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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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“Cantina”, por Armando Fernandes

Certamente, o leitor sabe o significado de cantina. No entanto, talvez desconheça outros como por exemplo denominar-se cantina a um recipiente metálico contendo duas caixas sobrepostas que possibilitam transportar um prato preparado e depois aquecê-lo em banho-maria. Sabia? Muito bem.

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E, sabia que em França, de 1789 a 1914, as cantinas dos regimentos militares eram geridas por cantineiras. Estas mulheres, geralmente viandeiras, usavam vistoso simulacro do uniforme da companhia em campanha. Sabia? Muito bem.

E sabia que cantina era o nome de um cofre de viagem muito utilizado pelos militares nas suas deslocações. Sabia? Formidável.

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E sabia que cantina pode ser um espaço dotado de um balcão onde os presos e militares podem comprar mantimentos para melhorarem o rancho. Sabia? Formidável. O autor destas linhas ficou a saber quando estanciou na tropa durante a pasmaceira de Santa Margarida e no teatro de operações na floresta do Maiombe.

Nos campos sufocantes de Santa Margarida no decorrer do estágio de instrução de aperfeiçoamento operacional surgiam a horas certas motorizadas a transportarem sandes de chouriço avidamente disputadas. No caso em apreço estas minúsculas cantinas itinerantes desempenham bons serviços, sendo lenitivo para aguentarmos os exercícios que em Cabinda se revelaram inúteis.

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Sem margem para dúvidas o leitor sabe quanto eu que as cantinas são locais onde se tomam refeições em conjunto, podendo ser de natureza militar, prisional, escolar, colegial ou de empresa, se em vários locais de trabalho as cantinas tomam o nome de refeitórios, nas empresas chiques detêm a designação de restaurante da empresa.

Sabia, claro que sabia, como sabe ser uma palavra de origem italiana, mais que não seja por via dos filmes. Os leitores donos de idade a ultrapassar os sessenta anos recordam-se das belas cantineiras dos filmes neorrealistas depois da guerra em Itália. No intuito de os lembrar – como o tempo passa – refiro a Sofia Loren, a Gina Lolobrígida, a Cláudia Cardinale, a Rossana Podesta, a Silvana Mangano e chega para lhes fazer terem ideias. Só ideias…

No período da nossa implantação nas colónias as cantinas no interior do sertão revestiam-se de enorme importância no abastecimento às populações, fosse dos colonos fosse dos habitantes locais, sem as cantinas inúmeros produtos, enchidos e conservas, açúcar, arroz e massas, só nas cantinas se encontravam.

Normalmente, o cantineiro ido da Metrópole, sem grandes habilitações literárias incorporava-se nos usos e costumes locais sem esforços de maior, daí estabelecer um sistema de moeda de troca obtendo em boas condições os minérios, marfins, madeiras, peles e artesanato legítimo provenientes das comunidades locais.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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