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Domingo, Novembro 28, 2021

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“Bruxas à americana”, por Aurélio Lopes

Aproxima-se mais um “dia de todos os santos”.  Em tempos idos, oportunidade para os tradicionais “magustos” de castanhas e água pé. Provas de vinho novo e fogueiras comunitárias herdadas das festas celtas do “Shamain” cujos resquícios enquadraram, em grande de parte, o culto dos mortos entre nós.

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Que ainda hoje se mantêm nas visitas aos cemitérios no dia 1 de novembro, apesar do “dia de fiéis defuntos” (entenda-se o “dia dos mortos”) ser, afinal, dia 2 de novembro.  É a força da persistência de uma tradição popular pré-cristã, sobrepondo-se a aculturações canónicas destinadas a esvaziar ou atenuar tais práticas.

Na verdade, reduzido o “pão por Deus” a pontuais persistências aldeãs (que a atual crise não deixa, conjunturalmente, de sustentar), as tradições das calendas de Novembro acabam por se resumir às ancestrais práticas do culto dos mortos (hoje cristianizadas) que envolvem as tais visitas aos cemitérios, deposições de flores e luminárias, num tempo de esbater de fronteiras entre “Este” e o “Outro Mundo”.

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Enquanto isto, vamos importando, por razões televisivas e cinéfilas (e hoje cada vez mais por ação das redes socais), os americanados “dias das bruxas”, sínteses reconvertidas e estereotipadas das tradições do norte da Europa, levadas, daí, para o “Novo Mundo”.

Daí as “bruxinhas” e as correspondentes “gostosuras e travessuras”, nem mais nem menos que os referidos “pão por Deus”, revestidos de um pitoresco iconográfico como só os americanos sabem fazer.

Até, porque, não possuindo um corpo de tradições ancestrais, mas apenas extratos de várias matrizes tradicionais (oriundas de diversos países europeus) não sentem as transformações operadas pela sociedade de consumo como um dano produzido ao seu património cultural.

Encontram-se, assim, completamente disponíveis para modificar as mesmas à medida dos omnipresentes imperativos de mercado, em fenómenos de mutação e reconversão de ancestrais patrimónios tangíveis e intangíveis e a pretexto da sua adequação a uma vampírica sociedade de consumo.

Deixa, contudo, um travo de frustração, ver como tão rápida e facilmente abandonámos as nossas raízes, substituindo-as por outras (alheias) que, afinal, correspondem (grosso modo) à mercantilística adulteração das nossas, numa lógica estrita de mercado.

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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