- Publicidade -

“Capela de Nossa Senhora do Reclamador e os cemitérios da Barquinha”, por Fernando Freire

A imemorial invocação de Notre-Dame de Rocamadour, por deturpação popular Nossa Senhora (NS) do Roque Amador ou NS do Reclamador, deverá ter origem em França e, provavelmente, foi trazida pelos Cruzados para a nossa região, no tempo de D. Sancho I.

- Publicidade -

- Publicidade -

Na presente crónica o autor conta-nos a história dos cemitérios de Vila Nova da Barquinha e dos santuários ao seu redor bem como o culto mariano com esta invocação no Ribatejo. Este culto é ainda presente em Casais – Tomar e em Vila Nova da Barquinha, sítios que estão precisamente localizados no Caminho de Santiago do sul pelo que as estruturas de longa duração inscritas na natureza, no caso concreto estes dois templos, não estão ali por mero acaso.

Eis a história da morte e da vida dos nossos antepassados e os seus caminhos ou vias de fé que proveem dos primórdios da nacionalidade.

- Publicidade -

A imemorial invocação de Notre-Dame de Rocamadour, por deturpação popular Nossa Senhora (NS) do Roque Amador ou NS do Reclamador 1, deverá ter origem em França e, provavelmente, foi trazida pelos Cruzados para a nossa região, no tempo de D. Sancho I, pelo que poderá estar aqui a origem da sua qualificação. O seu topónimo é controverso. Para alguns NS do Roque Amador, Rocamadour, Roc’Amador, Roca Amador, Reclamador, e até Reclamada, ou Ricamador, como vulgarmente surgem em diversos documentos.

Quanto a Vila Nova da Barquinha, apesar de documentos do Séc. XIX atribuírem o topónimo NS do Roque Amador 2 não temos dúvidas que as fontes mais longínquas conhecidas, do Séc. XVI e XVII, possuem o topónimo NS do Reclamador.3

O Dr. Xavier da Cunha 4 médico em Vila Nova da Barquinha, intelectual, escritor, poeta e diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa, conta-nos que, em 1870, existem quatro cemitérios em Vila Nova da Barquinha: o 1.º a leste da ermida de Santo António, lado nascente, onde se encontrava sepultado o primeiro presidente da Câmara, Manuel Henriques Pirão, construído em 1836; o 2.º a Sudeste deste, também de 1836; o 3.º a sudoeste da Ermida de Santo António, em 1844; e o 4.º junto da capela de NS do Roque Amador, um terreno plano e vasto, que já em tempos, desde 1835, foi utilizado para cemitério público”.

A palavra cemitério é de origem grega “koimetérion” que significa dormitório ou quarto de dormir. No latim coemiterium ou cemeterium. Os cristãos creem que é o local onde dormem aqueles que nos antecederam e viveram na fé cristã e que aguardam o dia da ressurreição.

No nosso concelho, antes da publicação das leis liberais, como em outros locais do país, os nossos antepassados eram sepultados ou tumulados dentro dos templos ou no seu adro envolvente. Tumular os defuntos dentro dos templos era, para a nossa sociedade predominantemente crente, um imperativo religioso. Numa população devota é fácil de entender que os restos mortais dos seus entes queridos fossem sepultados nos locais de culto. Ficavam por convicção eternamente mais perto e sob a proteção de Deus.

Aconteceu que em 26 de novembro de 1845, foi publicado o Decreto de reorganização da saúde pública em Portugal. Este diploma veio impor o enterro dos defuntos em túmulos nos cemitérios, fora das vilas e aldeias, uma vez que o Decreto de 21 de setembro de 1835, uma das primeiras iniciativas do Governo liberal, não foi cumprido pelas populações. Tal decreto ordenava que se estabelecessem cemitérios públicos em todas as povoações do País e cominou penas graves ao pároco ou qualquer eclesiástico que consentisse enterramentos dentro dos templos. Houve forte oposição, quer ao Decreto de 1835 quer ao de 1845, sobretudo no Norte de Portugal.

