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“Carta de amor à maternidade e ao Domingo de Páscoa”, por Vera Dias António

4 de abril. Domingo de Páscoa. Dia da ressurreição de um filho que, acredito, terá dado alguma Paz à dor mariana, que será a mais profunda de todas. Dia de recomeços. De celebração.

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4 de abril. Dia de anos do meu filho mais velho. Parabéns, querido Amadeu! Quinze anos… e ponho-me inevitavelmente a pensar no que têm sido estes anos. Os melhores da minha vida.

4 de abril. O dia em que fui mãe pela primeira vez. Tão cheia de incertezas. Tão plena de novidade. Tão emocionada. Tão confusa. Tão apaixonada. Tão cheia de tudo.

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A maternidade tem sido um percurso maravilhoso. O amor escorre-nos na pele, o sangue corre, bravo, pelas veias e tudo em nós pulsa. Tudo é sentido a uma velocidade estonteante e, ao mesmo tempo, em paz, porque nos inunda uma serenidade inexplicável.

4 de abril. O dia em que abri um novo livro na minha vida. E há 15 anos cheirava mesmo a novo. Depois… depois tem sido uma história que escrevemos dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Uma história sempre em evolução e para a qual só desejamos finais felizes.

Ter filhos tornou-se, não sei precisar quando, uma vontade que esperava um dia concretizar. E quando conheci o Rui soube que seria com ele. E não demorámos muito!

A maternidade é um percurso que tem sido isso mesmo, um percurso de descobertas, em que cada filho traz sempre tanto à nossa vida. Um continuum de amor, que se multiplica a cada novo ser que nos enriquece a vida. Um percurso com momentos muito, muito felizes. E alguns de dor avassaladora.

A verdade é que nestes 15 anos trouxemos ao mundo quatro filhos, mas gerámos sete. Nestes 15 anos, a par de toda a alegria, perdemos 3 bebés e essa parte, aquela que mais calamos e tentamos gerir como conseguimos, deixa sempre uma cicatriz, daquelas que nos marcam para sempre. A maternidade tem este lado, também, o da perda, de que se fala menos.

E neste dia de festa, de aniversário cá em casa, neste domingo de ressurreição penso inevitavelmente naqueles dias de sofrimento imenso e profundo em que é tão fácil isolarmo-nos num casulo de dor.

São tantas as dúvidas e a falta de respostas. São tantas as perguntas que nos assaltam e, sempre, um enorme sentimento de culpa. O mais complicado é perceber que se foi possível gerar aquela vida, o porquê aquele fim assim, abrupto, sem sentido. Se me lembro de cada pormenor de amor no nascimento dos meus quatro filhos, lembro também toda a angústia e amargura que a perda nos trouxe. Porque nunca passa.

Depois do nascimento do primeiro inundámo-nos de amor e certezas. No nascimento do segundo veio a confirmação de que a maternidade é o melhor do mundo. Tivémos depois uma terceira gravidez… de gémeos. Nesta fase achámos mesmo que erámos muito abençoados. Foram tempos de imensa felicidade até que nos assaltou, sem dó nem piedade, a dor e a dúvida, e a culpa, e tanto medo, quando perdemos um dos gémeos. Foi a gravidez mais intensa, a dor da perda, a felicidade do bebé que nos crescia e o medo de o perder até ao feliz dia do seu nascimento. O nascimento de um filho é mesmo um momento de paz.

Em quatro anos tivemos os nossos três rapazes, uma loucura e felicidade diárias, uma vida recheada com os melhores miúdos do (nosso) mundo! Achámos, continuámos a achar que gostávamos de ter mais um. Gostamos de números pares!

Veio então a quarta gravidez que corria bem, parecia estar tudo bem. Até ao dia da consulta dos 5 meses. Faltou-nos literalmente o chão quando percebemos que não estava viva. Era uma menina e não estava mais viva. Todo o processo foi de muito difícil gestão.

As nossas primeiras reações…. Percebi nesse dia algo que ainda não tinha visto em nós, que é o reagirmos a tempos diferentes. O Rui caiu na hora, assim que soubemos. E eu permaneci, quase calma, a procurar respostas ao “porquê” e ao “e agora”.

Depois, pouco tempo depois, caí eu, completa e horrivelmente, e o Rui já se estava a levantar e segurou-me. Lembro-me até do sítio onde estávamos quando desabei e ele já estava capaz de me amparar. A parte seguinte foi devastadora. Contar aos nossos pais… contar aos nossos filhos… Das situações mais difíceis da vida, acreditem. Aí, caímos todos.

