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Quarta-feira, Junho 16, 2021

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“Carta de amor ao Poço das Talhas, particularmente à população de Queixoperra”, por Vera Dias António

Vivemos rodeados de vaidades pequeninas, umbiguismos que se tentam mascarar de humildade bacoca, disputas ridículas por meio metro de terreno e eu ainda fico em choque com mortes por causa de heranças ou titularidade de terrenos. Vivemos num mundo do não faz e não deixa fazer, um mundo em que impera o medo, aquele medo pobrezinho de que o outro faça mais do que nós. E cria-se, pelos dias de hoje, uma força contrária àquilo que deveria ser a norma. Uma inércia social. Um desdenhar diário, tanta gente em bicos de pés. Uma introdução que reflete a pequenez de muitas mentalidades. O ridículo, talvez o mais ridículo daquilo que o homem consegue ser.

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E depois há o oposto. O extremo oposto. O que merece ser mesmo motivo de vaidade, o trabalho humilde em prol de todos, sem disputas, só boa vontade. Um verdadeiro orgulho. E é isto que deve sentir a população da aldeia de Queixoperra, no concelho de Mação.

Houve ali um sonho, a que se juntou outro, e outro e a soma dos sonhos foi coroada de boa vontade. Pouco mais do que isso. Uma fórmula perfeita!

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Mas comecemos pelo início.

Há um espaço perto da Queixoperra que começa por ter a particularidade de ser um ribeiro, a que chamam poço, escavado pela água entre as rochas, num vale. Nalguns sítios a força e o jeito da trajetória da água cavou buracos a jeito de talhas, onde a água fica reservada, mesmo quando o caudal desce. São várias as talhas que a água criou ao longo do poço, e que são verdadeiras obras de arte.

Há cerca de século e meio os locais viram na força da água o sítio ideal para se fazerem azenhas o que é, de resto, muito comum pelo concelho de Mação onde a água nasce da terra de forma única, uma riqueza. E foi sempre muito à volta da água que os homens encontraram meios para sobreviver, laborar, trabalhar, crescer.

Pois que foram ali construídas engenhosas azenhas e foi ali que várias famílias encontraram uma forma de trabalhar, um meio de subsistência.

Também as terras à volta, próximas da água, eram cultivadas pelos seus proprietários. Tudo como em muitos outros sítios. Mas este local, a que chamam Poço das Talhas, tem a sorte de ter em muitos habitantes de Queixoperra as mais doces memórias de infância. E sem estas memórias, já se sabe, somos muito pouco.

De maneira que uns passeios tímidos, umas visitas das famílias dali em dias de festa, partilhas de memórias do antigamente foram dando forma ao sonho de voltar a dar vida ao sítio. Terá sido muito assim. Há quem diga que lhe parece que ainda conseguia ouvir o som das mós das azenhas a trabalhar. E foi desta memória que se deu início à recuperação da azenha com mó de pedra. Na casa do lado iniciou-se um pequeno núcleo museológico que expõe vários utensílios da vida dos moleiros, do trabalho rural, da transformação dos cereais em farinha.

Uns hoje, outros amanhã, em grupos mais pequenos, outros dias maiores, foi-se recuperando o espaço. Muito à volta da associação local, muito com o trabalho de muita gente. Pelo bem de uma herança cultural, local, que rejuvenesceu!

Numa das extremas, num alto, junto à mesa de merendas, deu-se forma simbólica a um poço antigo ladeado de talhas, pequeno miradouro propício a tirar fotos que registem a passagem por ali. Porque é esse o convite, depois de meses e meses de trabalho, que se visite o local, que se mostre aos mais novos o que era a alabarda do burro, a marmita e a colher de ferro do moleiro, a peneira, a tigela de barro…

O espaço não é muito grande, espalha-se por pequenas encostas, não é o de mais fácil acesso. Mas quando se chega lá parece que fomos no tempo lá para trás, tudo muito rústico, antigo, e a funcionar.

E foi toda uma população, ou a sua maioria, os que ali tinham memórias, histórias, vontades, foram essas pessoas que se juntaram pelo bem comum. E isto é tão raro.

Acredito que tenham ocorrido pequenas situações de discórdia. Acredito que nem todos tenham acenado que sim a tudo. Que um ou outro pense que aqueloutro poderia ter feito mais. Faz parte. Mas não me parece que tenha havido muito contra corrente. Porque a direção da água é sempre para o mesmo lado, e foi nela que a população de Queixoperra se espelhou. Porque viu ali uma pequena grande riqueza, agora como há século e meio atrás.

Acredito ainda que alguns tenham tido mesmo muito trabalho que pode parecer pouco reconhecido. Acreditem que não o é. E a consciência de cada um deve bastar. Não há nada que pague a sensação de fazer algo pelo outro, neste caso pelo bem comum. É uma alegria que nos dá uma sensação de paz que não tem preço. Por isso, muito bem e muito obrigado.

Esta carta que vos escrevo hoje reflete muito uma frase recorrente que vejo amiúde e à qual parecemos dar pouca importância, mas que o mundo precisa muito e urgentemente, que é “mais amor, por favor”!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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