“Carnaval, o mundo do avesso”, por António Matias Coelho

O Entrudo no Brasil, no século XIX, visto pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848)

Está o Carnaval à porta. Ou o Entrudo, como o nosso povo gostava de lhe chamar. É das manifestações culturais com mais remotas raízes e mais diversas interpretações. Durante três dias brinca-se com a vida e vira-se o mundo do avesso.

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Há quem veja as mais fundas raízes do Carnaval em certos ritos ligados aos cultos da Natureza e dos Mortos. Muitos povos pré-clássicos realizavam nesta altura do ano agrícola grandes manifestações de alegria que se prolongavam por várias semanas: assim se celebrava a chegada da primavera, símbolo do renascer da Natureza após o adormecimento próprio dos meses de invernia. Em alguns países, ainda hoje os festejos de Carnaval começam logo na Epifania e até mesmo imediatamente a seguir ao Natal. O culto dos Mortos, igualmente divulgado por todo o mundo desde há milénios, compreendia, entre outras práticas rituais, o uso de máscaras: acreditava-se que uma forma de apaziguar as forças do Mal seria antropomorfizá-las, isto é, dar-lhes forma humana. Assim, era frequente corporizar certos espíritos maléficos em figurantes vestidos de branco (como os mortos) que escondiam o rosto com uma máscara. É bem provável que tenha sido essa a origem mais remota do hábito das mascaradas carnavalescas, que se mantém ainda hoje, se bem que se tenham perdido as suas motivações mágico-religiosas.

Os antigos Gregos, gente do mar, costumavam embelezar os festejos do início da Primavera com pomposos cortejos marítimos ou com carros em forma de barcos. Do nome (latino) desses carros navais – currus navalis – teria derivado, segundo alguns estudiosos, a palavra carnaval. Seja correta ou não esta derivação, é no entanto bem provável que dessa antiga prática grega tenham chegado até nós os desfiles de carros alegóricos, ainda hoje tão divulgados.

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Os Romanos dedicavam a alguns dos seus deuses certos festejos com caráter bastante licencioso, nos quais muitos pretendem ver a origem direta do Carnaval do nosso tempo. Desses festejos, destaquemos os mais significativos: em 15 de fevereiro tinham lugar as lupercais, em honra de Luperco, o protetor dos rebanhos. Depois de se banharem no sangue de um animal imolado e de se lavarem com leite, bandos de lupercos nus corriam pelas ruas de Roma chicoteando a multidão com tiras de couro. As Lupercais só foram proibidas, pelo papa, no século V. Em honra de Baco, o deus do vinho, efetuavam-se as bacanais, que acabaram por servir de pretexto para os mais diversos escândalos e crimes. Foram proibidas pelas próprias autoridades romanas no século II a. C.. Finalmente, as saturnais pretendiam comemorar a igualdade existente entre os homens nos tempos em que Saturno viera habitar o Lácio. Nas saturnais reinava o impudor e a maior licenciosidade: os escravos envergavam a toga e simulavam mandar nos seus senhores; algumas pessoas do mais alto patriciado romano, incapazes de impedir os festejos e não estando dispostas a presenciar a insolência, saíam escandalizadas de Roma enquanto eles duravam. Parecem de facto evidentes certas semelhanças entre estas manifestações populares da Antiga Roma e os festejos carnavalescos que atualmente se fazem, nomeadamente no que se refere a uma temporária inversão de valores e à crítica social geralmente presente.

O Cristianismo veio alterar aspetos importantes das velhas práticas folgazãs do fim do inverno. Incapaz de lhes pôr termo, dado o seu profundo enraizamento nas tradições populares, a Igreja conseguiu, contudo, enquadrá-las em grande parte na simbologia cristã e no próprio calendário litúrgico: tolerou os excessos do período carnavalesco como contrapartida da imposição de um longo período de abstinência que se lhe segue – a Quaresma –, durante a qual os crentes se preparam para esse outro grande marco do ciclo litúrgico que é a Páscoa. No século VI, S. Gregório Magno classificou o domingo imediatamente anterior à Quaresma como domenica ad carnes levandas, de onde terão derivado carne levamen (supressão da carne) e carnaval.

Em rigor, o dia de Carnaval é esse domingo, embora os festejos se prolonguem por mais dois dias gordos, isto é, para os quais a Igreja não ordena abstinência. Em alguns casos vai mesmo até à quarta-feira de Cinzas, dia em que se faz o Enterro do Entrudo. Em Portugal a designação Entrudo é bastante utilizada como sinónimo de Carnaval, embora assente com mais propriedade à terça-feira, posto que deriva do latim introitus – entrada (na Quaresma, segundo se subentende).

Durante toda a Idade Média, o Carnaval nunca deixou de ser festejado, em especial pelas camadas populares, perante a tolerância do clero que apenas impunha uma condição: que tudo estivesse terminado na quarta-feira de Cinzas.

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As mascaradas públicas ganharam especial fulgor nos séculos XV e XVI, divulgando-se igualmente a prática do travesti como meio de disfarce e processo de crítica social. Vem desses tempos a fama de alguns dos mais brilhantes carnavais do nosso tempo: os da Alemanha (Munique, Colónia), os de França (Paris, Nice) e sobretudo os de Itália (Veneza, Nápoles, Florença).

No século XVIII o Carnaval atravessou uma fase de certo declínio, mas rejuvenesceu na centúria seguinte, ganhando novos adeptos do outro lado do Atlântico (Buenos Aires, Montevideu e, especialmente, Rio de Janeiro que é agora o maior e mais famoso Carnaval do mundo).

Em Portugal o Carnaval chegou a ser porco e violento, em particular nos princípios do século XIX, a ponto de as autoridades terem de tomar medidas enérgicas para limitar os excessos dos foliões. Nos dias gordos, sobretudo na terça-feira de Entrudo, as ruas transformavam-se em verdadeiros campos de batalha, onde exércitos de brincalhões se guerreavam com armas que provocavam alguns danos nos imparciais transeuntes: ovos, farinha, cabaças com água de (mau) cheiro, areia, tremoços, tangerinas, pastéis de nata, alqueires de milho e feijão deitados dos andares superiores sobre as cartolas de quem em baixo passasse mais desprevenido…

Carnaval de Montalvo, 2008
Foto: JICA – Juventude Inovadora Com Atitude

Algumas coletividades de Lisboa e do Porto tentaram então dar um ar mais lavado ao Entrudo, promovendo desfiles de carros alegóricos com certa beleza estética e substituindo a guerra dos ovos e dos pastéis de nata pelas batalhas de flores. Mas o gosto pelas velhas tradições trapalhonas, onde a irreverência e o despudor são o lema, persistiram e mantêm-se ainda vivas, particularmente entre os mais jovens.

Nas últimas décadas, o Carnaval industrializou-se, transformou-se em cartaz turístico. E, de festa de inverno que sempre foi, travestiu-se à brasileira, exibindo corpos quase nus em corsos com ar de verão, num plágio que só não é ridículo por ser Carnaval…

Contudo, à margem dos carnavais organizados para atrair forasteiros, ainda se mantêm vivas, a nível das pequenas comunidades, certas manifestações com raízes mais profundas na tradição popular – como são os casos, por exemplo, do entrudo chocalheiro de Podence ou, aqui mais perto de nós, do Jogo do Quartão e do Enterro do Galo na Chamusca – que encerram um significado cultural e social digno de apreço e valorização.

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O Jogo do Quartão na Chamusca, 2014
Foto: Município da Chamusca

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