PUB

“Carta de amor aos domingos de chuva”, por Vera Dias António

Gosto mais de frio do que de calor. Gosto do outono. Gosto de dias de chuva. Gosto muito de domingos de chuva, em casa. E pronto, a crónica deste domingo de chuva resume-se a isto. Boa semana! Não, não é só isto. Todos temos as nossas diferenças e preferências. E uma explicação para cada gosto pessoal.

Os domingos sempre foram dias mágicos para mim. Os melhores da minha infância. Quando era miúda e tínhamos o café do meu avô, onde a minha mãe trabalhava de segunda a sábado, o domingo era o dia de folga. Era nosso, da família. Era o único dia dos quatro. Quando saíamos, se fazia sol. E quando estávamos, simplesmente em casa, se chovia.

Assim, perfeito. Sem deveres, afazeres, nem rotinas. Minto. Havia uma rotina. Ao domingo, o banho era demorado. De manhã, antes da missa.

PUB

Ao domingo era a minha mãe que nos lavava o cabelo, com cuidados especiais. Tínhamos, a minha irmã e eu, uns cabelos longos, muito longos. O meu chegou a medir oitenta centímetros o que é, entenda-se, metade do meu tamanho. Era cabelo com uma pessoa dentro.

O meu cabelo era preto e escorrido, o da minha irmã era castanho e encaracolado, tão encaracolado que fazia canudos perfeitos, sem necessidade de artifícios. Aquele cabelo e um vestido de seda branco com folho na saia e manga em balão valeu-lhe ser a menina das alianças de quase todas as primas da minha mãe.

Mas dizia eu que ao domingo a minha mãe é que nos lavava o cabelo num cuidado demorado e especial que envolvia espremer sumo de limão para lhe dar brilho. Creio que também usou ovos, ou clara de ovo, mas o limão era a sua arma secreta para nos dar brilho ao cabelo. E depois íamos à missa, sempre ao meio-dia, em Mação. Anos, muitos anos mais tarde, outro dia ainda aconteceu, ainda me dizem algumas senhoras da vila que se lembram quando entrávamos na Igreja e se viam aqueles cabelos tão compridos e brilhantes.

Depois vinham as tardes de domingo. As tardes de domingo de chuva. Eram tardes de cinema. Quando só tínhamos dois, depois três e depois quatro canais na televisão não havia muita escolha mas as tardes, felizmente, eram de cinema. As tardes eram de sofá e manta. Nos domingos em que o meu pai ia à caça e ficávamos só as três nem se pensava em jantar. Comíamos torradas e bebíamos chá. A minha mãe bebia café, que nunca foi pessoa de chá.

Assim, perfeito. Sem deveres, afazeres, nem rotinas.

Mais tarde os meus pais fizeram a lareira e os domingos de chuva passaram a ser, também, tempo de ler à lareira. E cheiravam sempre a fumo, os meus pobres livros. Mas tanto que viajei e sonhei naqueles domingos de chuva, à lareira.

O jantar também mudou e, por vezes, passava por se assar um chouriço na lareira. Um dos meus sabores preferidos do mundo. Sabor a domingo ao fim de tarde.

Os domingos de chuva da minha infância são uma das melhores recordações que guardo. O domingo era dia de família, sofá, manta e cinema.

Mais tarde o domingo era dia de partir, de semana fora. Era dia de comboio. E passou a ter outro sentido. Igualmente bom.

Mas ainda hoje gosto tanto de domingos de chuva. Em casa. Em família. O nosso dia. Por vezes as melhores memórias são as mais simples. Digam-me se há alguma coisa melhor que passar um dia de chuva em casa.

Assim, perfeito. Sem deveres, afazeres, nem rotinas.

Boa semana!

 

 

PUB
Vera Dias António
Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).