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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021
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Caminhos de Fátima | Várias marcações confundem peregrinos, que continuam a cortar caminho pelas estradas nacionais

Novos caminhos fazem desvios por zonas mais bonitas mas foram pensados para o turismo espiritual, não para quem vai a pé cumprir uma promessa

Há um lugar-comum que integra a sabedoria do caminhante espiritual: “a Santiago vai-se pelo caminho, a Fátima vai-se pelo destino”. O que isto quer dizer é que a experiência espiritual que se procura ao fazer o caminho de Santiago de Compostela não é exatamente a mesma de quem vai até Fátima, cujo objetivo é maioritariamente cumprir uma promessa e chegar o mais depressa possível. Os novos “Caminhos de Fátima”, marcados através dos protocolos entre municípios, Centro Nacional de Cultura (que detém a marca) e Turismo de Portugal, têm atraído quem vai a pé até Fátima por estes dias, mas nem sempre a experiência tem sido positiva. Nem todos os percursos têm em conta as indicações de onde podem os peregrinos dormir, nem foram ajustados ao cansaço da caminhada, dando voltas só para “ver as vistas”. Em resultado, são muitos os que voltam a cortar caminho, regressando às bermas das estradas nacionais. 

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– Por acaso viu mais um grupo atrás de nós?
– Não, foram as únicas pessoas que encontrei na Rota Carmelita…
– Eu não vos disse? Cortaram caminho.
Luzia Fernandes sabe do que fala. Faz caminhos espirituais há mais de duas décadas, quer a Santiago de Compostela, quer a Fátima. Apanhou de tudo, do alcatrão a caminhos rurais. Neste momento já não lhe interessa o espírito de cumprir promessas e “queimar quilómetros”. Caminha como quem faz um retiro espiritual, apreciando a paisagem e o silêncio.

Por isso escolheu a Rota Carmelita, um dos dois caminhos marcados pela Associação Caminhos de Fátima. No entanto o seu objetivo não é concretamente chegar ao Santuário. Foi o caminho que procurou e resolveu, por tradição, fazer nesta data.

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As colegas de trajeto de mochila às costas, Olga Santos e Fernanda Marques, partilham da mesma iniciativa. Ambas já fizeram os caminhos tradicionais de Fátima, mas ou desistiam ou o esgotamento era tal que não apreciavam a chegada. O espírito de “queimar quilómetros” continuamente é o que empurra as pessoas para as estradas nacionais, porque querem chegar o mais depressa possível e, finalmente, descansar. “As pessoas choram ao chegar a Fátima não porque chegaram propriamente ao Santuário, mas porque têm o corpo todo dorido”, considera Olga.

Assim caminham neste mês de maio, como fazem há três anos, pela Rota Carmelita, bastante bem marcada e sinalizada, seguindo o seu ritmo e desfrutando da paisagem envolvente.

O espírito de “queimar quilómetros” continuamente é o que empurra as pessoas para as estradas nacionais, porque querem chegar o mais depressa possível e, finalmente, descansar.

Luzia Fernandes admite, porém, que há muita gente, inclusive donos dos cafés onde páram, que as tentam dissuadir de seguir as novas rotas. São as voltas por monumentos e outras localidades que apenas acrescentam quilómetros à viagem, quando há trajetos mais curtos e diretos. “As pessoas ficam assustadas quando nos veem no meio do mato. Dizem que Fátima é por estrada. É preciso uma sensibilização”, considera, mostrando que caminhos como a Rota Carmelita permitem uma descoberta interior.

Também não há albergues, diz Luzia Fernandes, que fez essa busca. Também descobriu, contactando por telefone os cafés do trajeto, que muitos têm camaratas e é nelas que têm pernoitado. Estão também a surgir alojamentos locais novos com ótimas condições, como em Alvorge, um dos melhores sítios onde ficaram, aponta.

