“Carta de amor a quem trabalha nos lares”, por Vera Dias António

Esta semana vi uma publicação de agradecimento à Santa Casa da Misericórdia de Mação e pus-me a pensar no pouco que é reconhecido quem trabalha todos os dias nos lares.

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Tinha 16 anos, tinha o lar da Santa Casa de Mação pouca idade, e no programa de tempos livres para jovens do Instituto da Juventude estive duas semanas no lar. Foram duas semanas muito boas, muito interessantes e enriquecedoras. As nossas funções eram muito de animação, uns passeios à rua e ajudar no refeitório mas o que mais gostava era do tempo na barbearia a fazer barbas, cortar cabelos e, às senhoras, a fazer manicura. A fazer barbas nunca cometi o mínimo lapso mas nunca me vou esquecer de uma tentativa de corte de cabelo em que o senhor, do Rosmaninhal, ficou com uma escadinha à volta da cabeça, três degraus perfeitos, estranhamente perfeitos. Muito atrapalhada pela falta de jeito, (a partir daí só usei máquina), perdi-me em mil desculpas e no facto de que ali havia pouca margem para dar a volta à coisa. Valeu-me o bom humor do “cliente” e o tema de conversa e risota que tivemos sempre que nos víamos, enquanto foi vivo, o meu querido amigo.

Foi ali e então que me apaixonei pelo trabalho e cuidado diário, permanente, que ali é feito. Os primeiros utentes do Lar conheci-os todos pelo nome. Bem como às funcionárias e ao funcionário, que na altura era só um.

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No ano seguinte repeti.

E pouco depois, numa oportunidade de trabalho para a minha mãe, disse-lhe para ir sem pensar duas vezes, que se fazia ali o melhor trabalho do mundo. E ela foi.

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A minha mãe trabalha lá há mais de duas décadas. A minha mãe e muitas, e muitos, outros. Não me lembrei eu, na altura, que a minha mãe nos ia falhar muitos Natais, passagens de ano e domingos de Páscoa. Mas não me parece que tenha sido um problema. Porque ela estava onde era precisa, com quem lá passava os natais, passagens de ano e domingos de Páscoa. Não estava em casa, com a família, porque tinha o melhor trabalho do mundo.

Agora que penso nisso a minha mãe tinha mais ou menos a minha idade de agora pelo que toda a minha vida adulta já foi vivida com aquela outra parte da família, porque há uma extensão, aquela parte da vida dela entra também na nossa.

Se há coisa que aprendi com os meus pais é o fazer do trabalho uma parte de nós, chamemos-lhe brio, profissionalismo ou, embora não adore a expressão “amor à camisola”. Por isso é que o camião era do meu pai e o lar é da minha mãe.

Quando voltei para Mação para trabalhar, nos dias em que a minha mãe estava a trabalhar de dia, ia lá almoçar com ela. Os filhos das funcionárias, mediante pagamento, podiam fazê-lo. Gostava de lá ir almoçar por vários motivos. Revia amigos e, não contem a ninguém, mas ali come-se a melhor mexuda* do mundo.

Entretanto fiz-me Irmã da Santa Casa e estive mais ligada à instituição mas o estranho foi ir perdendo alguns, a maioria, quase todos, dos meus primeiros amigos dali. E quando as pessoas se sentem com amizade, custa um bocadinho. Imagino como será para quem lida todos os dias com as pessoas e as vai perdendo. Não sei se criam um escudo interior, se procuram conforto em novos utentes e novas necessidades mas psicologicamente o aceitar perdas com esta intensidade deve magoar, não acham?! Eu acho que sim.

Foram também muitas as noites em que a minha mãe ia trabalhar à meia-noite, no turno da noite. Estranho, tão diferentes de muitas outras profissões. Mas ali, no melhor sítio do mundo, trabalha-se por turnos pois não há um momento do dia em que não haja pessoal a trabalhar para que os utentes tenham todos os cuidados e para que as suas necessidades e cuidados sejam assegurados. E acreditem que lhes sai do corpo, cansa, desgasta. A minha mãe é prova disso. Mas tem que haver quem o faça e há tanta gente a fazê-lo pelo mundo fora. Ainda assim, será das profissões mais anónimas, mal pagas e pouco louvadas de todas. Muito pouco reconhecida.

Uma altura, por falta de pessoal, a minha mãe fez apoio domiciliário e eu fazia-lhe companhia depois de sair do meu trabalho. Especialmente porque lhe custava conduzir de noite por locais sem ninguém. Minto. Havia sempre alguém, na vila, nas aldeias e nos lugares mais recônditos. Lembro-me de um senhor sozinho num lugar perto dos Santos, já com pouca mobilidade mas que recusava sair de casa, para quem a única companhia e ligação ao mundo eram as funcionárias do lar que lhe prestavam apoio domiciliário. Ansiava a sua chegava e ali demorava-se mais um pouco a conversa. Há coisas, por muito pequenas ou distantes, que nunca esquecemos.

Falo muito à luz das minhas memórias mas este trabalho é feito todos os dias, dia após dia, faça chuva ou faça sol, seja Natal, véspera de ano novo ou domingo de Páscoa. Há dezenas, centenas, milhares de pessoas que encontram nos lares o apoio, cuidado, conforto e amizade de que necessitam nos últimos anos da sua vida. E que bom quando são bem tratados!

Esta pandemia veio acrescer os cuidados, os trabalhos, as preocupações de quem ali trabalha. Mudou muita coisa, que a prevenção requer muito trabalho. Mas a prevenção tem sido palavra de ordem. Que assim continue. Que fique sempre tudo bem e, acima de tudo, muito por quem lá vive e quem lá trabalha, que se encontre uma solução para isto.

Por tudo isto, digam-me se quem trabalha nos lares, pelo menos a sua maioria de gente dedicada, não merece a nossa vénia e agradecimento!?!

E digam-me se não estava certa quando disse à minha mãe que se faz ali, nos lares, o melhor trabalho do mundo!?!

Pois eu digo que sim!

Obrigado a todas e a todos os funcionários dos lares!

Um Obrigado Especial à minha Mãe!

* Doce muito rústico de abóbora, muito típico daqui e que me tira do sério, e da dieta!

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