“Carta de Amor à parvónia”, por Vera Dias António

Não se iludam pelo título. Esta é efetivamente uma carta de amor à terra, ao Portugal que é paisagem. Mas parvónia, meus amigos, é um termo que mexe comigo e me faz azia. E eu só tenho azia quando estou grávida. Que por acaso não estou. Portanto, imaginem as alterações bio, fisio e ecológicas, bem como hormonais, que este termo opera em mim.

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Parvónia é efetivamente algo que ouvimos muito, os que insistem em viver na terra. Mas é uma palavra que me incomoda bastante, digo-vos. E esta semana a querida Paula Mourato falou nisto, e puxou-me o tema ao pensamento e ao sistema gastrointestinal.

Parvónia tem um sentido pejorativo, depreciativo. E logo aqui poderia estar tudo dito. A jeito de deixem-se disso, pessoas, não vos leva a nada. Não afirmam nada. Nem confirmam qualquer superioridade moral, cultural ou intelectual.

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Já nem é uma moda o apontar-se o dedo, o olhar de cima, ou engelhar o nariz, com aquele ar de coiso. Como se diz por cá, na parvónia, é chão que já deu uvas (é uma analogia com a terra das vinhas, onde se cultivam videiras, que dão uvas, com que se faz o vinho, que vos aparece em garrafas. Se a terra ficar saturada por muito anos de cultivo deixa de dar rendimento. Foi um aparte, para os não-parvónios perceberem. De nada).

É que parvónia é “a designação de uma localidade de pequenas dimensões que abriga residentes adversos ou desfavoráveis ao desenvolvimento e à evolução” ou ainda “local ou sítio onde, aparentemente, nada notável ou envolvente pode ocorrer”. E as nossas santas e queridas terras não são isto. Há sítios e sítios, pessoas e pessoas. Mas hoje não. Já não.

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Acontece que o preconceito, esse malandro, continua muito marcado. E preconceito é sinal de pré-juízo, de ter um conceito antes de o conhecer de facto. Não é muito inteligente fazer-se pré-conceito e depois ter aquele ar e olhar de coiso.

Vou falando com as pessoas. E, acreditem ou não, há quem venha da cidade e se espante porque nas papelarias têm a revista da Bimby (podia fazer uma analogia à bimbalhice de tal espanto, mas não o vou fazer, prometo)! Espantou-me ainda mais que alguém exclame ao telefone “estou aqui numa lojinha na província”. A sério?! Ainda falamos de provincialismo?! Superem!

Superem para não entrarem num sítio e perguntarem “sabe fazer uma digitalização?” Tipo, ouça, sei lá, imagine que até já temos eletricidade, acredita?!!! E veja, há carros na rua. Juro!!!! A loucura!

Eu sei, eu sei, que quando o pessoal do campo começou a ir para a cidade os jeitos eram simples, o espanto era muito, o deslumbre tinha contornos de medo. Era diferente. Foi diferente.

Mas foi esse pessoal, vários milhares nos últimos 60 anos, foram esses que criaram outros que hoje nos visitam com aquele ar de coiso, que não lhes abona em favor. Deixem-se disso, a sério.

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Espanta-me, no fundo, este processo inverso em que são os da cidade que chegam ao interior com tal simplicidade de pensamento, com tanto espanto, e medo. Muito medo.

Porque percebem que há cultura, há evolução, há um espaço favorável à evolução e ao desenvolvimento. E mais, os residentes da parvónia não são adversos ao mundo moderno e ao saber. E mais ainda, são espaços onde aparentemente muita coisa notável e envolvente acontece.

2020, bem-vindos!

Tudo isto, ainda por cima, num sítio com uma qualidade de vida ímpar. Eu também teria medo se percebesse que no interior se junta o melhor de dois mundos e que vindo de férias só acedo a este admirável mundo novo uma ou duas semanas no ano. Calma! Muita calma! Não precisam ter medo. É a vida! Que acontece todos os dias. Igual, onde quer que se viva. Há quem lhe chame evolução.

Eu sei que sou suspeita. Isto é uma coisa que cresce connosco. Que se enraíza. Vamos à descoberta, vamos ao saber e depois trazemos o que temos e sabemos para o nosso lugar no mundo. Muitos nem saíram e fazem crescer e evoluir a sua terra todos os dias. Outros ainda, desistem de viver saturados e vêm, simplesmente vêm, porque o preconceito não mora neles e sabem que aqui há tudo, por muito menos.

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Eu sei que há ainda os que até queriam vir, ou voltar, mas as ofertas são poucas. Tive sorte, reconheço. Mas também acho que quem quer mesmo, quem está disposto a arriscar, a fazer acontecer, o faz. Hoje já não é desculpa. E a prova é que há quem o faça. Eu percebo até quem precise e goste de viver noutro sítio. Mas não me venham com ar de coiso. Isso é que não. Mas este é outro tema.

Hoje falo pela terra, a minha e as outras.

Eu sei que há uma história, que a evolução se vai fazendo e que parvónia é um termo datado. Eu sei que quando apareceram as calças de ganga, por aqui se olhava quem as vestia de lado porque era o que vestiam os drogados. Cruzes credo, valha-nos Nossa Senhora! Isto há 40 anos. Não foi há muito tempo.

Mas para um espaço de tempo tão curto, convenhamos, chegámos cá rápido.

É muito por isto, pela forma como o interior se soube abrir ao mundo, se soube adaptar, que escrevo esta carta de amor à minha parvónia. Estás crescida, querida terra! Continuas a ter aquela essência que nos corre no sangue. Não dos mais puros e genuínos, não é disso que falo. É algo mais sério, mais nosso, uma genética cultural se quisermos, um amor inexplicável ao sítio em que nos conhecemos gente no mundo. E ao mesmo tempo, querida terra, és um espaço de saber, de conhecimento, de cultura.

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E se houver algo que falte, vamos à procura, que é já ali. Assim como vêm cá, que é já aqui. Mas sem o ar de coiso. Isso é que não!

Temos, cá em casa, esta convicção de que estamos no melhor lugar que poderíamos escolher para criar os nossos filhos. Nesta parvónia engraçada e cheia de graças! Nunca lhes pedirei que fiquem ou voltem cá se os seus sonhos estiverem noutro sítio. Mas não lhes permitirei ares de coiso!

Não sabia muito bem como ilustrar esta crónica. Até que me saltou o óbvio. Na imagem, a antiga escola primária de Mação. A Minha Escola Primária. Onde entrei há 36 anos para aprender as letras com que vos escrevo agora.

Escola esta que hoje alberga o Instituto Terra e Memória. Que é um pólo do Museu de Mação onde se faz investigação científica de forma ímpar e onde cerca de duas dezenas de alunos de todo o mundo vêm todos os anos estudar, estudar-nos, descobrir valor e saber que muitos nem sonham. E se esta não é a melhor das analogias sobre o que é a parvónia de ontem e o Mação de hoje, meus amigos, não sei o que será.

O preconceito e a generalização travam a evolução. Acima de tudo penso ser uma questão de respeito. Não se faltem ao respeito falando com tal desconhecimento do interior! Bebam um copo de “áuga” que isso passa. Aviem-se!

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Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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