Na Rota Carmelita encontramos três peregrinas que não têm como objetivo chegar a Fátima para o 13 de maio, mas apreciar a experiência da caminhada. Créditos: mediotejo.net

A Rota Carmelita sai de Coimbra. O ponto caótico é em Ansião, onde confluem três caminhos centrais em direção a Fátima e Santiago de Compostela. Atualmente, as marcações azuis dos “Caminhos de Fátima” sobrepõem-se em visibilidade às antigas setas rudimentares pintadas a tinta pela Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima.

As guerras políticas entre instituições são conhecidas destas caminhantes, que se apercebem das setas e das placas sobrepostas entre si, gerando confusão em alguns pontos. As indicações dos “Caminhos de Fátima”, dizem, são mais fáceis de seguir e mais ao gosto destas caminhantes. 

Pensados para turismo espiritual, não para o peregrino a cumprir promessas

O telefone anda “quente”, afirma Rodrigo Cerqueira, responsável da Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima. Pelo menos metade dos telefonemas que recebe, garante, é para resolver problemas criados pelos trajetos marcados por outras instituições, nomeadamente os “Caminhos de Fátima” do Centro Nacional de Cultura (CNC), promovidos pela Associação dos Caminhos de Fátima e demais protocolos entre o CNC e outros municípios.

Rota Carmelita. Foto: mediotejo.net

As novas placas azuis são mais vistosas, apontando para trajetos que procuram sair das estradas nacionais. Mas nem sempre os peregrinos têm onde dormir e a dada altura o cansaço é tanto que já ninguém quer olhar para a paisagem. O objetivo é cumprir a promessa: chegar a Fátima.

Para Rodrigo Cerqueira, quem desenha os “Caminhos de Fátima” não tem noção do que é caminhar muitos quilómetros. “Está fora de questão dar aquela volta” pelo monumento ou pela aldeia típica, os peregrinos já estão demasiado cansados para apreciar. E este, salienta, é um dos principais problemas do conceito que uniu os municípios ao Centro Nacional de Cultura e ao Turismo de Portugal: são, simplesmente, demasiados quilómetros. Além disso, como as pessoas atualmente têm GPS, facilmente percebem que estão a andar às voltas.

Quem caminha por fé quer chegar depressa, não quer passear. “Além disso, como as pessoas atualmente têm GPS, facilmente percebem que estão a andar às voltas”, critica a Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima

Outro problema é a marcação. “Não é por acaso que os Caminhos de Santiago e a Associação dos Amigos marcam a tinta”, explica. Os trajetos ficam facilmente desatualizados ou são alterados de ano para ano, tornando-se assim mais fácil remarcar sempre que necessário. O modelo de marcação dos “Caminhos de Fátima”, argumenta, vai obrigar a um investimento de fundo de tempos a tempos.

“São obras feitas com dinheiro público”, lembrou, mas o projeto foi “mal feito” e põe os “peregrinos a andar às voltas”. Para o responsável, pedir a juntas de freguesia e Câmaras Municipais que façam a manutenção dos trajetos, que era feita até aqui por voluntários/peregrinos, vai conduzir ao abandono e degradação dos mesmos.

Rodrigo Cerqueira também constata que as novas rotas tiram os peregrinos dos trajetos que já tinham albergues montados, um trabalho feito por esta associação na última década. Muitos dos telefonemas que a Associação recebe é de frustração de pessoas que estão a caminhar e ficam confusas e desorientadas com as novas marcações. 

Os Amigos dos Caminhos de Fátima começam lentamente a desistir do seu trabalho. “A nossa missão como voluntários está a terminar”, frisa ao mediotejo.net, referindo que os caminhos se vão transformar num negócio. Com o avanço dos novos trajetos do Médio Tejo e da Nazaré, há toda uma nova reconfiguração das sinalizações, e a presença da Associação de Amigos só irá criar ainda mais confusão. Nos últimos anos, comentou, até dinheiro chegaram a receber que era destinado à Associação Caminhos de Fátima.

A Associação de Amigos existe há mais de uma década e chegou a ser chamada a contribuir para o projeto da Associação dos Caminhos de Fátima, que pretendia criar um trajeto mais seguro a partir do norte do país até Fátima. No entanto, tal contributo só foi pedido na véspera da assinatura do protocolo entre os 14 municípios da associação (de Gaia a Ourém), o Turismo de Portugal e o Centro Nacional de Cultura em 2017. Sentindo-se excluída, e não concordando com o modelo, a Associação dos Amigos afastou-se.

