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Quarta-feira, Setembro 22, 2021

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“Carta de amor à minha avó Maria e aos seus 88 anos de vida”, por Vera Dias António

Este sábado, 28 de agosto 2021, a minha avó Maria fez 88 anos. Que viagem tão grande pela vida tem tido a minha querida avó, a única que ainda tenho.

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Quem sai de Mação, a caminho de Penhascoso, não imagina que naquele monte do lado direito, junto à ribeira do Coadouro, nasceu a minha avó Maria, num palheiro de pedra que ainda por ali resiste, corria o ano de 1933.

A minha avó era filha de pastores. No verão, quando escasseava a erva para as cabras pastarem, os meus bisavós mudavam-se com o rebanho e o seu rancho de filhos para aquele palheiro onde havia pasto abundante para os animais. E naquele ano a bisavó Maria José estava grávida e foi ali, sobre as palhas e alguma manta, num palheiro junto à ribeira do Coadouro, que lhe nasceu a sua menina. A única menina que tiveram em 8 filhos. A minha avó Maria.

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Por ser a única rapariga, e pelo apoio que dava à mãe e à casa, a minha avó nunca foi à escola, creio ter sido a única que não aprendeu as letras. Já os números sabe-os bem e sempre a vi fazer contas de cabeça como poucos, a mim espantava-me particularmente.

A casa dos meus bisavós, que ainda existe frente à da dos meus pais, é de pedra e tem várias divisórias, todas com porta para a rua. A primeira era o palheiro e a última uma interessante cozinha que terminava com degrau e um género de balcão e eu sempre achei aquele espaço muito à frente para o seu tempo. Foi ali que a minha avó cresceu. Foi ali que viu morrer um dos irmãos, o tio Bernardino que, muito miúdo, foi ao palheiro e creio que foi um problema com a candeia que fez atear o fogo à palha e ali ficou, preso nas chamas. Conheci esta história pela minha avó, e não imagino a dor de ouvir e ver morrer assim, um dos irmãos mais novos. Curiosamente, há poucos anos, ouvi de uma senhora que entrevistei no Largo dos Bombeiros, quando falava da evolução do “seu” largo e de Mação, que a primeira vez que o primeiro carro de bombeiros saiu em Mação foi para acudir a um irmão da minha avó, coitadinho, que acabou por morrer num fogo no palheiro. É interessante ligar assim as histórias, como fios que tecem esta coisa que é a vida, neste caso a da avó Maria.

Não sei como a minha avó e o meu avô se conheceram. Mas sei que quando casaram o meu avô foi para a temporada da ceifa no Alentejo, arranjar dinheiro para começarem a vida e a minha avó ficou em casa dos pais. Como não sabia ler nem escrever ia a casa dos sogros e algum dos cunhados lia-lhe as cartas do meu avô e escrevia-lhe a resposta. Pois que quando a meu avô voltou foi direito a casa dos pais e disse que já não queria saber dela, que nem uma carta lhe escreveu de volta. A sorte foi que o desmentido veio da sua própria casa, onde lhe passavam os dizeres e as saudades da recém casada para o papel e a coisa ficou esclarecida. Souberam, entretanto, que o carteiro, de há muito apaixonado pela minha avó, guardava as cartas dela e não lhes dava seguimento no correio.

O meu avô seguiu para Lisboa para se fazer à vida e a minha avó ficou em Mação já com o primeiro filho. Quando a minha mãe nasceu era lá que o meu avô estava. Entretanto foram todos, quando o meu avô já tinha a casa pronta, seis anos depois. Essa casa ainda lá está, na Brandoa. Foi ali que viveram quase duas décadas até ao regresso a Mação. A minha avó nunca trabalhou para fora e o meu avô tinha muito orgulho em dizer que lhe entregou a carteira e a casa e que ela fazia um bom trabalho. O meu avô trabalhava muito e tinha um especial prazer em comprar terrenos, especialmente em Mação. Era quase um vício com base na ideia de que quem se agarra à terra está seguro. A minha avó já era mais de poupar, amealhar. E nisto, lá iam vivendo no seu equilíbrio, com a gestão dos cordões da bolsa entregue à minha avó.

Quando voltaram para Mação já os filhos estavam em idade de casar e assim foi acontecendo. Quando eu era miúda a casa dos meus avós era um mundo fantástico. Tinham vacas, cabras, galinhas, coelhos, porcos, os machos e cultivavam as hortas com especial esmero. As épocas, as várias épocas de colheita eram tempos maravilhosos, especialmente quando a eira se enchia de espigas de milho para debulhar.

A matança do porco também era dia de festa maior, tanta gente, tanta vida. Os porcos foram sempre uma preocupação para a minha avó. Tinham que ser bem alimentados e cuidados, não lhes desse algum mal e lá se ia o investimento. Há uns anos entrei em casa da minha avó de manhã e estava a terminar de rezar num pequeno altar que criou no quarto do fundo. É o que faz todas as manhãs quando se levanta, reza por todos nós. Mas naquela altura ainda criava o porco, pelo que rezava um Pai nosso pela família e outro pelo porquito, tal era o grau de preocupação.

Lembro-me que quando os meus avós deixaram de ter forças para o gado veio um camião buscar as cabras e a cara dos meus avós era só tristeza. Foi um dia marcante na vida deles, o fim de um ciclo, e ficou guardado também em mim. Desses tempos a minha avó mantém meia dúzia de galinhas e continua a tratar um pedaço de terra de onde come as couves, as alfaces, courgettes e pepino. Planta tomate, ainda que não o possa comer, para nós.

As preocupações e chatices que a minha avó carrega não são muito fáceis de lhe notar. Não é pessoa de dramas, nem de queixas. O pesar e a tristeza, quando os carrega, descobrimos-lhos nos olhos. Ficam pequenos e escuros com a dor. Tirando isso não há grande expressão de queixumes, embora os tenha. Por outro lado, tem riso fácil. Sempre a vi rir muito das graças do meu avô, dos meus pais e nossas. Tem um humor fácil e engraçado.

Nunca ouvi a minha avó dizer asneiras, mas há uns bons anos atrás uma atrevida, vinda não se sabe de onde, apareceu-lhe à porta do galinheiro com uma colcha de renda que lhe vendia por umas centenas de contos, oportunidade única, e a minha avó mandou-a enfiar a colcha vocês sabem onde e que se pusesse no ca… minho de onde tinha voltado. E ela foi. Esta história foi sempre motivo de muita risada.

A minha avó tem a particularidade de abraçar tudo o que fazemos, de se entusiasmar com tudo o que lhe dizemos. Vive muito através de nós. Não gosta muito de sair do seu espaço, rejeita convites para quase tudo. Gosta de estar sossegada no seu canto. Mas gosta de uma visita e de saber as novidades.

A única vez que a minha avó andou de avião foi quando o meu avô entendeu que tinham que ir ao Brasil visitar uma das irmãs que lá morava. E foram. Terá sido a grande viagem da sua vida, passaram lá quase um mês. Lembro-me de irmos com a minha avó comprar umas roupinhas melhores à loja do Sr. Mário, a Cardigos, algumas que ainda há-de ter guardadas, estimadas, quase 30 anos depois, que a minha avó é muito poupada, também na roupa.

A minha avó Maria devia ser, na verdade, embaixadora da reciclagem e reutilização. Faz uma pegas magníficas com lã que obtém de camisolas velhas que desmancha e depois trabalha com malha de renda, mas linha de lã, formando círculo coloridos. Nas costas aplica tecidos de roupa velha. O resultado são umas pegas maravilhosas para a cozinha, tenho quatro na minha. Outro dia deu-me um saco de espinafres e, a atar o saco, vinha a linha branca que retira dos sacos da ração das galinhas e guarda. Ata tudo com aquelas linhas. Coloca os plásticos e papel no ecoponto. Já os sacos de plástico só vão para lixo no limite dos limites. Usa e lava, há sempre sacos de plástico a secar no estendal. A minha avó devia mesmo ser a embaixadora da reutilização, não acham?!

Já passaram 6 anos da morte do meu avô. E quando ele morreu a grande certeza que tenho é que a minha avó perdeu o grande amor da sua vida. Nunca os vi discutir, nunca se destrataram. Tinham as suas diferenças, mas eram tratadas com respeito.

Na verdade, começámos a perder o meu avô uns anos antes da sua morte. Só uma doença pararia aquela força da natureza. E a minha avó cuidou dele em casa, numa missão de vida, que não daria a mais ninguém. Só a necessidade de uma operação à anca, quando já quase não conseguia andar, a deixou tomar a difícil decisão de levar o seu amor para o Lar. Terá sido a decisão mais difícil da sua vida. Da de todos. E depois continuou a cuidar dele, como podia, nas tardes passadas ao pé dele no Lar.

A minha geração foi criada aqui no bairro com os avós por perto. Já perdemos quase todos e creio que a minha avó é a única que ainda se mantém em casa e a fazer a sua vida.

A minha avó Maria fez 88 anos. Que viagem tão grande pela vida tem tido a minha querida avó, a única que ainda tenho. Adivinhamos-lhe, se não houver mal maior, que assim se manterá, connosco, por muitos e bons anos. Quando a porta da minha avó se fechar, encerra as portas dos avós do bairro. Terminará um ciclo. Uma geração com a qual ganhámos as melhores memórias e exemplo da nossa vida. Os bravos.

Um brinde a estes 88 anos, meus caros, e longa vida à minha querida avó Maria!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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