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Sábado, Maio 8, 2021

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“Carta de amor à culpa”, por Vera Dias António

A bem da verdade era a esta que pensei escrever esta carta. Mas depois, talvez pelo martelar constante da palavra durante a semana, foi na culpa que me pus a pensar e, se calhar, há mais culpa do que verdade em nós. Estranho? Se calhar não.

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Não consegui, embora a consiga perceber, uma definição correta do provérbio que nos diz que a culpa morre solteira. Não sei se morre…. A justiça ainda vá que não vá, já a culpa, ainda que escondida e arrumada no mais fundo de nós, solteira não morrerá. Andamos sempre consorciados com ela. É uma união muito forte isto de se ser gente e de se sentir culpa….

O mais interessante é o que nos tentamos distanciar dela… com desculpas com que nos dizemos, e aos outros, que não cometemos erros. Não fazemos asneiras, não mentimos, não omitimos, não fazemos nada mal…. Queriam, não era!?!

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Pelo que mesmo a mais defensiva das pessoas, o mais iludido (bolas e há-os tantos) dos homens, a mais certinha nisto de se ser gente…. Porque a perfeição é uma ilusão…. Na vida sentem-se sempre culpas.

A culpa do chegar tarde, do chegar cedo, a culpa do ter dito que sim, do ter dito que não, do ter feito, do não ter feito, do ter dito…. E aquela culpa do que não se diz e fica aqui, atravessado… a culpa do que se come, do que não se come, do que se bebe, do que não se bebe…. A culpa, pensem bem, é uma constante na nossa vida. A culpa se procrastinamos, mais do mesmo se trabalhamos demais…. Constante, dizia!

Enquanto escrevo olho pela janela e vejo as ervas que invadem o jardim, qualquer descuido e a natureza reclama o espaço. Mais a natureza humana, em que a mentira, a corrupção, a falsidade, é tudo tão fácil, tão nosso, tão humano… que dói.

Tal como o jardim, temos todos os dias um enorme trabalho connosco. Ou para não sair da linha, ou para lidar com a culpa.

Depois de ter filhos, então, aí todos os dias são de culpa, essa devassa permanente na nossa vida.

Outro dia dava os parabéns a um primo pelo trabalho na área da corrupção e referi que tem trabalho para toda a vida ao que me respondeu que sim, que a corrupção é tão antiga quanto o homem… E é.

Pelo que o que nos deve chocar não é a corrupção, o pecado, a prevaricação. Dói-nos se não há justiça, sem dúvida. Especialmente se julgamos o outro, e fazemo-lo tão bem… mas devemos também olhar para dentro.

Cresci numa Igreja em que repetimos domingo após domingo, que pecamos muitas vezes, por pensamentos, palavras atos e omissões. E, de mão no peito, pedimos perdão. Simples, assim!

Só que não.

Creio que tendemos a nem nos aperceber de quantas vezes julgamos, magoamos, humilhamos, distorcemos, impedimos o outro de ser, simplesmente de ser. O que nos faz acreditar que podemos falar de alguém, simplesmente falar de alguém sem a sua presença? E digo-vos como alguém que o faz.

Precisamos mesmo de ter muito cuidado connosco. Com o que guardamos no coração e nos leva a tocar a liberdade do outro. É que por vezes nem notamos. Uma palavra, uma cara má, uma visita que não é feita, um telefonema que adiamos. E, com ou sem culpa, tocamos a vida dos outros. Podemos até mudar destinos, trocar as voltas, matar sonhos ou sacudir dons. Sacudi-los como quando se pega nos ombros do outro e se diz “não vales nada”. Dizendo-o, ou não.

Sempre ouvi dizer que o diabo está nos detalhes. E são pequenos detalhes da nossa vida, não precisamos de ser um monstro reconhecido, dizia eu que são pequenas coisas que, no dia a dia, na nossa vida, muitas vezes sem intenção, tocam a vida dos outros para o bem e para o mal. Sim, também para o mal.

Nós, e falo também de mim, que tanto nos entretemos a julgar os outros, quantas culpas temos, todos, no cartório?

A culpa vem quando nos apercebemos de algo que não ficou bem, não caiu bem, algo que não fizemos bem. E quando não nos percebemos?!…. É o diabo…

Depois atinge-se outro nível, já profissionalizado, tendencialmente alheio ao sentimento de culpa, que é fazer algo para nos elevarmos, não porque trabalhamos, mas a rebaixarmos o nosso semelhante. A troco de quê? Quase nada. E aí sim, tocam-se vidas. A corrupção, no entanto, pode não tocar a vida de outros. Mas não é justa uma conquista corrompida, alcançar algo por atalhos,  influenciar para conseguir, deteriorar o sistema. Pode não se tocar diretamente na vida do outro. Mas conseguir-se-á viver assim, sem culpa?!

Todas as vezes que fazemos algo que agride o outro, seja de que forma for, estamos a interferir numa vida. Teremos noção disso?!

Preferimos por vezes sentir o sufoco da mentira e da omissão a assumir a nossa culpa. Mas em verdade vos digo, aceitar uma consequência é muito melhor do que viver com culpa.

Acreditando que uma parte de nós faz mal propositadamente e, com culpa ou não, sofre uma punição pelo que fez, creio que que a maioria de nós acaba por fazer mal sem querer e sente culpa, remorso e busca o perdão.

Em branco fica esta área em que me pus a pensar que é o mal que fazemos aos outros, sem notar. A diferença entre sentir culpa e ter efetivamente culpa. Aí sim, se não notamos que a temos, talvez morra solteira.

Saberemos sempre quando a temos?! Por vezes não. Ainda que vivamos, por tudo e por nada, cobertos dela. Há lá coisa mais estranha.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida.
Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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