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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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“Carta de amor à vindima, ou às memórias que guardo”, por Vera Dias António

O meu sogro deu-nos esta semana cachos de uvas. Doces, maravilhosas. É altura de uvas e de colher os cachos, de vindima.

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No trabalho falava com a minha colega das saudades dos dias de vindima e ela contava, com graça, que o avô lhe dizia que dava prejuízo, porque eram mais as uvas que comia do que as que colhia. A minha geração terá memórias fantásticas destes tempos.

Os meus dois filhos mais velhos ainda tiveram esta experiência. Os mais novos já não. Creio que a última grande vindima que tivemos terá sido há uns 8 anos, depois algumas vinhas foram arrancadas para dar espaço às oliveiras e porque o meu pai dizia, a brincar, mas a sério, que os genros não davam despacho ao vinho. Com o incêndio de 2017 arderam as últimas videiras que ficaram.

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A adega do meu avô lá permanece, intocada, munida de toda a maquinaria, mais as bilhas, as talhas, as tinas, os garrafões e o pó. Aquele pó que indica que hoje dali já só se espremem as memórias – uma excelente casta de memórias.

Setembro é um mês incrível. A terra é nesta altura muito generosa e a vindima era sempre sinónimo de muita gente nas terras, nas hortas, ranchos de gente munida de baldes, cestas, tesouras ou navalhas para cortar os cachos. Os que estavam fora vinham fazer as vindimas, alguns ainda vêm.

Naqueles dias éramos nós, mais alguns amigos e familiares que se juntavam a nós. Combinavam-se fins-de-semana, ora na vindima de uns, ora eles a ajudar a nossa.
Eram dias trabalhosos, cheios de tudo. Cansativos, mas muito alegres.

Esperávamos que o tempo estivesse fresco. Mas se estava molhado era mais complicado e desagradável.

Começávamos cedo, para aproveitar o dia e o fresco da manhã. Pouco a pouco enchíamos os baldes, havia até desafios a ver quem os enchia mais depressa. Depois íamos vazar os baldes nas cestas. As cestas vindimeiras. A minha avó ainda tem uma. As cestas iam sendo acomodadas na carroçaria do trator e, quando estava cheio, ia-se à adega despejar e traziam-se de novo, para voltarmos a encher. Mais tarde as velhas e desgastadas cestas foram substituídas por tinas, ou dornas de plástico, mais fortes.

Vindimar é um exercício muito interessante. As vinhas estavam dispostas em filas de videiras. Cada um começava a sua e caminhávamos, videira a videira, de uma ponta à outra da vinha. O ritmo era ditado pelo mais rápido, que puxava pelos outros. Durante muitos anos era a força e sabedoria do meu avô que ditava a dianteira da vindima, e tinha sempre uma graçola para quem ia ficando para trás. Muitas vezes bastava apanhar uma videira mais trabalhosa, com muitos cachos com partes secas ou podres, o que nos atrasava. Porque tinha que se limpar o cacho. Uma videira robusta e plena de cachos imaculados, daquelas onde se enchia logo o balde eram uma dádiva.

A meio da manhã parava-se para fazer uma bucha. Comia-se um naco do pão que a minha avó tinha cozido essa semana no forno de lenha e qualquer coisa a acompanhar. Sabia tão bem que ainda me lembro que o pão parecia doce. Bebia-se água e voltava-se ao trabalho. Num ano bom a vindima durava uma semana.

Ao fim do dia, e às vezes parecia que o dia nunca mais acabava, íamos para a adega moer as uvas. Ainda me lembro de o fazermos de forma manual. Primeiro, na adega antiga, ainda me lembro da pisa dos cachos, um processo muito giro, mas muito trabalhoso. Entretanto passou-se a colocar os cachos numa estrutura de madeira com um ferro ao centro e uma “tampa” que os homens iam apertando e esmagando as uvas para sair o precioso líquido. Iam-se retirando os engaços, trabalho das mulheres. Mais tarde o meu avô comprou uma esmagadora elétrica que ajudava muito o processo. Os engaços saiam por uma das partes e os bagos de uva eram esmagados e caiam no lagar. Lembro-me que, finda a esmagação das uvas ficava aquele mosto, mais líquido em baixo e mais espesso em cima. Começava a fermentação e o trabalho seguinte até à obtenção do vinho já era tarefa dos mais sábios e experientes. Os meus avós ainda corriam muitos dias para a adega.

O processo seguinte em que me via envolvida, mais para a altura do Carnaval, era a lavagem dos garrafões, com água e areia e, depois, o enchimento dos mesmos.

São muito doces estas memórias. Não porque fossem dias fáceis, eram até bem trabalhosos. Mais o encardido arroxeado das mãos que demorava a sair. Mas eram dias passados em família, muito animados, cúmplices e alegres. De união. E é esse o doce que fica na memória. E onde vou beber sempre que chega esta altura eternizando dias que já não voltam. E como eu, sei que muitos de nós. Há muita terra que já deu uvas. Há também muitos cestos que foram lavados, algum dia, pela última vez. É a vida.

Por outro lado, adoro estes quadros quase perfeitos como este sábado que passou, em que o rancho do tio Luís ainda se juntou para a vindima. Fui a casa dos meus pais, a adega do tio Luís é mesmo em frente. Comove-me e entusiasma-me vê-los. Fui lá e disse que era só para cheirar e relembrar. Riram-se. O tio Luís é o único irmão da minha avó Maria que ainda vindima. Teve 5 filhos e sempre teve casa cheia nestes dias e nos de festa. Uma inspiração. Nesta vindima ainda se juntaram. Filhos e netos. E nos rostos dos netos João, Gonçalo e Inês vi o sorriso de memórias que ainda criam. Tão bom!

À noite fizemos sumo de uva com a máquina de sumos e os cachos que o meu sogro nos deu. Tirámos os sargaços e moemos os bagos. Na máquina saiu sumo por um lado e juntou-se um desperdício a jeito de mosto no outro. Brinquei que era uma micro-vindima. O sumo ficou delicioso!

Um brinde aos dias de vindima. Aos atuais e aos que perduram na memória!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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