meus verdadeiros e fantásticos filhos da mãe!

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