“Carne de Elefante”, por Armando Fernandes

Foto: DR

Não é raro ouvirmos a sentença a necessidade aguça o engenho. Por ser assim, e é, nos finais de 1969, estava a cumprir o serviço militar obrigatório em Cabinda, nunca coloquei a hipótese de fuga, não raras vezes no decurso da permanência (vinte e sete meses) os abastecimentos fraquejavam, o pessoal mastigava dias seguidos arroz com atum ao almoço, atum (de barrica e esmagado) e arroz ao jantar.

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Às vezes ouviam-se gargalhadas porque a pasta almoçadeira servia ao modo cimento amassado e quando ficava agarrada às paredes de madeira do refeitório provocando enorme algazarra nos forçados manducadores e frases iradas no furriel vagomestre (nado nos arredores de Torres Novas) após ouvir o irado comandante da CCS.

A fim de minimizar a penúria alimentar, os mais afoitos (o MPLA executava mortíferas emboscadas) saíam à noite no propósito de caçar. Numa dessas caçadas um nativo experimentado caçador integrou o grupo tendo abatido um elefante. O animal não era muito avantajado, mesmo assim impunha respeito. O Major segundo-comandante ordenou a distribuição da carne de modo a população negra a viver na periferia do quartel também receber o seu quinhão provocando regozijo geral.

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Os cozinheiros da messe e do refeitório apresentaram a carne do rei dos animais em várias refeições – assada, estufada e guisada – acompanha de batatas, de arroz, de manga de capote (macarrão) – no entanto, a desejada carniça revelou-se fibrosa, duríssima, impossível de ser deglutida.

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Ao contrário, Nicolau, que lavava e passava a roupa que eu vestia, e «fazia a cama» onde dormia, andava contentíssimo pois a ementa dele à base de elefante permitia-lhe a ele e à família tirarem a barriga de misérias de vários dias em virtude da nossa rejeição ser a alegria da comunidade negra onde as mulheres trabalhavam numa incipiente agricultura e os homens tratavam das roupas, costuravam, sem esquecer os afeitos capilares masculinos. Fiquei sempre curioso em saber a técnica empregue pelo povo fiote na «domesticação» culinária dos paquidermes.

Muitos anos mais tarde, involucrado na pesquisa dos hábitos e usanças culinárias de todo o Mundo, descobri que no reino da Conchichina (ora sul do Vietname) o rei presenteava os seus súbditos mais chegados com troços de carne de elefantes jovens, sendo as patas e a tromba as partes mais apreciadas. A receita de patas de elefante da realeza local pode-se considerar do círculo da alta cozinha que inclui os portuguesíssimos vinhos da Madeira e do Porto, já receita indiana é mais prosaica, colocam as patas embrulhadas em folhas de junco deixando-as a assar durante horas no borralho.

Caríssimo leitor: tal como eu, deve ter verificado a existência de patas de elefante a servirem de bengaleiro, normalmente, de pessoas vinda de África ou da Ásia. Ao vislumbrá-las penso no destino da carne do seu interior. Seria cozinhada de forma a proporcionar prazer, ou pura e simplesmente deitada fora?

Não consigo responder à interrogação, apenas digo: a pandemia leva-me a renovar a memória do degustado noutras andanças. Pois, a deliciosa sopa de tartaruga! E o ensopado de cão!! E a canja de cobra!!!

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