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“Carta de amor ao meu bairro”, por Vera Dias António

Esta semana, sozinha de carro, de regresso a casa, entrei no meu bairro de sempre e vieram-me à memória várias pessoas e eventos de quando crescia e eramos incrivelmente felizes. E pus-me a pensar nisto de ter um espaço nosso. A nossa aldeia, a nossa rua o nosso bairro, enfim, o espaço-rua em que crescemos e onde nos aventuramos além das fronteiras da nossa casa.

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O meu bairro não tem nome de bairro, hoje é até uma Avenida, mas sempre o senti como bairro. Aquele conjunto específico de casas à volta de uma reta comprida, a sair de Mação. De facto, embora hoje estejamos integrados na vila em si cresci com a placa que indicava o fim de Mação no início do bairro. A partir dali já eramos outro espaço, curiosamente sob o nome de dois santos: primeiro S. Miguel e mais acima S. Domingos. Além das casas que ladeiam a rua principal, há as ruas que acompanham a nossa reta, umas perpendiculares, outras paralelas. Cresci na zona de S. Domingos, numa das ruas paralelas do bairro.

Éramos tantos. Éramos os nossos avós, ainda alguns bisavós, os nossos pais e nós, os mais novos, os miúdos e miúdas do bairro.

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O meu primeiro espaço-rua era pouco mais do que o largo onde morávamos. Um largo maravilhoso que, da casa dos meus pais dá para a casa de pedra que foi dos meus bisavós. O largo do tanque de lavar roupa, do outro tanque maior, do poço, do poial, da adega do tio Luís e das festas de família, como os batizados que ali se faziam debaixo de um telheiro de rama de eucalipto. Era este largo que atravessávamos para ir buscar água à fonte e em que se juntavam os primos e primas quando os que estavam fora vinham à terra. Foi neste largo que, muito miúda, assisti a um nevão enorme, a primeira vez que vi neve sem sair de casa.

Era também neste largo que sobrevivia uma velha carroça, já sem rodas, mas com toda a estrutura intacta, onde tanto brinquei com os meus primos, na verdade filhos das primas da minha mãe, mas depois a gente é toda uns dos outros e não há 1.ª nem 2.ª geração, é tudo primo.

O meu avô abriu, entretanto, um café na reta e o meu mundo abriu para ali. Crescemos muito ali, e muita da vida do bairro passava por ali. Lembro-me das camionetas carregadas de areia ou tijolos do tio Augusto e, depois, do nascimento da Aji. Uma das mudanças que teve no bairro foi a vinda de várias famílias que, por ali trabalharem, aqui vieram morar. E foram acolhidos como nossos. A família que teve mais impacto na minha foi a do Zé e da Felisbela, mesmo ali em frente, vimos as miúdas nascer e tornaram-se família. O Zé já nos morreu e custou-nos, ao meu pai como se irmão fosse, a nós como um tio. São estas ligações de bairro que não têm igual, de pessoas que se tornam mesmo nossas.

O bairro e a vida comunitária cresceram imenso enquanto nós também crescíamos. No café tínhamos uma sala de refeições que nunca foi restaurante, é-o hoje. Aquela sala era na altura um género de refeitório onde os funcionários da serração vinham almoçar com as suas marmitas. Conhecíamo-los a todos. Lembro-me até de muitos namoros que deram casamento e era tudo acompanhado no café, como uma central de informação privilegiada.

À tarde havia vagas de clientes. Vinham os funcionários dos bancos e não me esqueço que o Sr. Carlos comia sempre um pão com banana, o que ainda hoje me arrepia. Depois vinham os funcionários da Câmara, os da Aji, várias camadas de gente, quase sempre os mesmos, a quem acompanhávamos a vida, e que faziam parte da nossa.

Já as manhãs eram tempo de menos clientela, mas sempre a mesma, perto da hora em que chegava o padeiro. Vinham beber café e comprar o pão a vizinha Beatriz, a Felismina, a D. Alcina, a Felisbela, a D. Inês…. A querida D. Inês morreu-nos atropelada aqui na reta. Foi um choque tão grande. Era como uma avó. A minha irmã tinha-lhe um carinho especial e jurou, quando ela nos faltou, miúda ainda, que um dia se tivesse uma filha se chamaria Inês. E teve. E tem! É esta a beleza dos bairros, já o disse, gente de outra gente, de outros locais, de outros espaços que vem, nos entra na vida, e se torna nossa. Quase mágico!

