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Terça-feira, Julho 27, 2021

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BREXIT: Do receio ao conformismo, emigrantes da região aguardam o futuro

* Com Patrícia Fonseca, Mário Rui Fonseca, Elsa Ribeiro Gonçalves e José Bandos

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Passada uma semana (24 de junho) sobre o referendo que disse Sim à saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE), ainda há muitas dúvidas sobre as consequências da decisão. Continuam a chegar-nos testemunhos de emigrantes da região, hoje já mais conformados e dispostos a enfrentar o futuro e a sua vivência além fronteiras. Permanece  porém a incerteza…

DANIELA ALVES, natural de Ourém, 25 anos, é técnica de radioterapia no NHS (Serviço Nacional de Saúde) em Londres

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foto Daniela Alves
foto Daniela Alves

“Quando falamos de BREXIT temos que pensar em dois lados de uma balança, onde num dos lados temos os impactos para o Reino Unido e noutro os impactos para a UE.

Nada será como dantes daqui para a frente, a verdade é que tanto pode ocorrer um processo de fragmentação da UE como da própria Grã-Bretanha ou mesmo de ambos.

Fragmentação da UE porque outros Estados-Membros podem sentir-se tentados a seguir o mesmo caminho do Reino Unido. Mas também pode acontecer o inverso, ou seja, que as consequências sejam tão drásticas para a economia britânica que acabem por servir de alerta para os outros Estados-Membros.

Mas a fragmentação também pode ocorrer no Reino Unido, uma vez que, quer a Escócia, quer Gales ou a Irlanda do Norte, podem optar entre o Reino Unido, e a sua aliança com Inglaterra, e as oportunidades da pertença à União Europeia.

O mercado único, sem impostos nem tarifas comerciais, é o grande pilar da economia europeia. No coração dele, está o movimento de bens, pessoas e capitais.

Embora seja possível integrar o mercado único e não a União Europeia, como é o caso da Noruega, isto depende de acordos a serem assinados. E sejamos sinceros, não será fácil para nós uma vez que a UE se encontra ‘’sentida’’ com a decisão tomada.

Segundo o ministro George Osborne, a saída da Inglaterra da UE vai deixar um rombo nas contas públicas de 30 bilhões de libras, que terá de ser reposto com o aumentos de impostos, cortes na saúde, educação e defesa, e anos de políticas de austeridade.

Para mim o “Brexit” é, essencialmente, uma gigantesca incógnita. Atrevo-me a dizer, é um tiro no escuro. Eu vim para Inglaterra em novembro de 2013 com o objetivo de construir um futuro melhor. Se foi fácil? Não, não foi. Vim sozinha com uma mala na mão, mas tinha que o fazer pois infelizmente o país que me viu nascer/crescer não me proporcionou nada.

Quando vim para Inglaterra não encontrei trabalho na minha área profissional, Radioterapia, mas não baixei os braços e optei pela área de hotelaria, onde fui muito, mas muito feliz. Conheci muita gente, gente como eu, emigrantes, que deixaram o seu país em busca de um futuro melhor. Fiz muitos amigos, amigos esses que continuam comigo até hoje.

Nunca desisti do meu sonho de trabalhar em Radioterapia, e após 8 meses encontrei trabalho num departamento com 60 Radiographers onde APENAS 5 dos quais são ingleses. Somos uma grande família.

Inglaterra é um pais de oportunidades, ninguém pode dizer o contrário. Aqui se fores trabalhador e tiveres objectivos de vida, tu vences!

Eu gosto muito de aqui estar, tenho uma vida estável, condições de trabalho maravilhosas, colegas de trabalho a quem posso chamar de segunda família, amigos… pena as condições climatéricas. Mas não podemos ter tudo, já dizia a minha mãe”.