Para uma melhor apreciação do tema, à data controverso, atentemos ao preâmbulo do Decreto de 21 de setembro de 1835: “Muitas providências executivas se tem determinado em diversos tempos para acabar com a prática supersticiosa de enterrar os mortos dentro dos templos – prática ofensiva do respeito, e veneração devida aos lugares sagrados, em que se adora a Divindade. Estas providências não produziram o desejado efeito, porque lhes faltava o carácter solene de medida geral, e porque se não tornaram responsáveis ou os executores, ou os que se opusessem à execução das ordens. Outra razão se deu sempre para iludir tais providências, e razão plausível. A autoridade que vedava os enterros nos templos, não tornava efetivos os estabelecimentos dos cemitérios, ou apenas lhes designava porções de terreno, abertas, e devassadas por animais, com escândalo dos fiéis, que não podiam suportar, que fosse tratado com irreverência o jazigo dos mortos. Estes inconvenientes eram ainda encarecidos pelo interesse daqueles que lucravam com uma prática funesta à saúde de seus concidadãos, vindo assim a fazer um tráfico da pestilência, e da morte, que quanto mais frequente, mais proveitosa lhes era! Eis os motivos porque durou por tantos séculos este abuso vergonhoso, a ignorância da idade média transformou em dever de religião, cedendo a sugestões insidiosas dos que derramavam a fatal crença de que alcançariam a glória das almas aqueles, cujos corpos jazessem em companhia das imagens dos Santos, dentro dos templos sagrados.  Mas ainda nesses tempos de obscuridade, e de fereza de costumes a voz da religião esclarecida, e livre de prejuízos soou contra tais práticas, proibindo-as, posto que sem efeito, porque desgraçadamente os costumes pedem mais do que as leis; e porque os ditames de poucos homens ilustrados se perdem no meio da cegueira geral.  Nos Concílios de Braga em 663, de Meaux em 845, de Tribur em 895, e de Reims em 1117, foram condenados os enterros dos mortos nos templos. Em épocas posteriores repetiu-se a mesma condenação; mas só foi dado à ilustração dos povos sob governos justos, e zelosos do bem da comunidade extirpar um mal, origem de imensos males, e que tanto mais difícil era de desarreigar, quanto se fundava em noções religiosas, mal aplicadas sim, porém úteis à cobiça que cega o entendimento, e fecha os ouvidos à voz da humanidade.”

A contestação a estes diplomas legais, de 1835 e de 1845, conduziram a várias revoltas, e a enorme agitação social, e deram origem, no ano 1846, à chamada revolução da “Maria da Fonte”5. Estas medidas, proibição do enterramento dos defuntos dentro das Igrejas eram, aos olhos do devoto povo, um ultraje e sacrilégio uma vez que permitiam que se enterrassem pessoas no campo, em locais isolados, tal e qual como se fossem animais, afastando-as, totalmente, dos ritos e do solo sagrado dos templos religiosos.

Que foram feitos enterramentos no chão e no adro da nossa Igreja de NS de Assunção, na Atalaia, e na Igreja de NS da Conceição, em Tancos, não restam quaisquer dúvidas, pois sabemos que apareceram ossadas aquando das obras de arqueologia realizadas na Igreja de Tancos, em 2013, pelo Centro de Pré-História do Instituto Politécnico de Tomar.3 Neste relatório consta que foram feitos atos de decapagem, recolha do espólio osteológico, registo gráfico e fotográfico. Por exemplo, num decalque de uma epigrafe de 1578, consta:  1578 – Sepultura de António Vicente e sua mulher, Igreja de Tancos.

Na Igreja da Atalaia temos o túmulo de pedra, em forma de capela, envolvendo um argo cego de fundo talhado onde encrava a pequena arca tumular. Sobre o arco há um agradável conjunto com o símbolo de armas do Patriarca, arma dos Manoeis, com a teara e dois ramos patriarcais. Nas histolibatas leões rompantes. No monumento consta, em latim, a seguinte inscrição traduzida: “D. José. Manoel I, Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana, Patriarca da Santa Igreja de Lisboa. Regeu o Patriarcado durante 4 anos, 1 mês e 19 dias. Viveu 72 anos, 6 meses e 14 dias. Faleceu no ano do Senhor 1758, no dia 9 do mês de julho. Descanse em paz.»

