- Publicidade -

“Carta de amor a ti, querida Betinha”, por Vera Dias António

Hoje vou fazer algo que não faço normalmente, que é escrever diretamente a um anjo. Porque não é um anjo qualquer. Não, não é. É a Elisabete, a nossa Betinha.

- Publicidade -

A verdade, minha querida, é que não sei escrever a quem já partiu. Por outro lado, falo imensas vezes contigo, estranha e aguerridamente e, pudesse passar para aqui tudo o que falamos, nesta louca conversa unilateral, faria jus a tudo o que foste e representaste na terra.

Pois faz hoje, este domingo, precisamente um ano que soubemos, todos, em choque, a notícia da tua morte. Desculpa o choque, mas, no fundo, já certos de que não havia esperança, eras tu, quer dizer, logo tu, a quem todos reconheciam a enorme valentia, o conceito personificado de guerreira. E aquela luz, pequena e ténue, de esperança estava lá. Apagou-se faz um ano.

- Publicidade -

Foste, não sabemos para onde, com essa tua alma imensa e positiva, talvez brilhar no céu feita a estrela que sempre foste e que as tuas amigas te chamam.

Não imaginas (ou será que sim!?…) a loucura que para aqui se instalou desde a tua partida. Um vírus que se tornou uma pandemia mundial e que mudou tanto, quase tudo, na nossa forma de estar. De viver.

Tenha o mundo metade da tua garra e ultrapassaremos isto tudo. Metade chegará. Lembras-te do tempo em que tomavas conta da tua então frágil Carlota de máscara?! Sorrirás à ironia de vivemos hoje todos assim, desde a tua partida, nessa fragilidade, protegidos por simples máscaras!?

Não sei se imaginas (saberás!?…) também que o teu funeral, o teu enorme funeral foi a última vez em que, por aqui, se juntou um enorme mar de gente. Tanta, tanta gente, de todo o lado, gente incrédula, profundamente triste, cheia de dúvidas, de porquês. Gente assaltada de dor, gente consumida pelo fogo provocado pela certeza da tua ausência, da tua eterna ausência.

Era gente cheia de coisas para te dizer, de homenagens para te fazer, de sorrisos para te devolver. E, lá no meio, a tua gente, as tuas pessoas, as que levaste no teu coração, aquelas em cujo coração viverás eternamente. As de sangue, as de vida, aquelas que mais do que ninguém, por muito que o passem a palavras, sentem a tua falta de uma forma inexplicável, impossível de (d)escrever. Não integro esse grupo de gente mesmo tua e, ainda assim, sinto a tua partida de uma forma muito minha. É o que tens, terás sempre de mais especial, essa forma de tocar as pessoas.

Alguém escreveu não ter palavras para te adjetivar e que, em cada palavra, de cada pessoa, das centenas que te acompanharam no teu funeral, que aí, na soma do todo, talvez houvesse forma de te descrever. É muito isto. E talvez também por isso esta será sempre a mais incompleta das minhas cartas de amor.

Tanto foi escrito a ti, dito sobre ti, conversado (no fundo) contigo presente, tanto que nem imaginas (saberás!?…). Se sim, hás de ter rido, hás de ter ficado comovida e eu sei que, se pudesses, tocarias em tantos ombros, abririas o teu enorme sorriso que todos lembram, e dirias que está tudo bem. Que não há sofrimento, não há mágoas, não há dor, há Paz. Eu espero mesmo que te sintas assim, onde quer que estejas, numa enorme Paz. Como espero que a tenham, ou que a venham a alcançar, todos os que te perderam verdadeiramente.

Há um ano que ando para te escrever. Penso, repenso, páro, tenho receio, tenho ganas, escrevo com o pensamento. Há um ano que ando para te dizer que de todas as festas de Natal dos funcionários da Câmara, e sabes que levo anos disto, nunca, juro que nunca me sairá da cabeça a imagem de ti a apresentares a tua Carlota ao mundo. E não, não estou a romantizar porque morreste. Tu estavas realmente muito feliz, tudo em ti irradiava. E quando um dia, parva, me disseste que não tinhas jeito para ter filhos eu chamei-te tontinha e espero que tenhas partido deste mundo com a certeza de que foste tontinha nesse dia. Porque não há ninguém que não saiba, mesmo quem não te conhecia bem, que foste uma mãe do caraças. Eu já escrevi por aqui que acho, porque acho mesmo, que no desafio que a vida e a saúde da tua filha te trouxeram, e sinto-o como mãe, um dia hás de ter pedido a Deus que te levasse, e não a ela. Por isso, minha brava, porque é a única forma que encontro para explicar a tua partida, só por isso és a melhor e mais capaz, e mais absoluta mãe do mundo. E que sorte a da Carlota, que não podia ser filha de outra mãe.