JOÃO FLORÊNCIO, de Abrantes, reparte a sua vida entre Exeter e Londres e trabalha há 10 anos em Inglaterra como Professor de História da Arte e Cultura Visual Moderna e Contemporânea, precisamente na Universidade de Exeter. O relato de Florêncio para o mediotejo.net, na primeira pessoa:

JOAO_LD

“O Brexit foi o culminar de décadas de euro-cepticismo, principalmente na Inglaterra, que só aumentou em escala com a recente imigração de países do sul e leste da Europa, mais afetados pela crise financeira de 2008 e por políticas de austeridade. A campanha pela saída da Europa, dominado pela direita nacionalista e ultra-conservadora, baseou-se na manipulação de factos relativos a dois aspectos principais: economia e imigração. No que diz respeito à economia, defendeu-se que o RU envia £350 milhões por ano para financiar a união europeia e os seus países mais pobres, valor que poderia supostamente ser investido internamente em serviços como educação e saúde. Essa mensagem é claramente errada e manipuladora pois o valor de £350 milhões não inclui rebates nem tem em conta investimentos da UE no país. Relativamente à imigração, persiste há muito a ideia de que imigrantes europeus estão a sobrelotar o país e a levar ao colapso do serviço nacional de saúde, das escolas públicas, e do mercado de habitação, novamente: esta narrativa é falsa, já que a população tem aumentado em média apenas 0.5% ao ano. O que ambos os argumentos pro-Brexit mascaram, são as verdadeiras causas das dificuldades vividas pelas classes trabalhadoras britânicas: anos de políticas neoliberais de destruição do estado social levadas a cabo por vários governos desde os anos 80. Usa-se a união europeia e os imigrantes europeus como bodes expiatórios que irão apenas assegurar a permanência  dessa mesma classe política no poder e que já levaram a um aumento exponencial de xenofobia de norte a sul da Inglaterra e Gales, com as excepções sendo cidades universitárias ou mais cosmopolitas como Londres, Newcastle, Birmingham, Exeter, Manchester, etc. que, ironicamente, têm muito mais imigrantes do que as localidades que votaram pro-Brexit. Note-se que também a Escócia votou contra a saída da UE, o que já está a levar a uma divisão interna das nações do RU e à promessa de um novo referendo à independência da Escócia.

A curto prazo, penso que nenhumas consequências poderão advir para a minha vida, já que as condições de saída ainda demorarão a ser negociadas com Bruxelas. A médio e longo prazo penso que também não terá muita influência. Mesmo que o RU adopte um sistema de imigração baseado em pontos como aquele que existe na Austrália e obrigue os imigrantes que já residem no país a serem avaliados pelo mesmo (o que ainda não é certo), eu estarei numa posição privilegiada porque ao ter um doutoramento e ao ser professor universitário acumularei muitos pontos nesse sistema, pelo que a minha permanência no Reino Unido não será posta em causa. O que não quer dizer que esse sistema seja justo, como os defensores do Brexit defendem. Muito pelo contrário, é um sistema profundamente discriminatório, como se vê no exemplo da Austrália, onde imigrantes são alinhados em rankings de acordo com aquilo que o governo acha que eles valem, com o seu capital enquanto trabalhadores. O que mais me preocupa é a escalada de xenofobia e racismo, o facto de que as classes trabalhadores inglesas brancas foram levadas a tamanho nível de pobreza e ostracizadas de tal forma por governos sucessivos que acabaram por dirigir o seu descontentamento e ódio às populações imigrantes, alimentadas por uma retórica que apenas serve as agendas ultra-conservadoras daqueles que estão no poder. Isto sim, é assustador é algo que se está a passar um pouco por toda a Europa”.

ANA ROSADO, 42 anos, Gestora Documental, de  Abrantes, a viver em Londres há quatro anos

foto Ana Rosado
Ana Rosado

“A sensação esta manhã foi de choque, pessoalmente nunca acreditei que o não ganhasse e mesmo entre os ingleses as opiniões estão extremamente divididas. Até os que não estavam lá muito satisfeitos com a União Europeia têm noção que a saída é um tiro no escuro e pode ter consequências bastante imprevisíveis. Vamos esperar para ver o que acontece com a Irlanda e a Escócia, mas os dados estão lançados, para o melhor ou para o pior. Não me parece que a decisão seja reversível, mas ainda temos dois anos para perceber quais vão ser as mudanças e como ajustar. Pelo sim, pelo não, tenho que tirar o passaporte.”

