Domingo, Dezembro 5, 2021

“Carta de amor ao Liceu, a Alcínio Serras e aos professores que marcam as nossas vidas”, por Vera Dias António

Há coisas fantásticas na vida. Há coincidências, atos de sorte, situações limite, desfechos imprevisíveis, outros que pareciam impossíveis. Há tantos pormenores interessantes na vida que não sei porque nos concentramos tanto nos outros.

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Esta semana, ou as duas últimas, têm sido particularmente sensíveis nestas questões que nos fazem pensar no valor e no sentido da vida. Porque há coisas fantásticas, todos os dias. Umas melhores, outras piores. Ainda assim, fantásticas.

Esta segunda-feira, 25 de outubro de 2021, foi apresentado o livro – o fantástico livro que já o é só por existir – sobre os 50 anos do Liceu de Abrantes. Autoria de Candeias da Silva e José Martinho Gaspar.

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Esta segunda-feira, 25 de outubro de 2021, morreu-nos um dos professores do Liceu de Abrantes. Um professor que, na verdade, é O Professor que marcou e mudou a minha vida de forma ímpar. Alcínio Serras.

E eu que já andava numa reviravolta com as minhas memórias de aluna do Liceu à luz da notícia da apresentação do livro, não posso deixar de sublinhar o facto de, no mesmo dia, nos ter morrido Alcínio Serras. Ambos, o Liceu e Alcínio, marcaram profundamente a minha vida. E é isto que uma escola e os seus professores deviam marcar em todos os alunos, as suas vidas.

Quando entrei no ensino secundário não abriu, em Mação, a área de Humanidades, a única das ofertas de Mação, em que poderia fazer o ensino secundário. A opção passou sempre por ter que sair. E alguém me disse – não me lembro quem – que em Abrantes, no Liceu, podia estudar Comunicação. Quem me conhece sabe que era o que me via a fazer desde miúda.

E lá fui. O Liceu, e a Residência ali ao lado, foram os mundos novos que abracei aos 16 anos, em 1994.

E começou ali uma mudança na pessoa que sou hoje. Todos os dias, todos os caminhos, os certos e seguros, mas muito os desvios, todo o conjunto de pormenores refletem depois o todo de quem somos.

Mas ali começou mesmo uma mudança. E que feliz.

O Curso Profissional de Comunicação no Liceu tinha dois rostos, dois professores, duas pessoas inesquecíveis. Elfrida Matela e Alcínio Serras. Ela com o jornal Toque de Saída, ele com a rádio e o programa Hora 2, na Tágide. Naquela altura fizeram-se e vivi coisas incríveis naquele Liceu.

O professor Alcínio levava-nos todas as quartas-feiras no seu carro pessoal, para o Tramagal onde, na Rádio Tágide, essa casa que tanta gente formou, o curso de Comunicação do Liceu tinha um programa. Rigorosamente todas as quartas-feiras. O programa passava em direto, entre as 22h e a meia-noite, pelo que os meus pais tiveram que dar uma autorização para que, naquele dia, me pudesse ausentar da Residência tão fora de horas. Engraçado pensar, agora, que os meus pais confiaram num professor que não sei se algum dia chegaram a conhecer.

Ainda assim, de tudo o que o Liceu me trouxe, de tudo o que o grupo fantástico de professores me deram não esquecerei, nunca, uma conversa com o Professor Alcínio Serras que me marcou até hoje. E é nestes pormenores que se vê o poder e a influência que um professor pode ter na nossa vida. E que bom quando o fazem. E nos mudam. E nos marcam.

Miúda de Mação – na verdade fui corrigida na primeira aula do Liceu com a Professora Elfrida quando me apresentei como sendo a Vera do Mação – de Mação, menina, de Mação. E assim me apresento até hoje, de Mação.

Mas dizia eu que, assumida miúda de Mação, que queria voltar para Mação, e certa em não me ver a fazer outra coisa na vida que comunicação, vi-me ali numa encruzilhada enorme sobre a área a seguir na universidade. Não via, na altura, grande futuro profissional para uma jornalista em Mação. Num desabafo com o querido professor Alcínio veio a sugestão – a sábia sugestão – de estudar Sociologia. Oferecia-me um leque muito maior de saídas profissionais, incluindo a Comunicação. E assim foi. E assim fiz. Assisti às aulas de Sociologia quando o meu horário o possibilitava, era uma disciplina da área da Economia, e fiz exame de 12.º como aluna externa. E entrei em Sociologia no ISCTE que, a seu tempo me marcou também, e onde fiz a tese de licenciatura, imagine-se, sobre os técnicos de comunicação autárquica no Médio Tejo, área onde já me encontrava a trabalhar – em Mação, claro – quando terminei o curso.

O Professor Alcínio foi determinante numa cadeia de eventos e acontecimentos, na verdade na última metade da minha vida. Como são muitos professores na nossa vida. Acredito que terá tocado muitas vidas.

Acredito que muitos professores são peças fundamentais que tocam, e mudam, para sempre, a vida dos seus alunos. Que pena quando assim não é.

Que feito quando assim o é. Este é o meu.

Por falar em professores únicos e insubstituíveis, não há como não referir o intelecto, a humildade na forma de ensinar, a exigência e o humor de Mário Pissarra, meu professor de Filosofia no Liceu com quem ainda hoje me encontro quase diariamente nas redes sociais e que ainda me relembra que há coisas fantásticas na vida.

Esta segunda-feira, 25 de outubro de 2021, quando nos morreu Alcínio Serras, esta segunda-feira, 25 de outubro de 2021, quando foi apresentado o Livro sobre o Liceu, Mário Pissarra referiu, li neste mesmo jornal, na sessão de apresentação, que aquele livro é “uma história parcelar […] porque uma parte da história morre com a história de cada um”.

Sempre sábio e pertinente, este nosso Professor.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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