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“Carta de amor aos Bolinhos Santinhos”, por Vera Dias António

O dia de hoje, para mais coroado pelo facto de ser de Todos-os-Santos, sempre foi dos dias mais felizes da nossa infância. Crescer, como eu cresci, adivinhava este dia com uma ânsia daquelas de sentir borboletas no estômago, uma felicidade inexplicável.

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Os processos de socialização, ou seja, os processos com que nos fazemos gente, trazem do passado e das famílias em que nascemos vários saberes, jeitos, por vezes até sotaques e modos de falar. Trazem também tradições, nossas, das famílias e dos sítios. Crescer tem, assim, uma enorme ação no nós do futuro, pelo que se querem memórias felizes na gente que cresce.

Crescer, como eu cresci, passava sempre por ir pedir os Bolinhos Santinhos no dia 1 de novembro.

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Dias antes preparavam-se as bolsas, uma maior para bolos e rebuçados, um saco de plástico para frutos como as romãs e uma pequena bolsa para as moedas. Às vezes levava-se um saco extra, podiam oferecer algo difícil de distinguir em qual dos anteriores guardar. Arrumava-se tudo numa mochila e esperava-se.

Dias antes escolhiam-se também os amigos com quem partilhávamos a missão. Percebemos cedo que nos grupos menores as ofertas eram maiores. Essa era uma das premissas, grupos pequenos, só as duas ou três amigas mais próximas.

Havia ainda uma particularidade que era fazerem-se grupos só de meninas e grupos só de meninos. E depois, era ver quem mais arrecadava, a jeito de guerra dos sexos. Alguns anos eram exceção e havia misturas.

Outro pressuposto era sair cedo, por três motivos. Um, para que apanhássemos os vizinhos em casa, que era dia de Feira e as pessoas faziam-se à vida. Dois, porque mesmo que só fossem à Feira de tarde, muitos iam à missa ao meio-dia. E o derradeiro três, porque quanto mais cedo, menos escolhidas estavam as dádivas e as pessoas eram mais generosas.

Por aqui não se pedia pão por Deus, nem em memória dos Santinhos. Éramos mais práticos e, chegados à porta, tocava-se a campainha e gritava-se um sonoro e simpático “Bolinhos Santiiiiinhos”. Se a casa fosse de algum familiar de um de nós, esse era o que fica à frente para esboçar o mais cativante sorriso, que apelasse a uma maior generosidade.

Crescer, como eu cresci, era entrar em novembro com maior riqueza, sem controlo das porcarias que se comiam e também com alguns desgostos sobre o que se recebia. Ainda não tínhamos percebido nessa altura que “quem dá o que tem, a mais não é obrigado” pelo que frente a algumas casas já nos assaltava o desânimo e sussurrava-se um “Bolinhos santi..nh..s” quase mudo mas sempre sem desistir, com a esperança de que algum ano a pessoa se tornasse mais generosa. Mas outros havia, ainda, que nunca abriam a porta. E sabíamos que havia gente em casa. E insistíamos. E riamo-nos. Fazíamos até alguma troça. E avançávamos, com mais uma história para contar.

Por vezes os vários grupos cruzavam-se e mediam-se sacos, volumes e pesos, poderia haver dicas de algum vizinho que nesses ano estivesse a abrir os cordões à bolsa. Mas estes encontros serviam mais para medir façanhas e conquistas.

Sabia-se também que nas casas dos nossos familiares recebíamos uma oferta maior, em detrimento dos parceiros, mas entre os vizinhos estavam as famílias de cada um, pelo que a coisa lá se compunha e não diferia muito.

Crescer, como eu cresci, era fazer neste dia um mealheiro. Quase sempre para gastar de tarde, na Feira dos Santos. Quando eu era pequena apareciam ainda os carroceis e os carrinhos de choque e parte do ganho era ali gasto. Especialmente nos carrinhos de choque.

Porque faço anos perto da data aconteceu alguns anos juntar os trocos dos anos e os dos bolinhos e ir à Feira comprar umas botas para o inverno. Eu digo trocos mas um ano comprei umas botas que me custaram uns cinco contos, porventura as mais caras que tive na infância.

Quando a manhã terminava regressávamos a casa para fazer as contas. Contavam-se moedas, rebuçados, romãs e broas. Mais os tremoços e frutos secos. Adicionava-se as que já tínhamos consumido pelo caminho, sem perdas, para engrossar o relatório de contas que iríamos apresentar segunda-feira no recreio da escola, entre todos, a ver quem tinha sido mais expedito ou abençoado.

Pedir os Bolinhos Santinhos era realmente um processo que exigia preparação, parceiros, estratégia, conhecimento do mercado e visão, que a coisa não era simples. De certa forma, sendo uma das nossas primeiras atividade que requeriam esforço e dedicação a troco de uma forma de remuneração, este dia preparava-nos para o mercado de trabalho. Reparem que até quem tinha mais conhecimentos se safava melhor. Bolas, que isto bate demasiado certo! É a lei da vida, dirão. Ou pelo menos uma delas.

Entretanto crescíamos e ainda arriscávamos até ao ano em que alguém dizia que já estávamos grandes para pedir os Bolinhos e percebíamos que era o último ano, vinha a reforma….

Depois passaram-se 15 ou 20 anos e foram os nossos filhos a ir pedir os Bolinhos. Os meus sempre foram, em Mação ou na Amêndoa. Têm até bolsas personalizadas, umas bordadas pela tia Helena, outras feitas por eles nos workshops de Bolsas para os Bolinhos Santinhos da Biblioteca de Mação.

Só este ano é que não. Não se vai porta-a-porta. Compramos-lhes uma guloseima especial e os avós e tios lá fazem chegar um miminho. Não é a mesma coisa, pois não, mas cumpre-se como se pode, a tradição! Por aqui, a mesa já está posta com os Bolinhos Santinhos que nos chegaram!

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Vera Dias António
Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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