LUIZ HORTA, 45 anos, natural do Tramagal, é técnico de manutenção no Reino Unido

foto Luiz Horta
Luiz Horta

“O facto do Brexit ter vencido este referendo, por uma explícita margem de mais de 1 milhão de votos, não me surpreende. Este resultado espelha a frustração que uma boa parte da sociedade britânica sente, em relação às imposições da UE. Por exemplo, os agricultores, se por um lado recebem subsídios da UE, por estão impossibilitados de produzirem como entenderem porque são estrangulados pelas quotas impostas, por comissões da UE. Nas pescas, tal como Portugal, toda uma indústria familiar desapareceu das costas britânicas, em favorecimento da abusiva pesca industrial, permitida e incentivada pela UE, que se tem revelado desastrosa em termos de sustentabilidade ecológica e para as economias locais. No que respeita à imigração, pessoalmente não espero alterações à minha posição de imigrante. Certamente que vai ser mais difícil a entrada no país para europeus, isso não significa o fim da imigração, mas sim uma imigração mais selectiva. Aqui, eleitores dos bairros sociais que tradicionalmente não votam nas eleições parlamentares, tiveram uma importância fundamental, uma vez que é deste sector da sociedade britânica que vem o maior sentimento anti-imigração, derivado por ex. a pessoas que venham residir para o RU tenham, em muitos casos, prioridade nos serviços sociais, o que motiva alguma frustração e revolta. De um modo geral, vejo este referendo como o quarto e mais sério aviso à elite da UE de que o povo está farto das imposições não democráticas, impostas por comissariados não eleitos da UE. (…)
A Escócia vai, talvez, pedir um novo referendo à independência, mas na minha opinião se o movimento independentista não ganhou antes, duvido que ganhe num novo referendo. A população mais idosa tem receio pelas pensões e há também algumas reticências em relação à defesa, nomeadamente na patrulha da vasta área marítima escocesa, que implicaria, forçosamente, avultados gastos. Uma coisa é certa, a Escócia terá que pedir adesão a UE, isso leva tempo e os escoceses não querem o €uro. Em relação à Irlanda do Norte, o caso poderá ser mais complicado, com velhas feridas que teimam em não sarar e com três fações a lutar por diferentes saídas, duvido que haja vontade popular para um referendo que pode ter consequências, de certo modo, imprevisíveis. Pode haver algumas incertezas em relação ao futuro, mas certamente que os britânicos terão de volta o poder de decidir sobre o que querem para esse mesmo futuro e eu, como imigrante, estou satisfeito com o este resultado, democrático, que tanto deve irritar as elites não eleitas de Bruxelas.”

RITA CAROÇO, 30 anos, natural do Tramagal, técnica de radiologia a trabalhar em Londres.

foto de Rita Caroço
Rita Caroço

“O país está em choque e principalmente a zona metropolitana de Londres, onde o voto para ficar foi a maioria mas acabaram derrotados pelo resto do país. No meu caso todos os meus colegas ingleses concordavam com o ‘in’ porque percebem a importância do país ficar na UE. Penso que a população do Reino Unido foi bombardeada com uma campanha de medo e de promessas que já se começam a revelar falsas, nomeadamente com o National Health Service. Os ‘leave suporters’ estão também surpreendidos com a demissão do primeiro ministro, por isso penso que mesmo os que apoiaram a saída tem medo do que irá acontecer daqui em diante. Em termos pessoais sinto-me preocupada principalmente por saber que este voto está extremamente conectado à imigração europeia”.

ARTUR MARQUES, natural de Abrantes, 45 anos, ator e cantor de teatro musical, esteve os últimos seis meses em Londres a atuar no musical “9 to 5”. Foi apanhado de surpresa, de férias em Portugal: “Tenho de lá ir em setembro por causa do meu agente. Vou assinar contrato com ele. Agora já não sei como vai ser. Numa área destas, a livre circulação é uma necessidade”.