Tive então, envolvida numa profunda dor e vazia de tudo, o meu primeiro parto “normal”. Passei por tudo, mas sem ter a nossa menina. Tivemo-la sem a ter. Tenho o maior respeito e toda a solidariedade por quem passa por isto. Se a frase “só quem passa, sabe” se aplica a algo é a isto. É que não há forma de explicar o vazio, acreditem. Tudo o que nos dizem soa a oco, todas as respostas sabem a pouco, é uma dor tão grande… lembro-me de tanta coisa que ouvi e me foi dita e de uma mensagem que dizia “é toda uma aldeia que está convosco, na vossa dor…”. São estes pormenores que, não parecendo muito, nos confortam.

Se querem um conselho neste dia de Páscoa, digo-vos que nunca adiem palavras boas, nunca. Podem salvar pessoas. Ajudam sempre. Sempre. As palavras boas são isso mesmo!

No ano seguinte voltámos a procurar o nosso quarto filho. E aconteceu tudo exatamente na mesma. Uma menina, a felicidade da gravidez. E pelos 5 meses, de novo, o vazio… Foram dois dos piores momentos da minha vida, da nossa vida enquanto casal e dos nossos meninos, enquanto crianças.

O sofrimento não se mede, não há medida possível pois não há como quantificar algo tão superior a nós. Passa-se, felizmente, o mesmo com o amor.

Quatro meses depois de perdermos a segunda menina, quando ainda nem tínhamos conversado sobre o futuro, se tentaríamos de novo… uma tal de Rita achou que era a sua vez. Fiquei grávida e ficámos cheios de medo. Felizmente a nossa médica assumiu não ter respostas para o passado e deu-nos, de presente, um encaminhamento para Coimbra onde obtivemos, finalmente, uma explicação para o que tinha acontecido. Trombofilia. Foi o que nos levou as duas meninas. Um problema que pode ser genético, mas que, no meu caso, foi adquirido. E tem como ser controlado, contornado.

A gravidez da Rita foram meses de injeções diárias na barriga, centenas delas. O meu enfermeiro particular adaptou-se à nova profissão maravilhosamente. Raramente fiz marca, nenhuma me doeu. Acho mesmo que até sabiam bem. Eram suporte de vida. Guardamos cada seringa no seu tubo, num saco, não sabemos porquê, mas sem nos conseguirmos desfazer delas…

A última gravidez foi então toda acompanhada na Bissaya Barreto, viajámos para Coimbra duas vezes por mês e, no final, semanalmente. Primeiro foi uma gravidez muito escondida, por causa dos meninos, assim permaneceu até aos 6 meses de gestação, que foi quando dissemos aos nossos pais, aos nossos filhos, ao mundo. Ainda sem certezas. Apesar da dúvida e medo permanentes, correu tudo bem. Até esta enorme confirmação que foi o nascimento da Rita. A Rita trouxe muita Paz, lambeu as feridas, selou uma parte das nossas vidas que ficou para trás.

4 de abril. Quinze anos de maternidade que não trocaria por nada no mundo.

Não há nada que pague a calma, a perspicácia e o maravilhoso humor do Amadeu.
Não há nada que pague a criatividade, o engenho e o coração doce do Ruca.
Não há nada que pague a energia, o sorriso e a bondade pura do Lourenço.
Não há nada que pague a vivacidade, a beleza e a alegria contagiante da Rita.

A beleza e a paz de termos hoje estes filhos tem também a suas marcas menos boas, e acabo por ver a maternidade como uma forte analogia à vida, estando a ela intrinsecamente ligada. As fases menos boas são parte do percurso, mudam-nos, levam-nos a fazer descobertas sobre nós e sobre os outros, isolam-nos na nossa própria dor, escurecem-nos a alma. É também muito esta a mensagem da Páscoa, de morte e ressurreição e, no fundo, para toda esta situação que vivemos. Porque tudo acontece por um motivo, tudo acaba por voltar ao bom caminho, tudo passa. Faz tudo faz parte deste enigma que é a vida.

Ouvi outro dia num filme algo como “a vida faz-se olhando para a frente, mas só faz sentido se olharmos para trás”. É muito isto. E olhando para trás não trocava nada! Está tudo bem!

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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