Com as marcações a avançarem, surgiram várias notícias nos últimos anos a alertar para a confusão dos peregrinos com as múltiplas sinalizações. A Associação de Amigos também se chegou a queixar de sobreposição.

No geral, os Amigos têm muito mais informação na sua página, desde roteiros, a albergues e outras informações necessárias ao peregrino, do que a página da Associação dos Caminhos de Fátima, que só tem a indicação das duas rotas que possui: o caminho do centenário e a rota carmelita. A página dos “Caminhos de Fátima” do CNC tem informação mais organizada sobre a rotas que coordena, mas a informação centra-se nos trajetos, focada no conceito de caminhada e de espiritualidade. 

“Caminhos de Fátima”: um projeto em construção

A marca “Caminhos de Fátima” pertence oficialmente ao Centro Nacional de Cultura, que foi o primeiro a fazer marcações. O Centro detém quatro rotas: caminho do Tejo, caminho do Norte, caminho da Nazaré, Caminho do Mar. “Em 1996 – já há 21 anos –, com o objetivo de tirar os peregrinos das estradas perigosas e poluídas, o  CNC deu inicio ao projeto Caminhos de Fátima, começando por delinear o Caminho do Tejo (Lisboa/Fátima)”, refere o CNC. “Com a colaboração do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, nosso sócio e antigo Presidente, foi feito um levantamento do traçado do caminho. Posteriormente assinámos um protocolo de colaboração com todas as autarquias por onde o caminho passa, o caminho foi todo marcado e, em maio de 2000, foi inaugurado. Nesse mesmo ano procedemos ao registo da marca no INMP”, esclareceu a instituição ao mediotejo.net, quando começaram a surgir mais conflitos com a marcação dos caminhos, em 2017.

Em 2010 surgiu a Associação dos Amigos, que também possui quatro rotas traçadas, além de acordos com diversos albergues pelo caminho, que dão apoio aos peregrinos. 

Quando os 14 municípios criaram em 2015 o projeto Associação dos Caminhos de Fátima, o objetivo principal era tirar os peregrinos que vinham do norte pela Nacional 1, onde aconteciam com frequência acidentes, lembrou ao mediotejo.net o presidente da Associação e da Câmara de Pombal, Diogo Mateus. O projeto esteve parado, tendo seguido em frente com a parceria do Turismo de Portugal em 2017, assim como com o Centro Nacional de Cultura, numa iniciativa que envolveu a antiga Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho. 

“A nossa preocupação é a segurança pedonal”, frisou o autarca, salientando que é natural que não existam albergues porque os trajetos são recentes e este é um trabalho ainda em desenvolvimento, que se vai estabelecendo com o tempo. Além disso, constatou, os trajetos escolhidos exigem uma coordenação entre os vários municípios, para que haja continuidade. “Felizmente que as coisas estão no bom caminho. Estamos a tentar”, concluiu. 

Há novos caminhos a nascer no Médio Tejo e na zona da Nazaré, mas estes já não passam pela Associação, adiantou. São projetos que partem do Centro Nacional de Cultura com outros municípios, que têm em comum o símbolo dos “Caminhos de Fátima”.

A Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT) adjudicou à UPSTREAM Portugal o projeto “Caminhos de Fátima do Médio Tejo”, que inclui três novos itinerários na sub-região. Em nota de imprensa, a empresa de consultoria e promoção turística destaca que “o projeto promete o desenvolvimento e sinalização de novas variantes de acesso a Fátima profundamente enraizadas na tradição e património Marianos na região”.

O projeto engloba uma extensão de cerca de 200 quilómetros e vai estruturar três novos itinerários até Fátima, a partir de Tomar, da Beira Interior e do Alto Alentejo. Os caminhos encontram-se “em diferentes fases de desenvolvimento e consolidação”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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