Uma das maiores manifestações de entre ajuda de que tenho memória é do início dos anos 90. Houve um incêndio muito grande. Atingiu primeiro o Castelo, para onde os meus pais foram defender a casa da minha avó paterna. Ficámos, a minha irmã e eu, com os meus avós maternos. Nessa noite o fogo galgou montes e vales, veio e ameaçou o Cabeço da Cruz, o monte que emoldura o nosso Bairro. Se atingisse o alto da cruz descia para o bairro e, depois, para Mação. Os meus pais estavam, entretanto, retidos no Castelo, sem conseguir vir para cá. Pois nessa noite juntaram-se os homens do bairro, o meu avô incluído e foram, com enxadas, em bando, segurar o fogo no cimo do monte. A memória que tenho é de estar à janela do quarto, atrás da cortina branca, a ver aquele clarão imenso atrás do meu Cabeço da Cruz e a saber que os homens estavam lá, que o meu avô estava lá. Um medo e uma aflição tão grande. A noite ia longa quando se ouviu gritar lá do cimo “Água, água”. Há memórias que são imagens poderosíssimas, não é?! Não sei quem foi, se mulheres, se algum dos rapazes maiores, levar o que beber aos homens que combatiam as chamas e que conseguiram segurar o fogo, com enxadas e ramos e o fogo não chegou à cruz, nem ao Bairro, nem a Mação. Nesse ano não!

Outra memória que tenho, mas que não é do meu tempo, que me contaram, é um episódio muito particular. A antiga capela de S. Miguel não era lugar de culto usual e o seu zelador à altura acabou por usá-la como arrecadação de ferramentas e afins. No espaço contíguo fez mesmo uma horta. As pessoas não gostavam, claro, mas a gota de água deu-se no dia em que ofereceu o Santo a alguém porque lhe ocupava muito espaço na tal “arrecadação”. Pois que se juntaram as mulheres e as crianças e foram à tal horta e destruíram tudo, partiram ramos de árvore, desfizeram o couval e dali não restou nada que fizesse horta, esvaziaram as ferramentas e resgataram a nossa Capela de S. Miguel que aí voltou a ter vida, há mais de 50 anos. Começaram nesse ano a fazer-se as Festas anuais para dinamizar a Capela e arranjar dinheiro para lhe fazer obras. Ali se fizeram casamentos e batizados e, desde então, as Festas de verão. Entretanto fez-se uma nova Capela que é o centro, sempre será o centro de todo este bairro. A Capela e a sua Associação. A Associação das Festas que tanto me marcaram e de que já por aqui falei. Onde se faziam os casamentos que levavam uma semana a preparar, uma festa imensa. Tantos de que guardo tanta memória boa. Os bailes no Inverno, os de Carnaval. Os passeios e os “assaltos” ao cimo do monte, à Cruz. O pedir os Bolinhos Santinhos. Tanta coisa boa que nos marca no nosso lugar especial.

E depois nós, os miúdos à altura. Os de cá e os que vinham de férias. Tantos, de tantas histórias e aventuras. Nós que crescemos livres e felizes, que fazíamos jogos na estrada, que saltávamos as fogueiras pelos santos populares, que conquistávamos o mundo de bicicleta.

Os miúdos cresceram. Os que partiram. Os que estão. Os que foram e voltaram. Os miúdos e miúdas que marcaram as amizades e a minha infância. Os miúdos e miúdas de S. Miguel.

Esta semana, sozinha de carro, de regresso a casa, entrei no meu bairro de sempre, e pus-me a pensar que hoje somos nós os pais, os nossos pais são já os avós, ainda temos alguns dos bisavós e os nossos filhos são os novos miúdos e miúdas do bairro.

Esta semana, sozinha de carro, de regresso a casa, entrei no meu bairro de sempre, e pus-me a pensar em tanta gente que já nos deixou, vi-me criança num mundo que é quase outro e pensei que ainda há muito dessa miúda que fui presente em mim. É qualquer coisa de muito nosso, que nos faz e que nos marca para sempre. A nossa aldeia. A nossa rua. O nosso bairro.

Fotografia: MODO VISION / Rodrigo Assunção

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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