Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“Carta de amor a quem leva o pão à porta, em particular à minha irmã”, por Vera Dias António

Quando éramos miúdas a minha mãe teve uma mercearia e, mais tarde, o meu avô teve um café. Lembro-me muito particularmente da estante do pão, da prateleira feita pelo meu avô, onde o Sr. João vinha deixar o pão e as vizinhas do bairro o vinham comprar. O Sr. João tinha sempre uma guloseima para a minha irmã e para mim, dava-nos um papo-seco que comíamos assim, sem necessidade de mais nada. Pão com dentes. E sabia-me tão bem.

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O Sr. João era o nosso padeiro, depois vieram outros. Anos mais tarde, a minha irmã foi trabalhar na pastelaria do Sr. João e, quando falta alguém nas voltas do pão, a minha irmã assume a tarefa. Minto. Não é uma tarefa. É uma missão.

Tenho ouvido as histórias e as vivências que a minha irmã traz. Ouço-a e fico sempre a pensar na importância de quem vai, terra a terra, casa a casa, levar o pão nosso de cada dia e, mais do que isso, uma conversa, uma ajuda, um sorriso – e a minha irmã espalha-os com a maior das facilidades.

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A minha irmã está numa dessas semanas, de levar o pão para outro concelho que não o nosso, na verdade para outro distrito. Levanta-se às 4 da manhã. É duro.

Vejo-a cansada, por vezes, mas tem sempre aquele sorriso brilhante de histórias, de mimos, cheio de pessoas e das suas histórias. É que tem sempre muita gente com ela. Já lhe ouvi histórias tristes, histórias alegres a algumas muito, muito cómicas.

Já lhe ouvi a história da cliente com quem estava à conversa e que desligava o telemóvel que tocava no bolso do avental, pois que não conhecia o número. Pela insistência a minha irmã disse-lhe que atendesse e, do outro lado, era do hospital a informar a senhora da morte do marido num acidente de trabalho. Foi a minha irmã que lhe acudiu o choque, que ligou ao filho e lhe fez companhia até que chegasse quem a amparasse.

Outra história me trouxe, nesse dia incrivelmente comovida, de uma cliente que lhe mandou uns brinquedos para os filhos e ainda pediu desculpa por não os ter embrulhado. Estávamos num natal. No dia seguinte ao chegar à aldeia, a notícia de que a mesma cliente se tinha suicidado na tarde do dia anterior. Não sem antes lhe deixar uma prenda para os filhos. De tudo o que deixou a jeito no mundo que ia abandonar, não se esqueceu de umas prendas para os filhos da menina do pão.

Há histórias e histórias, vidas e vidas com que a minha irmã se cruza e que entram na dela. Indiretamente entram na minha quando mas conta. Aqueles pedaços disto de se ser gente, que passaram a pertencer à minha irmã porque tem esta missão, esta nobre missão de ir à mais pequena das aldeias, à mais solitária das casas, à mais sozinha das pessoas.

Às vezes invejo-a. Invejo-a pelo efeito que a vida dela, que o seu trabalho, tem na vida dos outros. É que há pessoas para quem a conversa que têm com a minha irmã, entre um saco de pão, as moedas e troco, é a única conversa que têm diariamente.

Há muita gente sozinha neste mundo.

Quem leva o pão leva sempre mais qualquer coisa. E se for por bem, com um sorriso e uma troca de palavras, está a fazer tanta, mas tanta diferença no mundo. Tanta!

Como esta semana quando uma cliente já de idade e sozinha não lhe apareceu à porta e a minha irmã estranhou. Foi buscar a chave – que o lugar secreto das chaves é partilhado com os padeiros, sabem… – e foi dar com a senhora na cama, cheia de dores no corpo, efeito da toma das vacinas da gripe e 3.ª dose Covid. A minha irmã fez-lhe um café e uma torrada. Deu-lhe um ben-u-ron dos que tem sempre na mala. Tenho a certeza que lhe sorriu, que a animou com duas ou três palavras e partiu. Deixou-lhe o pão, o cuidado e o carinho com que a auxiliou. Não há dinheiro que pague isto, pois não? Pois não! Especialmente quando, no dia seguinte, a senhora que um dia destes vira 1 século de vida lhe confidenciou que nunca lhe tinham levado o pequeno-almoço à cama!

