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Domingo, Julho 25, 2021

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“Cachorros e hambúrgueres”, por Armando Fernandes

As eleições servem de pretexto para breve incursão sobre a dieta alimentar dos americanos, que é múltipla, disforme, sofisticada e grosseira, caseira porque concebida na de cada um, industrial em quantidades gigantescas. Por cá reduz-se a estereótipos, dentro deles ao denominado fast-food (cozinha rápida). Não é assim.

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Antes de mais a multiplicidade de cozinhas é tão variada quantas as comunidades de maior representação, aliada às incorporações e adaptações de todo o género, as principais receitas gregas, italianas, mexicanas, chinesas, japonesas, coreanas, vietnamitas, alemãs e espanholas sofreram alteridades (muitas para melhor) é impante e imponente.

Não referi a cozinha francesa e a portuguesa por diferentes razões, uma boa, outra má. A boa refere-se à cozinha francesa, é influente, até na redacção das cartas de comeres, praticando-se da costa leste à costa oeste, não sendo difícil encontrarmos representações culinárias do receituário francês tal qual em Paris, em Bordéus ou em Lião, a má entronca na cozinha portuguesa.

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A cozinha portuguesa é apresentada nas cidades e vilas nas quais residem as comunidades portuguesas (nortenha/beiroa, açoriana e madeirense), de modo geral de forma pouco cuidada no tocante à apura cerzidura de cada receita. Mesmo as alterações não obedecem a uma lógica de exaltação da sua matriz, antes dentro do típico meia-bole e força.

Há trinta e cinco anos passei quatro semanas numa cidadezinha situada nos arredores de Boston, levava o receio de quando abandonasse a casa onde fiquei só encontrasse cadeias de venda de cachorros, hambúrgueres, pipocas e pouco mais, isto porque as boas composições culinárias custariam exorbitâncias.

De imediato desvaneci o temor, não faltavam restaurantes e casas de comeres a venderam refeições a preços sensatos e tal como cá menos em conta quando solicitava vinho.

Desde então vou aos Estados Unidos, pelo menos, uma vez cada ano, isso tem-me possibilitado conhecer inúmeras referências culinárias, aprender a percebê-las e verificar o talento de muitos cozinheiros, a eficácia do serviço na generalidade dos estabelecimentos vendedores de comida, ainda o cuidado no tocante a higiene e limpeza.

Sopas aguadas e grossas, caldos de conforto e de confraternização, saladas de vária estirpe, só de vegetais, contendo cereais, mariscos, peixes e carnes, pratos de peixe e carne, composições minimalistas e gigantescas, as tradicionais tartes sublinhando as de maçãs, bolos e gelados de estrídulos recheios tenho apreciado, nem sempre bem.

Não me atrevo a manifestar preferências, nem a qualificar sabores suaves de tremendamente puxavantes, atrevo-me isso sim a escrever que também em terras do Ti Sam os gostos existem a rodos, o custo é que varia. Uma vez industriado pela informação contida num livro de reputada investigadora e porque estava na cidade mencionada, procurei o famoso restaurante onde o genial Louis Armstrong ia banquetear-se comendo frangos estufados de modo especial.

A procura demorou algum tempo, não sei se era aquele o restaurante, sei quanto prazer retive ao comer o frango estufado lenta, lenta, lentamente. O meu parceiro de mesa, o meu querido filho mais velho já faleceu, ficou a memória de uma memorável refeição.

Sempre que me lembro do formidável músico redobra a saudade do Marco. Os olhos turvam-se. É a vida!

Se o leitor visitar a América experimente, não se enrole nos lugares comuns da carne picada apresentada em andares separados por alface. E, insisto, experimente.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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