Eis dois túmulos ainda presentes em monumentos classificados do nosso território.

Sempre dir-se-á que o tema túmulo, ou morte, não é um tema agradável, mas devemos reter que a piedade, o respeito e o culto dos mortos só nos dignifica enquanto vivos.

Junto à capela de NS do Reclamador estava um dos cemitérios da Barquinha, “rodeado de tapumes” 4. Aqui foram sepultados os cadáveres de pessoas pobres; mas posteriormente, “também lá se sepultavam indivíduos pagando fábrica (imposto), e inclusivamente encontro notícia de um que lá se enterrou em 1838 tendo feito testamento. Nos últimos anos o movimento n’este cemitério era já menor … em 1858 apenas de 3; em 5 de janeiro de 1859 ainda se enterrou ali um cadáver, mas d’ali por diante determinou – se não fazer mais enterramentos naquele cemitério …” 4

Todavia, o enterramento dos nossos antepassados seria ali feito desde tempos imemoriais, em local privilegiado, debruçada na encosta, com uma magnífica vista sobre a Lezíria do Tejo a jusante. Quem o defende é (PEREIRA, 2021): “… uma máquina da Câmara tinha andado a nivelar o caminho de acesso à mesma (Capela de NS do Reclamador), detetou a presença de um crânio quase à superfície e alguns outros restos osteológicos. Inicialmente supôs-se que tais ossadas estariam relacionadas com um cemitério que terá existido nas imediações da capela, no séc. XIX; porém, mais tarde, viemos a concluir que esses despojos, muito provavelmente, seriam mais antigos, uma vez que, na sua vizinhança, eu tive oportunidade de recolher alguns ceitis – moedas de cobre de reduzido valor facial – cujas características eram semelhantes às cunhadas nos reinados de D. João II e D. João III que, usualmente, eram depositadas simbolicamente nas sepulturas, para os mortos pagarem a passagem para a outra vida.” 6

Por isso, toda a longa história do local onde se encontra a capela de NS do Reclamador se perde na distância do tempo.

Sabemos que em 1877 foi anunciado que “… se acha patente na secretaria da administração d’este concelho … o processo para a expropriação de uma porção de terreno …de Emílio Cardoso Serigado, no qual a mesma Câmara projeta edificar um cemitério público; a fim de que os interessados; possam examinar na referida secretaria a respetiva planta e todos os demais documentos de que o citado processo se acha instruído, e fazerem as reclamações e observações que julgarem convenientes.” 7

Por outro lado, em 1892, ainda permanecendo sepulturas nos cemitérios encerrados “Tendo brevemente de ser desocupado parte do terreno do cemitério municipal da Barquinha, onde foram sepultados cadáveres durante os anos de 1880 a 1885, cujos covais compreendem os n. 1 a 108 inclusive, a câmara assim o faz constar às pessoas interessadas para que até ao dia 25 do corrente mês mandem trasladar para jazigos as ossadas d’aquelles finados, ou satisfaçam a importância para a reforma dos respetivos covais. 8

A apresentação do relatório à Câmara do subdelegado de saúde, Xavier da Cunha, no qual usa termos muito duros, em sede de higiene pública, leva a que esta encerre os 4 cemitérios existentes na vila e inicie a construção de um novo, agora na Moita do Norte, o atual cemitério municipal.

Com a proteção dos nossos reis, NS do Reclamador começou a estabelecer-se como padroeira de terras do reino, como Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Guimarães, Braga, Santarém, Torres Vedras, Chaves, Lamego, Covilhã e outras muitas, onde até se conserva ainda em muitos lugares ou ermidas.