Voltando ao plano terrestre e à realidade que é e será ela crescer sem ti, que saibam, todos os que a amam e protegem, dizer-lhe que teve essa sorte, e que nela se repercutam o bem e a forma boa como tocaste tanta gente, os nossos filhos na escola, sua eterna teacher, os nossos idosos a quem animaste tantas horas de tantos dias com lindas cantorias (saberás mesmo quanto gente tocaste!?…).

Dizia eu que não sabia como escrever-te, a ti e sobre ti. Hoje, precisamente hoje, ao ler a carta de amor da Cláudia, as palavras da Tânia, da Carla, outras que de certeza não vi, tudo o que é escrito e tudo o que tenho a certeza que fica pendente no coração e pensamento de tanta gente. Hoje, precisamente hoje, um ano após o teu último suspiro, após a última batida do teu lindo coração, hoje não tinha como não deixar por escrito o ato de amor que foste no mundo. A força transformadora que eras, a tua prontidão, a tua entrega, a tua dedicação, o toque que deste a tudo o que fizeste.

Não há, caro mundo, como não deixar por escrito que nasceu, faz em maio 40 anos, uma miúda do Penhascoso de Mação, cheia de garra e com um sorriso do tamanho do sol, que brilhava em cada um dos seus fios de cabelo, que voavam no vento que gerava quando ia à luta, e que lutava com ar de graça, movida a amor, tantas vezes calada, tantas vezes na sombra, tantas vezes a melhor e mais brilhante, “discreta e simples”, como escreveu hoje a Cláudia.

Se eras perfeita!? Não, não demos largas à tristeza que é a ilusão da perfeição. Eras tu, eras como eras. Eras a Elisabete, a Betinha. E essa será a melhor parte de ti, seres como eras, sem falsas pretensões. Amor, quando era para amar, força quando era para lutar, uma irritação tremenda quando era para chatear. Ainda me lembro de como reviravas os olhos.

Tu sabes, sabemos todos, que não é bem a ti que escrevo (será!?…). Escrevo à memória de ti, à eternidade que representa tudo o que foste e que nunca caberia aqui. Escrevo às tuas amigas e amigos da escola, da rua, da terra, da faculdade, do trabalho, dos teus projetos. Escrevo a quem não te conhecia para que hoje possam dizer: que miúda valente viu o mundo nascer ali para os lados de Mação. E escrevo à D. Augusta, ao Luís, à Carla, à Carmelinda, ao Gonçalo, à Rute, à Sara, ao Rodrigo, à Clara, ao Hélder e, sempre, à tua Carlota. É a eles que escrevo, porque é neles que viverás para sempre.

Anda há quase um ano a ser adiada uma Homenagem a ti que, valendo o que vale, seria um espaço dedicado só a ti e, de todo o Concelho, vinham as vidas que tocaste, no tão teu Clube Sénior e seriam feitos e recitados poemas, cantadas músicas, declamadas histórias sobre ti. Ainda não houve oportunidade, pelo que te expliquei acima.

Para que se nos faça um pouco de paz, para ti, minha querida, muito à luz de uma conversa com a tua mãe sobre a última vez que viste a tua filha, vou transformar e dar um epílogo ao poema “Quando eu nasci”, de Sebastião da Gama:

Quando eu morri,
Não ficou tudo como estava,
Os homens não cortaram veias,
mas o Sol escureceu,
e houve uma Estrela a mais…

Somente,
esquecida das dores,
sorri e agradeci.

Quando eu morri,
não perdemos nada de novo
senão eu.

As nuvens espantaram-se,
Mas não enlouqueceu ninguém…

P’ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que ficava
nos olhos de minha Filha…

Chamem-te estrelinha, anjo, fada, guerreira. Chame-te o mundo o que lhe apetecer. Elisabete, obrigada pela tua vida, a melhor herança que deixaste a muita gente.

Um beijinho do tamanho do mundo ou, se não chegar, do tamanho do teu coração!

De todos nós!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).