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“Carta de amor à Liberdade”, por Vera Dias António

Tenho para mim que se deveria escrever sempre Liberdade com letra maiúscula, sempre. Porque tem nome próprio no que à definição mais específica do que é ser-se pessoa diz respeito. E só depois tem assento nas mais comuns das coisas.

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Há pormenores, chamemos-lhe pormenores, muito interessantes no processo educativo. São-nos apresentadas imensas matérias, é-nos permitido o acesso a inúmeros saberes e depois há aqueles pormenores que nos ficam para a vida. Aconteceu-me isso com a Liberdade. Não me lembro em que ano, nem em que disciplina, infelizmente não recordo o professor que um dia, numa aula, me apresentou este preceito: A nossa Liberdade vai até onde começa a do outro.

Não me lembro mesmo do onde e do quem, mas sei que aquele foi um momento marcante em que me encantei pela ideia, pela definição e em que passou a fazer parte de mim.

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Muito mais simples do que possamos pensar. É o que é. É isto.

Mas ao mesmo tempo complexa. Que se expande a muitas fases da nossa vida.

Cresce connosco. Primeiro a Liberdade de controlar a palavra, o andar. Depois a Liberdade do crescer, das escolhas que vão definir tanta coisa. A mais interessante será porventura aquela que nos move a partir de certa idade, a de ansiar pela maioridade para sermos donos de nós próprios, a ilusão doce dos 18, de se ser maior. Percebemos depois que a altura de maior Liberdade é a da infância. A inocência faz-nos imensamente livres proporcionando-nos a medida certa entre regras e permissões. Uma forma de só ser, sem adornos.

Os adornos, certos contornos vêm depois, quando complicamos tudo.

A vida, o crescer, o facto de existirmos em sociedade traz responsabilidades, mas não é isso que nos tira a Liberdade. Se quisermos, é sempre nossa. Alguém disse que quando faz o bem se sente bem e quando faz o mal, se sente mal. Se nos sentimos mal privamo-nos a nós próprios de ser livres. Simples.

Só que não. E não é simples porque muitas vezes insistimos num conceito de Liberdade no apelo a nós, ao nosso, ao ter, ao iludir, ao enganar, em que os meios justificam os fins. Só que os fins geralmente são umbiguistas e aí não é livre, é-se só egoísta. Porque, lá, está, se entrou no perímetro da Liberdade do outro.

E depois há aquela confusão entre Liberdade e “ser do contra”. Sim, há um lado, menor, maravilhoso, em que ir contra a corrente tem dado grandes feitos ao mundo. Mas depois, há o outro lado, bem maior, que é só bacoco, numa tentativa de parecer mais esperto e o resto é tudo parvo. Esta parte peca por ter efeito inverso. Mas persiste.

Temos muito aquela coisa, cultural, do chico-espertismo em que nos achamos no direito de fazer torto, fazer errado, ir contra a norma e o legal. Nem estou a falar de crime, que tem no seu expoente máximo a privação da própria Liberdade.

Falo antes no atentado ao outro quando, achando que a Liberdade no-lo permite, nos tentamos elevar por artimanhas ilusórias, entre a mentira, a má língua, a fraude, o olhar de cima, o desdém, que se concentram no conceito global da arrogância. Presos. Tão presos a esquemas e artimanhas, ao pretensiosismo, tudo tão contrário as ser-se livre.

Por vezes ainda fico incrédula com o que vejo, e ouço, como um evento que me marcou na passagem de ano quando, na televisão se falava com um grupo de gatos pingados na rua, depois das 23h e, ao serem interpelados uma senhora respondeu algo como “estou farta que se metam na minha Liberdade, eu é que mando em mim”.

Tive pena, acreditem, simplesmente pena daquela senhora, daquele ato desequilibrado de afirmação de algo que não consegue compreender o que é. E esta realidade é tão comum. O procurar afirmar uma Liberdade lá fora quando não a conseguimos ver dentro de nós.

É sabido, já ouvi tantas teorias sobre este fenómeno de se ser português, de ter vivido muitos anos em Ditadura e de depois não saber muito bem o que fazer com a Liberdade. Um pouco como as crianças excessivamente controladas que depois disparam em todas direções, sem direção alguma. Tudo requer meio termo, regra. E nós ainda não o percebemos. Pior, ainda nos gabamos, como todos os que furam confinamentos ou mesmo os que se vangloriam porque foram ao concelho vizinho quando não se podia e não foram apanhados. Livres? Não. Muito pelo contrário. Mas insiste-se nisto, não é?!

Penso tantas vezes que as pessoas têm falta de passatempos. Qualquer coisa produtiva em que pudessem dar algo de si, ou ao outro.

A Liberdade é a condição mais básica de se ser gente. Depois, cumpre-nos vivê-la, fazer as nossas opções, definir os nossos objetivos, limites e desafios. Com a certeza de que temos um espaço, um tempo e uma cena para atuarmos no palco da vida. Que termina quando começa a do outro. Somos igualmente livres a pares, em grupo, na sociedade. Mas conhecendo os limites, assumindo quem somos sem prejudicar nem magoar o outro.

Por falar nisso, as notícias vão que é uma tristeza, não é?!

Enquanto escrevia a minha filha Rita quis pintar. Num instante, de pincel em punho, deu todas as cores a um dia cinzento.

Um maravilhoso exercício de Liberdade, este.

Não o que fazemos para nós, mas a cor que damos à vida, aos outros, na exata medida em que somos livres e felizes sem entrar no espaço alheio. No nosso pedaço de papel. Que preenchemos como quisermos.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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