Uma vez a minha irmã andou a coxear por uns poucos de dias. Uma cliente estava a tentar por uma saca de ração dos animais no seu carro de mão para levar para as traseiras da casa. As forças eram poucas e a minha irmã ajudou-a. Pegou no carro de mão com a saca e, chegada ao sítio, voltou o carro para despejar a carga. Mas quando o fez, as ervas molhadas debaixo dos pés fizeram com que, como a saca, passasse por cima do carro. A senhora em aflições, a minha irmã deitada no chão com a saca de ração, o caos. Mas a minha irmã, com aquele jeito dela, diz que lhe deu tal ataque de riso que passou o resto da volta em lágrimas, mas de tanto rir. Porque a minha irmã tem este sentido de humor, aquele em que também nos rimos de nós, que é muito saudável e se recomenda.

Outra vez escorregou naqueles terraços com pedaços de pedra mármore e o saco com dois papo-secos voou. Procuraram o pão. Ela, a cliente e mais duas vizinhas. Procuraram em tudo o que era espaço e terreno ali à volta e do saco do pão nem sombra. Lembraram-se que ia a passar um autocarro e o pão deve ter apanhado boleia ali.  Ficou mais uma história que ainda relembram de tempos a tempos, num elo cúmplice que criaram e que as anima.

Imaginem o que terá sido, numa outra vez, chegar a um lugar ermo e a cliente ter acabado de espetar uma foice na perna quando cortava uma ervas. A minha irmã lá a ajudou a tirar a foice, fez-lhe um curativo e enfaixou-lhe a perna, que a senhora insistiu que não era preciso cá hospitais. E recuperou!

São tantas, mas tantas as histórias que me traz que eu já lhe disse que, um dia destes, tiro uns dias e vou com ela. É que a volta do pão dava um livro. Um livro com cheiro a pequeno-almoço, cheio de gente, repleto de história, a pulsar de vida. Barrado com um pouco de manteiga fica um doce!

Há tantas histórias…. Numa das primeiras vezes que fez a volta sozinha apercebeu-se que, cada vez que ia para sair de uma casa, via vir um senhor de bicicleta. Arrancava, parava na próxima, deixava o pão e, ao sair, lá via vir o homem. A coisa repetiu-se por umas poucas de casas até que o homem, ainda sem o pequeno-almoço tomado, num último e derradeiro esforço lá a alcançou. Queria pão, que ela não tinha parado na casa dele.

Esta história é deles e da aldeia. É, lá está, o mote de conversas e o propulsor de uma amizade que ficou. Ele brinca que agora já não seria assim, que arranjou uma mota. Ela ri-se. Deixa-lhe uma gargalhada das suas. Esta semana ele ofereceu-lhe um garrafão de azeitonas, das suas, já retalhadas e temperadas. Que as pode comer lá para fevereiro.

Como a minha irmã que o faz duas ou três semanas no ano, há diariamente pessoas que levam o pão e a companhia a tanta, tanta gente. São psicólogos, enfermeiros, cuidadores, conselheiros, confidentes e amigos. 

Não estou a fantasiar quando digo que são missionários, porque têm uma missão única e especial, ainda que nem muito bem paga, nem muito reconhecida.

Não, não estou a fantasiar ou a romancear! Acredito que muitos conheçam gente com esta importância. Ou que sejam gente com esta nobre missão. Abracem-na sempre muito bem! São, muitas vezes, para muita gente, anjos na terra. Obrigada!

Foto: Vera Dias António

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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