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“Carta de amor ao comboio”, por Vera Dias António

Estes dias soalheiros, já quentes, mas não muito, levam-me sempre às memórias das viagens de comboio dos domingos e sextas-feiras, há mais de 20 anos atrás, aconchegada naquele jeito único que o comboio tem de nos levar, quase embalados.

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Quem cresceu no interior teve, como eu, preferencialmente no comboio o meio de transporte para sair, para ir ao encontro de outros estudos, nomeadamente em Lisboa. Sei que somos muitos, de várias gerações, o pessoal das beiras e deste ribatejo alto, de saca e sacola às costas a caminho da capital. Levávamos livros, roupa, comida e sonhos. Partíamos todos os domingos e regressávamos todas as sextas-feiras. Eu, a maior parte das vezes, no comboio do meio dia para aproveitar o fim-de-semana.

Sei que éramos muitos porque nos via, bandos de gente e porque o contam, também, os das gerações anteriores. Neste ir e vir, umas vezes sozinhos, outras vezes em grupos grandes e tão cheios de vida, de conversas e cumplicidades, enquanto construíamos alicerces para o que havia de ser a vida adulta. Sempre de comboio.

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Ali se arranjaram namoros, se fundaram fortes amizades, se contaram segredos e, acima de tudo, se cresceu muito. No comboio.

As viagens de comboio têm algo de muito poético, de romântico. As minhas memórias têm um pouco de tudo. Éramos nós, em conversas altas ou cochichos inconfessáveis, eram as gargalhadas jovens e cheias de tudo. Por vezes era só eu, um livro, as malas, a paisagem e aquele jeito único que o comboio tem de nos levar, quase embalados.

Há quem se perca, ou se encontre, a ver passar o comboio. Eu perco-me em tantas memórias boas cheias de gente ainda melhor.

Há quadros magníficos que nos ficam, como ainda guardo os muitos casais já de avançada idade que, adivinhávamos, iam à capital visitar os filhos. Esses levavam mais de que nós. Levavam vidas já muito vividas, memórias de campo, de lavoura, de luta. Levavam couves, batatas, fruta, ovos, tudo o que a horta e a força dos seus braços permitia. E levavam flores, braçadas de flores colhidas ainda escuro para, ao fim da tarde, caírem vistosas nas jarras das casas dos filhos em Lisboa.

Tinham um jeito simples de nos olharem, de contemplarem a tonteira da nossa juventude, como quem nos olha a sorrir e pensa “tão puros, têm a vida toda pela frente” ou “tão tontos, nem sabem o que custa a vida”. As avaliações dependeriam das suas próprias experiências, mas olhavam-nos sempre com simpatia lembrando que um dia também os filhos lhes saíram de casa para apanhar o comboio.

No comboio, pelo menos no meu, da linha da Beira Baixa, juntavam-se gerações à conversa, com sorrisos sempre prontos, muitas conversas, lanches de pão caseiro, queijo e azeitonas sobre um pano de cozinha já desgastado onde depois se juntavam as migalhas e se voltava a aconchegar na cesta de verga. Tanto que se via e aprendia ali, tantas vidas que ali se cruzaram, na duração exata do tempo da viagem de comboio, aconchegadas naquele jeito único que o comboio tem de nos levar, quase embalados.

Se tínhamos bons motivos para ir, tínhamos outros tantos para regressar pelo que as viagens de comboio têm sempre uma aura de felicidade implícita.

Por vezes entrávamos em Santa Apolónia em cima da hora, no meu caso porque o 90 se atrasava, e aqueles relógios grandes, maravilhosos, não perdoavam a demora e voávamos até saltar para uma carruagem do nosso comboio, sempre carregados de sacos e sacolas e, já lá dentro respirava-se, então, pelo alívio de termos conseguido.

Sabíamos que estávamos perto quando, na volta a casa, já depois de Santarém, se percebia que, um a um, começávamos a vestir os casacos. Viajámos muito de inverno, mas é nestes dias solarengos que me lembro das viagens de comboio. Ou porque o ambiente era quente, ou porque as memórias são radiosas, ou porque a idade era tenra, como as flores que despontam agora na macieira do meu quintal.

Penso nisto e na sorte de ter uma estação tão perto de casa, em Ortiga. Se não tivéssemos talvez o meio de transporte fosse outro, e talvez as memórias fossem outras. Mas não seriam, com certeza, aconchegadas naquele jeito único que o comboio tem de nos levar, quase embalados.

Foi de comboio que regressei de Castelo Branco para Mação, sozinha, quando fui ver os resultados de entrada na universidade. Vinha feliz, imensamente feliz, sem saber nada do que se seguiria, mas cheia de sonhos e expetativas. O comboio, quando acompanha o rio, como aqui acompanha o Tejo, emoldura os momentos felizes num quadro perfeito, como a paisagem que acompanhamos da janela. Aquela foi a primeira viagem de muitas, sempre de comboio.

Faz em maio dois anos que andei pela última vez de comboio. Fomos a um concerto a Lisboa e o Rui acedeu à minha fantasia romântica de voltar a Lisboa de comboio. Confesso que quando regressámos era meia noite e meia e ambos clamámos pelo conforto e rapidez de uma viagem no nosso carro mas a ida, de dia, cumpriu o meu desejo de voltar ao passado e àquele jeito único que o comboio tem de nos levar, quase embalados.

Os comboios estão diferentes, já não têm aqueles bancos grandes, castanhos, impregnados de um cheiro que, não sendo necessariamente bom, se entranha com o resto das memórias, porque fazia parte.

Estamos, há dois anos, para repetir a viagem, mas com os miúdos. Ainda só um dos nossos filhos andou de comboio. Um dia destes, quando esta loucura passar, haveremos de ir os seis e ouviremos os silvos dos comboios, olharemos pela janela, em silêncio, conversaremos animados, soltaremos gargalhadas, espreitaremos quem entra e quem sai em cada estação. Acima de tudo, criaremos as memórias próprias das viagens de comboio, simples e cheias de tudo, aconchegados naquele jeito único que o comboio tem de nos levar, quase embalados.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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