Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Outubro 23, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Caldo da parida”, por Armando Fernandes

Trata-se de um caldo composto por leite, ovos, amêndoas e açúcar dado antigamente às mulheres após o parto e às recém-casadas depois da primeira noite de esponsais. A receita original perde-se nos tempos medievais sendo precedente da Alemanha, assim rezam as crónicas e os dicionários de referência.

- Publicidade -

Por cá o caldo da parida variava (e ainda varia) conforme a aculturação das comunidades, abundância de meios das parturientes, crenças e usos. Nas investigações que realizei em várias zonas de Portugal (Trás-os-Montes, Centro e Ribatejo) existe uma grande disparidade nos procedimentos, no entanto, mesmo nos lares de pungente carência, nem que fosse só por um dia, a parida comia um caldo de galinha. De galinha velha, porque as galinhas novas tinham a missão de colocarem ovos fora, desmentindo os cobiçosos de contarem com ovais dos galináceos fora de tempo. Daí aquela frase conhecida por todos, daí desobrigar-me de a escrever.

O acto de parir era acontecimento de grande regozijo e rebuliço nas casas reais, nas casas nobilitadas e burguesas. Se o leitor tiver dúvidas leia a obra de Gil Vicente (estanciou no Sardoal, compôs autos de glorificação de nascituros e progenitoras), outros autores imitaram o pai do teatro português tendo sido regiamente pagos por isso.

- Publicidade -

Se os carentes sacrificavam uma galinha, os possidentes não se poupavam a esforços no propósito de celebrarem o acontecido, banquetes, músicas e luminárias obrigavam-nos a abrir os cordões à bolsa, o que faziam algumas vezes para além das suas possibilidades, especialmente quando a mulher dava à luz o desejado varão. Sem surpresas as artes culinárias recebiam grande incremento de um modo geral, nos assados, bolos e doces de colher em particular.

Para lá da receita – caldo da parida –, o vocábulo – parida – está bem presente na doçaria. Por essa razão várias casas de comeres incluem nas suas ementas fatias paridas (fatias das paridas) e outras da mesma estirpe. Note-se a astúcia das mães e sogras, no dia seguinte à noite de núpcias o dito caldo era servido como reconfortante e estímulo. E, mais não escrevo!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome