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“Breve contributo para a pré-história do triatlo em Portugal: um testemunho pessoal”, por José Trincão Marques

1 – NOTA PRÉVIA: O Triatlo é uma modalidade desportiva que combina de forma sequencial e sem interrupção provas de natação, ciclismo e corrida. O Triatlo moderno surgiu na década de 1970, nos Estados Unidos da América, na cidade de San Diego, Califórnia. Contudo, a primeira grande competição de Triatlo foi a Ironman Triathlon, organizada em 1978, no Havai, proposta pelo comandante da Marinha dos Estados Unidos da América John Collins com o objetivo de esclarecer qual seria o atleta mais resistente, entre nadadores, ciclistas e corredores.

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Para esse efeito, foram agrupadas três provas distintas já existentes anteriormente no Havai, que deveriam ser completadas sucessiva e ininterruptamente: a “The Waikiki-Roughwater-Swim”, constituída por 3,86 km de natação; a “The Around-Ohau Bike Race”, composta por 185 km de ciclismo; e a “Maratona de Honolulu”, com 42,195 km de corrida.

Quem vencesse esta prova de Triatlo seria chamado de “Homem de Ferro”.

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Esta primeira prova de Triatlo Ironman ocorreu no dia 18 de Fevereiro de 1978, teve 15 participantes, concluindo a prova 12 atletas, sendo vencedor o norte-americano Gordon Haler com o tempo de 11h:46m:58ss.

A mítica prova Ironman Triathlon do Havai tem sido realizada consecutivamente  todos os anos após 1978, sendo apenas cancelada no ano de 2020 devido à Pandemia Covid 19.

2 – ANTECEDENTES DESPORTIVOS PESSOAIS:

Comecei a praticar natação de competição como nadador federado, em 1981, no Clube de Natação de Torres Novas (CNTN), com passagem anterior pela chamada pré-competição. Na altura era treinador dos nadadores federados de competição o Professor João Tolda Martins (recentemente homenageado pelo Município de Torres Novas na Gala do Desporto de 2020). A nossa época desportiva era dividida em duas partes: a época de Inverno, onde participávamos em vários meetings e campeonatos de natação de piscina coberta em várias regiões do país (essencialmente Lisboa – nas piscinas da Luz, Sport Algés e Dafundo, Portela e Areeiro -, Vila Franca de Xira, Coimbra, Aveiro, Évora, Porto, etc); e a época de Verão, em que competíamos em várias travessias de mar (hoje chamadas provas de águas abertas), nomeadamente em Tróia, Aveiro, Nazaré e Castelo do Bode.

A natação era, por essa razão, a modalidade desportiva onde me sentia mais à vontade.

Diploma do Clube de Natação de Torres Novas datado de 1981, com a certificação de transição para a Fase de Competição (Foto de José Trincão Marques)

No ano letivo de 1983/84 frequentei o 11º ano na Escola Secundária de Torres Novas onde tive como colega de turma o amigo Paulo Jesus (Paulo Jorge Pereira de Jesus), naquela época residente em Riachos, na Rua dos Cingeleiros, que praticava corrida e era na altura um dos melhores corredores de Torres Novas (atrevo-me até a afirmar que foi um dos melhores corredores torrejanos de sempre que conheci).

Em Outubro de 1983 o Paulo Jesus convidou-me para fazermos um treino de corrida conjunto. Na altura não havia telemóveis e combinámos uma hora certa da manhã para nos encontrarmos no dia seguinte na Variante do Bom Amor, junto do entroncamento com a denominada Estrada da Sapeira, naquela altura ainda de terra batida, que liga à Meia Via. Ele veio a correr de Riachos e eu parti de Torres Novas. Foi o meu primeiro treino de corrida com algum método e com alguém que tinha conhecimentos sobre o assunto, pela Estrada da Sapeira, passando pela Fonte Santa e antes de chegar à Meia Via cortando à esquerda pela Quinta da Rainha e seguindo até Casais Sebes, onde se descia depois pela estrada romana em direção à Quinta da Marmela e posteriormente até à Fonte do Bom Amor.

Até essa data apenas fazia alguns treinos de corrida na chamada pré-época da natação, no início de Outubro de cada ano (momento em que as piscinas eram encerradas, adaptadas da época de Verão para a época de Inverno e se fazia a sua manutenção), em que os nadadores federados de competição do CNTN treinavam em seco exercícios de flexibilidade, de força e corrida. Estas corridas consistiam basicamente na partida das piscinas em direção às Lapas e na chegada novamente às piscinas em Torres Novas, onde se fazia um pouco de treino de “endurance”.

Iniciei-me, pois, na prática da corrida com método de treino e com alguma organização, no Outono de 1983, através do convite do Paulo Jesus. Nesse ano de 1983 fomos alargando os convites e o grupo de corredores, a que se juntaram outros, chegando a um número que justificou pedirmos uma reunião com o então Presidente do Clube Desportivo de Torres Novas (CDTN), Joaquim Matias Pedro, onde estive presente, que ocorreu em 1984 na sede da Quinta da Lezíria, com o objetivo de formarmos uma Secção de Atletismo, o que foi aceite de imediato.

Desde esse ano comecei a participar em várias provas de corrida, sendo a primeira a “Ponte a Pé”, em Lisboa, onde se atravessava a Ponte 25 de Abril a correr, com partida em Almada e chegada a Lisboa. Seguiram-se depois algumas provas ainda hoje míticas, como a “Corrida das Fogueiras” em Peniche, “As Três Léguas do Nabão” em Tomar, a “Corrida dos Sinos” em Mafra, a “São Silvestre” e “Corrida do Almonda” em Torres Novas, a “Dupla Légua da Ecologia” em Riachos (estas duas últimas por nós organizadas em 1984), a prova de montanha “Manteigas – Penhas Douradas” na Serra da Estrela e tantas mais, bem como algumas meias-maratonas, nomeadamente Nazaré, Marinha Grande, ou Viseu.

Conciliei durante o ano de 1984 a prática da natação de competição no CNTN e a prática da corrida no CDTN, chegando ao Verão desse ano já com alguma preparação e experiência na corrida.

Fotografia de grupo de atletas participantes na corrida de montanha Manteigas-Penhas Douradas, na Serra da Estrela, em Março de 1985, no dia da prova. Da esquerda para a direita, em pé: Aníbal Godinho, Paulo Jesus e José Trincão Marques; em baixo: Luís Freire e Roque Antunes (Fotografia de José Trincão Marques)

Curiosamente o ano de 1984 foi um ano de ouro para o desporto português, nomeadamente nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, onde Carlos Lopes conquistou a medalha de Ouro na prova da Maratona masculina, Rosa Mota a medalha de Bronze na Maratona feminina, António Leitão a medalha de Bronze nos 5.000 metros em atletismo e Alexandre Yokochi alcançou o excelente 7º lugar na série final da prova de natação de 200 metros bruços (feito inédito na natação portuguesa). Também nesse ano de 1984 Fernando Mamede bateu o recorde do mundo dos 10.000 metros, em Helsínquia, com um “tempo canhão”. Foi um ano em que Portugal se evidenciou desportivamente a nível mundial (ainda com a conquista do terceiro lugar da Seleção Portuguesa de Futebol no Campeonato Europeu de 1984 em França), o que não era muito comum naqueles tempos.

Para os jovens portugueses que praticavam desporto, o ano de 1984 foi um ano cheio de alegrias e de ídolos que nos inspiravam e estimulavam todos os dias nos nossos modestos treinos e provas.

3 – PENICHE – 1984: O PRIMEIRO TRIATLO REALIZADO EM PORTUGAL

Desde 1973 fazia as férias de Verão (as chamadas férias grandes) com a minha família acampando no Parque de Campismo de Peniche, ficando por lá um a dois meses todos os anos, hábito que mantive durante a juventude rumando a Peniche de mochila às costas. Por lá fiz amigos que todos os anos revia durante aqueles longos meses de Verão.

Peniche naquele tempo e até meados da década de oitenta era um lugar especial. Por um lado era um sítio que parecia remoto, com uma viagem de automóvel de quase duas horas e cheia de curvas e contra-curvas. Por outro lado, tinha um clima especial e muito próprio, que afastava o turismo de massas e os veraneantes habituais, com os frequentes nevoeiros matinais. A distância das várias praias à então vila também não era sedutor para os turistas de esplanada. Ao mesmo tempo Peniche era um paraíso ambiental, com extensos cordões dunares (infelizmente hoje já reduzidos e degradados) e águas puras e cristalinas. A praia de “Super-Tubos” era também uma das “Mecas” do surf no continente europeu, atraindo surfistas alemães, ingleses, franceses, holandeses e até australianos, que também se estabeleciam pelo Parque de Campismo e nos possibilitavam as primeiras emocionantes experiências de surfar uma onda com as suas pranchas emprestadas e algumas vendidas por eles antes de partirem para os seus países de origem. Isto num tempo em que o surf era uma prática desportiva quase desconhecida em Portugal, com uma grande carga mística e uma filosofia de vida.

Surf na praia de Super-Tubos, em Peniche (Fotografia de José Trincão Marques)

Por algumas destas razões, estabeleci uma relação emocional forte com Peniche, não querendo passar férias de Verão noutro local até meados da década de oitenta.

Como era habitual no início de Julho de 1984 estava em Peniche a passar férias, quando numa ida ao Bar do Parque de Campismo vi um cartaz em papel branco com letras vermelhas e pretas, redigido em português e em inglês, colado no vidro de uma janela, anunciando para o dia 15 de Agosto de 1984 uma “PROVA INÉDITA PARA GRANDES ATLETAS”, com o nome de TRIATLO, composta por três modalidades: natação, ciclismo e atletismo.

As distâncias anunciadas eram de 600 metros de natação no mar, 17Km de ciclismo e 8 Km de corrida.

Fiquei de tal maneira entusiasmado e motivado, que decidi no momento e de imediato que iria participar naquela prova de Triatlo pioneira em Portugal.

Cartaz do Triatlo de Peniche de 1984 (Fotografia de José Trincão Marques)

Já tinha conhecimento da existência desta modalidade desportiva através de uma reportagem que tinha visto uns tempos antes na televisão sobre o Ironman Triathlon do Havai, tendo ficado fascinado.

Mesmo em férias era normal continuar a treinar corrida e a nadar no mar, tendo continuado a fazê-lo naquele momento com o objetivo de participar no Triatlo de 15 de Agosto de 1984.

O único problema é que não tinha a minha bicicleta em Peniche, que tinha ficado em Torres Novas.

Nunca tendo treinado ciclismo de forma metódica e organizada, como fazia com a natação e o atletismo, estava muito habituado a andar de bicicleta em Torres Novas, sendo naquela altura o meu principal meio de deslocação na então vila (apesar do terreno acidentado), bem como em idas frequentes que fazia de Torres Novas a Riachos, para Castelo do Bode, para o açude do Choupal na Ribeira Branca, ou para a recentemente inaugurada Barragem do Bonito no Entroncamento.

Em todo o caso o ciclismo era o meu ponto mais fraco, até porque a minha bicicleta vermelha de marca “Órbita”, apesar de ter um volante de ciclista, de ter dupla roda pedaleira e carreto com várias mudanças, era de ferro e bastante pesada.

A decisão de participar no primeiro Triatlo realizado em Portugal, no entanto, estava tomada.

Fiquei em Peniche até finais de Julho e depois regressei a Torres Novas com o objetivo de fazer treino continuado de natação, ciclismo e corrida e de desafiar alguns amigos do desporto a acompanharem-me no dia 15 de Agosto a Peniche e fazermos a mítica prova de Triatlo.

Antes de partir de Peniche dirigi-me à Câmara Municipal para me inscrever na prova de Triatlo. Subi as escadas do edifício principal, perto da Capitania, e perguntei num balcão da Secretaria do Município onde podia inscrever-me na prova de Triatlo. O funcionário que me atendeu fez uma cara estranha, respondeu que não sabia, mas ia perguntar a um colega. Ausentou-se e quando chegou junto de mim disse-me: “As inscrições para o Teatro são feitas noutro edifício nos Serviços Culturais”. Eu percebi que nem o funcionário da Câmara Municipal de Peniche tinha ouvido falar antes em Triatlo e lá lhe expliquei ao que vinha. Depois da minha explicação mais detalhada entendeu o que era e encaminhou-me para o Departamento de Desporto que se localizava no rés-do-chão de uma casa do outro lado da rua.

Aí fui atendido, inscrevi-me como atleta individual na prova de Triatlo, assinei uns papéis e recebi o Regulamento da Prova.

Regulamento da Prova do Triatlo de Peniche de 1984 (Fotografia de José Trincão Marques)

Depois de chegar a Torres Novas convidei vários amigos para me acompanharem na prova de Triatlo em Peniche que iria realizar-se a 15 de Agosto. Uns corriam muito e nadavam pouco, ou nada. Outros nadavam bem e não tinham prática de corrida. Outros ainda, a maioria da nossa equipa do Clube de Natação de Torres Novas, optaram antes por fazer a prova de natação de mar da Travessia da Nazaré que naquele ano se realizava também no dia 15 de Agosto.

Como eu já tinha feito anteriormente a prova da Travessia da Nazaré, optei pela nova experiência e desafio de participar no primeiro Triatlo realizado em Portugal, mesmo indo sozinho.

E assim foi, em Torres Novas nos dias seguintes treinei o melhor que sabia e podia o ciclismo e as transições entre as três modalidades, mantive os treinos de natação e corrida e preparei-me para a prova.

Em Agosto de 1984 tinha 17 anos de idade, pelo que ainda não tinha carta de condução.

A única hipótese que possuía naquele momento para me deslocar de Torres Novas para Peniche era através de autocarro da então Rodoviária Nacional. Não era a primeira vez que fazia aquela longa e complicada viagem com a mochila às costas. O autocarro saía de Torres Novas pelas 6,05 horas da manhã em direção a Rio Maior, parando em todas as localidades pelo caminho para entrada e saída de passageiros. Chegando a Rio Maior, já perto da 8,00 horas da manhã, tinha de se fazer uma espera de quase uma hora para se apanhar outro autocarro para as Caldas da Rainha, onde se chegava por volta das 11,00 horas da manhã. Nova espera e mudança de autocarro nas Caldas da Rainha com destino a Peniche, onde se chegava já ao início da tarde. Quase uma prova de Triatlo.

