Carta de amor ao livro “Lendas do Mação”, por Vera Dias António

Gosto de livros e do que é escrito em livros. Salvo algumas exceções, o que se escreve em forma de livro é porque o merece e ganha um lugar mais longo, quase eterno, na história. Gosto ainda mais de livros sobre Mação. E há-os poucos. São sempre poucos. De cada lugar se há-de pensar o mesmo.

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Assim, imaginem a minha surpresa quando voltei ao trabalho, na semana que passou, depois de dois dias em casa com dois dos meus filhos engripados e tinha na minha secretária um envelope fechado, endereçado em meu nome de um Senhor de quem pouco sei. Abri-o e percebi que me tinha sido oferecido o mais recente livro sobre Mação, sobre as suas lendas.

Sabem aquele sorriso, nos filmes, de quem chega à secretária e tem um ramo de flores? Foi bem melhor e muito maior o meu sorriso.

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Então e que livro é? Este livro são 141 páginas dedicadas a uma recolha das “Lendas do Mação”, por José Carlos Rodrigues. Este livro era, acima de tudo uma necessidade que Mação tinha, tão rica e variada é a tradição oral por aqui, mas que em poucos sítios está compilada com esta forma, em livro. Neste caso, um conjunto nada pequeno de Lendas.

São 17 Lendas Cristãs, 20 Lendas de Bruxas e Lobisomens (as minhas preferidas), 21 Lendas de Mouras Encantadas e 18 Lendas de temas vários, onde figuram os “medos”, um dos aspetos mais interessantes da nossa cultura popular, das nossas crendices, aqui uma pequena amostra pois, pelo que vou conversando e percebendo, há mais histórias de “medos” do que habitantes ao seu tempo, e éramos muitos.

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A apresentação do livro é feita pelo meu conterrâneo e amigo José Carlos Gueifão que faz uma introdução ao livro e acima de tudo ao seu autor, num texto (como sempre) correto, recheado de informações preciosas e interessantes e, claro, pingado de humor, como lhe é característico. Não vos quero levar ao engano, mas também José Carlos Gueifão aconselha a leitura do livro, pelo que o devem fazer. Até porque, como conclui a apresentação: “Quem não ler Lendas do Mação é batata!”.

Vem depois a introdução do autor, José Carlos Rodrigues, nascido em Mação, na Rua de S. Bento (como, de resto, mais de metade da vila…), no ano de 1930. Sim, leram bem, este atencioso, curioso e prestimoso nosso amigo tem 90 anos e passou o último dedicado a este projeto.

As fontes são várias, testemunhos na primeira pessoa, memórias suas de quando ouvia a avó falar nas “velhacas” (as bruxas, pois claro), ou quando ouvia Calado Rodrigues falar nas buracas das mouras onde exploravam e de onde recuperavam artefactos para criar um Museu em Mação (um sonho que este querido Senhor teve o privilégio de viver) e muitas referências a revistas, jornais, sites e blogues sobre algumas das nossas aldeias e, claro, Lendas já apresentadas em outros livros, de Francisco Serrano e César Di Ambaca.

Acontece que a vida aconteceu. José Carlos Rodrigues cresceu, andou por vários sítios, Mação sempre aqui, local de férias e, mais tarde, o regresso esperado. Foi neste regresso que o percebi por Mação. Sempre acompanhado pela sua lindíssima mulher, muito assíduos aos eventos culturais que Mação tem tido o privilégio de ter, de acolher, de desenvolver. Educado, interessado, um cavalheiro.

Antes desta bagunça a que estamos virados desde o início do ano uma das últimas exposições que a Galeria do Centro Cultural Elvino Pereira teve a sorte de ter foi promovida pela Escola de Pintura e apresentava um tema (do) fantástico: “Histórias e Lendas de Mação”. O desafio que a Escola de Pintura AMARTE – Lápis de Cor, de Mação, fez aos seus alunos foi o de pesquisarem lendas e de as passarem para a tela. Para cada quadro era-nos apresentada também a Lenda que o sustentava. A Exposição, além de provar que o que é local é bom e se recomenda, foi o catalisador para este livro. José Carlos Rodrigues percebeu ali, a 5 de outubro de 2019, que havia o dever, eu diria a urgência, de reunir este aspeto da “cultura rural maçaense”, como lhe chama, em livro. E assim fez. Um ano depois, a 5 de outubro de 2020 o livro aí está: Lendas do Mação. Simples assim!

A etiologia estuda como múltiplos fatores interagem na formação de um objeto específico. Neste caso, a explicação é muito simples, José Carlos Rodrigues vive Mação, juntou as suas memórias às de muitos outros e contribuiu de uma forma inestimável para a nossa história, a que vem de longe e ajuda, assim, a continuar “viva” no futuro.

Caro amigo, não sei se chego aos 90 anos mas por essa altura sei que um dos meus netos, numa noite de tempestade em que as “velhacas” andarão lá fora a ceifar as velhas, subirá ao sótão da casa dos pais e encontrará este livro numa caixa que vai ter a inscrição “Tesouros da Avó Vera” e se vai deliciar e sorrir, tal como eu, quando tive o privilégio de agarrar o seu livro pela primeira vez.

José Carlos Rodrigues: Obrigado, em meu nome, dos meus futuros netos, do Mação!

Nota 1: Quando fui estudar para Abrantes, numa aula de apresentação disse: “Sou a Vera e sou do Mação.” A minha querida professora Elfrida alertou-me que deveria dizer “de Mação”. E assim fiz desde então. Vejo que, cada vez mais, a forma original vinga à correta. Pelo que  tenho o maior dos respeitos por este título, tão afirmativo, Lendas Do Mação. Maravilhoso! O Mação está mesmo na moda!

Nota 2: José Carlos Gueifão, no meu tempo dizia-se que quem não ler “Lendas do Mação” é um ovo podre!

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1 COMENTÁRIO

  1. Obrigado, Vera Dias António.
    O meu baú não vai ter como inscrição “Os Tesouros do avô Zé Carlos”, porque não tenho netos, infelizmente.
    É provável que venha a chamar-lhe apenas “Tesouros”, mas tenho a certeza que vai conter um livrinho chamado ”Lendas do Mação” que terá, dentro, esta carta de amor, que foi a referência mais bonita e gratificante que recebi a propósito desta publicação.
    Comunicar assim não é para todos; quando eu for grande também quero escrever proza com sabor poético, tal como a Vera.

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