A devoção a Santa Maria de Roc-amadour, concorria com Santiago. O mundo medieval era um mundo de peregrinos que ocorriam aos lugares sagrados, Rocamador nos Pirenéus, em França, e Santiago Compostela, na Galiza. “Faziam-no por particular fé numa tosca imagem, lavrada em madeira, de uma senhora, de tez asiática, sentada e tendo ao colo uma criança. Os traços do rosto não são finos e delicados como os que vulgarmente estilizavam os da mãe de Jesus. São, dir-se-ia, grosseiros, uma Senhora cuja beleza aos olhos dos crentes se plasmou mais nos milagres que se acreditava operados por sua intercessão do que na delicadeza de linhas pela mesma não possuídas. Feia, dir-se-ia e, talvez por isso, ainda mais enigmática e chamativa.” 9

No Ribatejo10 o culto mariano, com esta invocação, NS do Reclamador é presente em Casais – Tomar, já com existente no ano de 1390, e em Vila Nova da Barquinha. Sítios que estão precisamente localizados no Caminho de Santiago do sul pelo que a análise de estruturas de longa duração inscritas na natureza, no caso concreto destas duas capelas, não estão ali por mero acaso. São a história dos nossos antepassados e dos caminhos ou vias da sua fé que provém dos primórdios da nacionalidade.

Mas o seu culto também de faz em Cheleiros (Mafra), Castelo Rodrigo, Linhares, Covilhã, etc.

A imagem de vulto lavrada em pedra, NS Reclamador, com decoração polícroma e dourada, é plausivelmente datável do Séc. XV ou XVI, talvez de Diogo Pires-o-Velho que se notabilizou no campo da escultura, na cidade de Coimbra, executando inúmeras esculturas de NS com o Menino ao colo.

A capela do Reclamador é composta pela nave, capela-mor, a qual se anexa a sacristia e a desaparecida habitação do ermitão. Ao seu lado existiu um dos quatro cemitérios que existiam na vila.

Estando na rota do caminho de Santiago do sul é muito provável que a ermida de NS Senhora de Reclamador, na Barquinha, fosse fundada por uma confraria de frades hospitaleiros, que tinham vindo de França, nos finais do Séc. XII, cuja missão primordial era a de auxiliar os peregrinos que se dirigiam para Compostela, então o maior centro de peregrinação cristã da Europa, pois segundo a tradição oral o local foi albergue para os acolher uma vez que o caminho atual passa a escasso 500 metros da ermida.

A primeira referência à ermida data do reinado de D. Manuel e diz respeito à sua administração “…das capellas que se acharão na leitura D’El rei D. Manuel”11 o que poderá indiciar que a sua construção deveria ter ocorrido durante o Século XV.

Também consta do inventário dos bens eclesiásticos pertencentes ao padroado real, ordenado em julho de 1573 por D. Sebastião.

Esta ermida a NS, durante largos anos ficou votada ao abandono e ao vandalismo.

A imagem de NS do Reclamador foi furtada em 8 de abril de 1993 tendo sido encontrada pela Polícia Judiciária e devolvida à Fábrica da Igreja de Santo António da Barquinha.

No início do Séc. XXI a capela foi intervencionada, inclusive, reconstituídas as suas pinturas adamascadas. O adro fronteiro era coberto por telheiro de três águas, constituindo uma galilé, cujas colunas ainda existiam no interior da sacristia e foram furtadas na mesma altura do lavatório e pia de água benta.

É, atualmente, um pequeno espaço de liturgia e de meditação.

O Município cedeu, em 2020, ao Agrupamento de Escuteiros n.º 583, uma propriedade confinante com o templo, com cerca de 14 mil m2, para instalação de um parque escutista. O mesmo irá ficar junto à capela e à sede daquele Agrupamento, onde possui instalações com cozinha, refeitório, balneários e sanitários.

Hodiernamente NS do Reclamador é venerada pelos fiéis que, em domingo de Ramos, trazem pequenos raminhos de alecrim para benzer e toda a sua longa história se perde na distância do tempo.

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- Publicidade -