foto de Artur Marques
Artur Marques

“Confesso que me sinto um pouco incrédulo porque acabei de ser confrontado com a notícia. Não me parece que a grande maioria dos ingleses que votou para sair tenha ponderado bem as consequências do seu voto. Isto pode, inclusivamente, ser o início do fim da União Europeia. É urgente que expliquem a quem trabalha ou estuda no país o que vai acontecer. Na minha área, que é o Teatro Musical, existem dezenas de portugueses a estudar em Londres. E como será daqui para a frente? Cada vez que nos deslocarmos a Londres para uma audição temos de pedir um visto? Ou para ir passar um fim de semana? Turisticamente, Londres vai perder, logo financeiramente também. Nunca me passou pela cabeça que o ‘Out’ fosse vencer porque eram os velhos do Restelo a agitar as suas bandeiras. Não tenho dúvidas que a grande maioria dos ingleses não quer a saída. O problema é que a grande generalidade dos apoiantes do “In” são de gerações mais novas e muitos deles nem se preocuparam em ir votar. Agora terão de sofrer as consequências da sua irresponsabilidade. Ainda tenho esperança que apesar do referendo, a Inglaterra não saia.
É importante que os ingleses não se esqueçam que os estrangeiros trabalham nas áreas em que eles não querem trabalhar. A grande maioria dos restaurantes, para não dizer todos, corre o risco de fechar por falta de mão-de-obra, por exemplo”.

MARIA ISABEL MENDES, Tomar, 40 anos, administrativa a viver há 12 anos em Londres: “As pessoas, em geral, estão em choque”

foto Maria Isabel Mendes
Maria Isabel Mendes

Maria Isabel Mendes, nascida em Abrantes mas residente em Tomar, está há 12 anos a trabalhar na capital inglesa. Com formação em Inglês/Alemão está a trabalhar num escritório no centro de Londres e já estava à espera deste resultado. “Ontem, depois das urnas encerrarem, ainda diziam que íamos ficar e, nesta manhã, em Londres o jornal “Metro News” também confirmava isso. Afinal, saímos da União Europeia por uma unha negra”, refere, acrescentando que está a acompanhar a evolução do assunto através do noticiário da hora de almoço e que dá conta de 51,9% para sair e 48,1% para ficar. “As pessoas, em geral, estão em choque.” Isabel Mendes refere ainda que na semana passada “todos estavam à espera da saída” mas depois, com a morte da deputada Jo Cox, as coisas mudaram. “E agora mudaram outra vez”, atesta, acrescentando que até a Escócia quer ficar na Europa a todo o custo”. Maria Isabel Mendes refere que o principal problema é que a classe inglesa está a ter problemas em arranjar emprego devido à quantidade de emigrantes de leste “que não se importam de trabalhar por menos dinheiro”, acrescentando que também as comunidades húngaras, polacas e romenas são enormes.

ANA CLÁUDIO, natural de Mouriscas, 34 anos, é uma professora a viver em Birmingham desde janeiro de 2016.

“De certa forma, cá em casa já se esperava que o “Sair” ganhasse, pois era frequente passarmos pelas casas aqui nas redondezas e vermos cartazes a apelar ao “Sair” nos jardins e nas janelas. Também se viam cartazes a apelar ao “Ficar”, mas em menor quantidade. Claro que havia sempre a esperança que a manutenção ganhasse,  pois esta situação implica um futuro algo incerto. Para já, vai continuar tudo na mesma e “vamos esperar para ver”.

Eu estou cá desde janeiro. O meu marido já cá estava há um ano e meio e decidimos que, com o nascimento da nossa filhota, em novembro, e por o meu filho mais velho (com 3 anos e meio) estar a sentir falta do pai, estava na altura de a família voltar a estar junta. Assim, como estava fora de questão ficarmos todos em Portugal, porque o meu marido esteve à procura de emprego durante quase 3 anos, sem conseguir nada, e teve de emigrar para Inglaterra, viemos todos para cá no início do ano. Aqui, ele tem aquilo que se pode considerar um bom emprego, ganha o suficiente para eu poder estar em casa com a bebé e termos o nosso filho mais velho na escola.

Por agora, e como referi, anteriormente, o nosso dia a dia não vai sofrer qualquer alteração e achamos que o máximo que pode vir a acontecer será começarmos a ser um pouco “olhados de lado” por sermos estrangeiros, mas podemos viver bem com isso, porque o que importa é estarmos todos juntos.”

Se é da região e trabalha no Reino Unido, como está a viver o Brexit? Partilhe connosco o seu testemunho para info@mediotejo.net

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Há quantos anos trabalha no RU:

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Como vê o Brexit?

Que consequências pensa que trará para a sua vida?

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 COMENTÁRIO

  1. Interessante ver como certa esquerda alinha com a Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, os principais financiadores do “remain”.

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