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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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“Caracol”, por Armando Fernandes

Nas manhãs orvalhadas ou aspergidas com chuva pouco intensa, no decurso da obrigatória caminhada dietética, vou observando o mundo que piso e me rodeia, por isso vejo as afadigadas travessias de estradas e caminhos dos moluscos terrestres a que chamamos caracóis, dado aquelas vias de comunicação serem perigosas para eles e para todos os incautos.

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É longa, larga e recheada de episódios hilariantes a História humana, pois os caracóis foram dos primeiros alimentos dos nossos antepassados, como o atestam os milenares concheiros de Muge. As suas cascas em forma de espiral tiveram variadas utilizações domésticas, além do célebre gastrónomo francês Grimod De La Reynière ter concebido uma receita onde as cascas são o elemento principal.

Os caracóis são particularmente apreciados em França, nas suas duas espécies e, porque se tornaram menos abundantes na Pátria gaulesa, importam-nos do Médio e Extremo Oriente, p. e. Turquia e Indonésia, recebendo inúmeras receitas quer da denominada alta cozinha, quer das cozinhas regionais de índole rural.

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Na terras lusitanas de Norte a Sul (com maior amplitude), caracóis e caracoletas deliciam os seus inúmeros apreciadores de sobremaneira em festins de fins de tarde e início de madrugadas.

Seria estultícia minha atrever-me a enunciar receitas populares nas quais os caracóis recebem afagos de azeite, de ervas aromáticas de toucinho, de presunto, de manteiga (até existe a manteiga de caracol), da mesma forma dizer/escrever se são mais saborosos assados, fritos, de fricassé, grelhados, de caldeirada, em empadões e pastelões, só em vinho ou vinagre.

A escolha é grande, os caracóis das redondezas continuam a ser apanhados após uns pingos de chuva e a morrerem nas estradas. Não por acaso, os livros de advertências inserem que as maiores inimigas das serpentes são as estradas. Ora, os caracóis além de menos velozes não dispõem de veneno. Coitados dos caracóis!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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