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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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“Carta de amor aos anjos desta vida”, por Vera Dias António

No passado fim-de-semana foi notícia e chocou-nos a absurda morte de Sara Carreira, filha de Tony Carreira. O choque da morte de uma figura pública não o é pelo facto de ser conhecida. Aliás, não o é apenas por isso.

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Quer queiramos, quer não, há pessoas que nos entram em casa, na vida, cujos percursos acompanhamos como se de um amigo se tratasse e o Tony Carreira faz, gostemos ou não da sua música, parte desse género de familiares afastados de quem sabemos dos feitos, dos sucessos e do nascimento dos filhos.

Eu tinha, quando a Sara nasceu, a idade da Sara quando morreu. 21 anos. Assim, tudo o que a vida nos dá, e que é muito e maravilhoso, neste espaço que nos separava, duas décadas, aquela menina não vai ter.

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E pior, aquela família não a vai ver viver. Porque a perdeu. A sua menina anjo.

Creio que acontece um pouco a toda a gente, a partir do momento em que se tem filhos, que é ter aqueles rasgos de pânico e medo, sufocantes, com a ideia de perder um filho. Quando nos livramos de tal pensamento saímos de um transe absurdo e respiramos, aliviados, porque não é real. Dizemos que “nem é bom pensar nisso”. Pois não. Mas o medo é muito nosso e tentamos esconde-lo lá para trás, no fundo da última das gavetas dos medos do nosso pensamento.

Noutras vezes, para muitas pessoas, é efetivamente real.

Situações como esta, em que percebemos a morte de alguém tão novo, trazem-nos de volta, e de novo, as nossas próprias penas.

Trazem mesmo.

Vamos automaticamente buscar as lembranças de situações que vivemos, porque acontecem, à nossa volta.

Quando nasci já uma prima da minha mãe tinha perdido um filho. E cresci com a ideia daquele primo que já não era, já não estava. O Rui.

Mais tarde, teria 12 ou 13 anos, perdemos a minha querida prima Vera. Vera Mónica como eu. Tinha menos um ano. Já era menina suficiente para me questionar sobre o porquê de tão grande absurdo. Terá sido o primeiro choque daqueles que a morte nos vai trazendo, uns mais esperados que outros.

Porque vieram mais. Foi o Paulo, a Rute, o Hugo, o Mário, o Bruno, o Fábio, o querido e tão novo André e tantos outros, tão novos. Tanta gente nova. Daqui. Gente mais ou menos próxima, mas daqui. E a gente sente-se.

A minha querida Isabel apresentou-me a sua Carolina quando fui, quando nos fomos despedir dela. De uma dor… mas de uma Paz… Já passaram 16 anos da despedida, se não estou em erro, e ainda este ano lhe fez um bolo de aniversário. Se isto não é amor a um filho, não sei o que será.

A minha irmã perdeu a amiga-irmã Marta, daquelas amigas mesmo boas, sabem?! Um absurdo. Muita gente perdeu a Marta, mas ninguém como a querida D. Rosário que a mantém viva como pode, afinal foi quem lhe deu a vida e trocaria, tenho a certeza, a sua pela dela.

Há dois ou três anos, veio a notícia da morte de uma sobrinha de uma colega, ali pela idade da Sara, igualmente num acidente de viação. A Carolina. Com tudo para viver. Filha única de dois devotos pais. Um amor de menina e uma menina muito amada.

Também a Carolina era demasiado nova, imensamente gira, inteligente, bem formada, figura de anjo, um doce de menina. E, de novo, o absurdo, o porquê sem resposta de tal absurdo…

Há na vida dos pais, acredito, uma perda de sentido, daquele sentido obrigatório para onde nos voltamos quando trazemos um ser ao mundo e que, de repente, se torna um beco, um beco daqueles escuros e assustadores, sem saída.

Não sei como é que se sobrevive a isto, mas acredito ser de uma dor que não se consegue explicar, coroada, completamente envolvida em angústia e a falta de um porquê que nos entre na cabeça e dê algum sentido a uma morte precoce. Haverá?!

Li algures uma explicação, deve derivar de alguma religião ou filosofia, não sei qual, mas a ideia é que não somos só este ser que habita este corpo. Aliás, somos muito mais o ser, ou espírito, do que o corpo. E que, como num jogo, vamos passando de nível, e esta vida como a conhecemos, é só um nível, no qual uns atingem pontos suficientes mais depressa para passar ao próximo nível. Aí compreenderia a perda de um bebé, de uma criança, de um jovem. O facto de ser um ser mais evoluído, preparado para o próximo glorioso nível. Um vencedor!

Só que não sabemos se assim é. Não sabemos se também o Renato ou o Carlos mereciam partir tão cedo, como partiram ainda outro dia. Como não compreenderão os pequenos filhos que deixaram. E muito menos os pais, a querida São…

Perdemos há uns meses, 9 meses para ser correta, uma colega. Não foi acidente. Foi cancro. Foi um estúpido cancro. A história da vida da Betinha tem contornos ainda mais absurdos pois só ela e Deus sabem o que viveu para que a filha também vivesse. E logo a seguir a mãe adoece. E morre.

Isto continua sem fazer sentido nenhum. A não ser o referido acima, que se calhar mereceu simplesmente passar para um nível superior neste jogo que é a vida e que, afinal, é muito mais do que aquilo que conhecemos. Ou então, a querida Betinha, algum dia pediu a Deus que a levasse, e não à sua menina. E foi ouvida. E poucas mães o são.

Outro dia, por altura do Dia dos Santos, vi com os miúdos o filme Coco. Um filme a ver, interessante, mas do qual retenho esta maravilhosa mensagem de que, enquanto houver uma fotografia e a memória de alguém, essa pessoa permanece viva. Maravilhoso, não?!

Estas memórias que nos vêm quando, como agora, a família Carreira perdeu a sua Sara e de cada vez que alguém parte cedo demais, trazem-nos também a certeza de que a vida é um sopro. Hoje é, hoje estamos, hoje somos, e daqui a pouco, amanhã, um dia destes já não é, já não estamos, já não somos. Pode acontecer. Acontece.

Confesso-vos que gosto muito daquele momento do dia quando, antes de me deitar, espreito as respirações descansadas do sono dos meus filhos.

Sabem, aquela respiração boa, profunda, vagarosa, pausada, de recuperação. Eu sei que as crianças se querem ativas e é muito boa a loucura e vivacidade nesta casa, mas já percebi que a sensação que me conforta é a de saber que ali, naquele momento, naquele preciso momento, está tudo bem, estão todos bem.

E não há nada que pague isso.

No passado fim-de-semana foi notícia e chocou-nos a absurda morte de Sara Carreira, filha de Tony Carreira. E ele já sabia, sem o saber, como sabem muitos pais que “depois de ti mais nada, nem sol, nem madrugada…”.

Que estes pais, estas mães, estas famílias consigam, ainda assim, alguma Paz, pois os anjos, que todos temos, acredito que vivem em Paz. Porque vivem em nós enquanto deles houver memórias e histórias e amor. Que é o que fica quando se parte, cedo ou tarde. Sim, é o que fica quando se parte, para onde quer que vão os anjos.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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