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“Carta de amor à nossa capacidade de adaptação”, por Vera Dias António

Temos, toda a espécie de seres vivos, ou pelo menos a grande maioria, uma enorme capacidade de adaptação. A par da evolução, vamo-nos adaptando ao novo, ao diferente, a novas formas de estar, ser e fazer. Adaptamo-nos, enquanto crescemos, ao diferente, a novas responsabilidades e desafios. Há no processo de sobrevivência e de crescimento algo especial que é o facto de o fazermos quase sem dar por isso. É algo gradual.

Li algures algo que me ficou e que é o facto de o ser humano ser naturalmente desadaptado ao mundo, não temos um habitat específico no qual estamos de forma natural e perfeita. A ideia é que, exatamente por não termos um local específico, conseguimos adaptar-nos a tudo. Ou quase tudo.

O nosso corpo, as nossas capacidades biológicas acompanham-nos. E, claro, as psicológicas também.

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Há quem tenha maior capacidade de adaptação. Há quem faça mais comparações ao estado anterior e tenha medo da mudança. Mas, bem ou mal, mais depressa ou mais devagar, lá vamos.

Não sei se vos acontecia, mas, não há muitos tempo atrás, as imagens da televisão dos habitantes de países muito poluídos que viviam diariamente com máscara, incomodavam-me. Achava aquilo contranatura, incómodo e pensava como conseguiam. Certo é que cá estamos e fazemos do uso da máscara algo normal, quase natural, diário. Por uma questão de proteção.

Penso em como isto começou, as incertezas, informações e muita contra informação. A estranheza de usar máscara no início. Uns sim, outros não. Os olhares a quem foi mais rápido na sua adaptação. O quase sentido de ridículo e, de repente, todos usamos.

A par deste gesto, a habituação de não cumprimentar, de não abraçar, de não beijar.

Há um sociólogo chamado Bourdieu que falou no habitus, podemos chamar-lhe o hábito, mas a sua teoria baseou-se naquilo que observou e se passa connosco, que é a forma como a cultura em que nos inserimos, dos grupos em que vivemos, moldam o nosso corpo e mente e, claro, acabam por moldar a ação da sociedade no presente.

Sempre ouvi dizer que somos “animais de hábitos”. Que é exatamente o que percebeu Bourdieu, que temos esta capacidade de que certas construções sociais sejam incorporadas por nós por meio de disposições para o nosso modo de ser, seja no sentir, pensar ou no agir.

Quando há dois meses pensávamos como é que as crianças iriam passar um dia de máscara na escola, elas já nos mostraram que o fazem sem problemas. Não raras vezes os meus filhos só se lembram de as tirar já em casa.

Se há uns meses achávamos estranho passar álcool gel nas mãos ao entrar e sair de espaços públicos, agora já parece estranho se não o fazemos.

O que custa mais é realmente gerir as emoções. Ora porque vivemos cheios de medo, ora porque nos fazem falta as nossas pessoas de todos os dias, que por segurança e prevenção evitamos visitar, não ousamos tocar, cedemos à vontade de abraçar.

O verão já foi de mudanças, as festas de aniversário foram muito restritas, as festas não tiveram lugar, as aldeias não tiveram a animação de outros tempos. Caminhamos para uma época que se quer em família e percebemos que, se calhar, não vai ser bem assim.

Pensamos naquela tia, naquele avô, naquela irmã que tem estado mais sozinha, e que há-de passar as festas de fim de ano assim. Os nossos idosos nos lares ou em casa ressentem-se da falta de visitas. Há tristeza em quantidade avassaladora em muitos rostos. Numa palavra bem nossa, esmorecemos.

Cabe-nos, ainda assim, pensar uma vez mais no que podemos fazer para atenuar as faltas. Nas encomendas que podemos enviar pelo Natal, nos telefonemas extra, demorados, no afeto que podemos enviar de várias formas. Porque os beijos são invisíveis, mas cabem numa caixa, num envelope, numa fotografia. E uma carta escrita à mão, quanto de nós cabe nela e chega ao outro?!

A palavra de ordem, penso, além de proteção, distanciamento e segurança, passa neste final de ano que se aproxima, por inovação, imaginação, renovação.

Inventemos novas formas de estar, ainda que não estejamos.

Há uma música do Jorge Palma que ouvi outro dia e que até nem é recente, mas que faz muito sentido pela mensagem que passa, e que nos diz que “Enquanto houver estrada para andar. A gente vai continuar. Enquanto houver estrada para andar. Enquanto houver ventos e mar. A gente não vai parar”.

Vamos tentar, pelo menos!!??!!

 

 

 

 

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Vera Dias António
Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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