Uma das minhas preocupações durante a viagem foi o acondicionamento da bicicleta no porta-bagagens do autocarro, misturada com todo o tipo de malas, sacos, mochilas e até cestos com legumes e outros variados conteúdos. Como o caminho era sinuoso sentia-se a carga no porta-bagagens a deslizar de um lado para o outro nas curvas. A minha bicicleta chegou ao fim da viagem intacta, apenas com algumas esfoladelas profundas no selim de um dos lados.

Parti de Torres Novas com destino a Peniche no dia 13 de Agosto (segunda-feira), pelas 6,05 horas da manhã, com uma mochila às costas onde levava a tenda canadiana, o saco de cama, alguma roupa e haveres pessoais, comida e o equipamento para a prova, quase com uma direta em cima.

Na véspera dia 12 de Agosto (domingo), tinha visto na televisão a conquista da medalha de ouro por Carlos Lopes, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em Portugal já dia 13 de Agosto de madrugada, o que nos serviu de inspiração e nos encheu de orgulho a todos.

Quando cheguei ao Parque de Campismo de Peniche nessa tarde de 13 de Agosto de 1984 montei a tenda canadiana, tentei descansar da viagem o resto do dia e ainda encontrei por lá alguns amigos habituais das férias.

4 – O DIA DA PRIMEIRA PROVA DE TRIATLO EM PORTUGAL: UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL

A primeira prova de Triatlo realizada em Portugal ocorreu em Peniche no dia 15 de Agosto de 1984, com a organização da Câmara Municipal de Peniche e sob o impulso de Nuno Bello, professor de Educação Física, dinamizador do desporto no concelho de Peniche, como os Jogos Juvenis e a clássica Corrida das Fogueiras, por influência de Paulo Cavaleiro, que tinha visto uma prova de Triatlo em Nova Iorque e de Mário Machado, organizador de corridas de atletismo e Diretor da revista Spiridon (dedicada à corrida).

A partida desta prova foi marcada para as 16 horas, com ponto de encontro na Marina de Peniche (naquela altura também chamado Cais da Ribeira).

Nesse dia estava um nevoeiro muito denso no mar que se prolongou pela tarde e que depois tive conhecimento afetou toda a costa oeste de Portugal. A temperatura do ar e da água eram frescas.

Saí do Parque de Campismo de bicicleta, pouco depois das 14 horas, dirigi-me ao secretariado do prova, confirmei a minha inscrição e com um marcador preto escreveram nos meus antebraços esquerdo e direito o número 16 de atleta participante que me foi atribuído, sendo-me também entregue um colar feito de cordel com um pequeno círculo em plástico branco onde constava o mesmo número para colocar ao pescoço.

Colar de identificação com o número de participante no Triatlo de Peniche de 1984, para colocar no pescoço de cada atleta (Fotografia de José Trincão Marques)

Fui informado qual o local marcado onde devia deixar a minha bicicleta e o equipamento para os percursos a seco.

Por volta das 15 horas já a totalidade dos atletas participantes estavam presentes na Marina de Peniche.

Éramos 30 participantes, eu não conhecia nenhum deles e lá fomos metendo conversa uns com os outros. O ambiente entre nós era descontraído, de confraternização e de sã camaradagem.

Verifiquei que, com 17 anos de idade (júnior na natação), era o mais novo (ou um dos mais novos) de todos os atletas presentes, tendo em conta que a maioria aparentava já andar perto dos vinte e trinta anos de idade.

Outra curiosidade que tive foi saber quais eram as modalidades praticadas pelos meus companheiros daquela aventura. Pela constituição física e pelo equipamento facilmente cheguei à conclusão que existia entre nós outro nadador federado, com quem falei e me disse chamar-se Paulo Carvalho e ser nadador do Sporting Clube de Portugal (na época uma das melhores equipas de natação a nível nacional). Trocámos umas impressões sobre a prova e ficámos próximos um do outro até ao tiro partida.

Os outros participantes na prova eram essencialmente corredores de fundo, entre eles o conceituado corredor de fundo Carlos Adão (que alcançava tempos perto de 1h:07m na meia-maratona), os marchadores Paulo Alves (treinador do olímpico José Pinto) e Joaquim Matameu, o triplo-saltador do Sport Lisboa e Benfica Orlando Fernandes, bem como os principais impulsionadores daquela prova, Nuno Bello, Paulo Cavaleiro, Paulo Machado e Mário Machado.

Tempos depois vim a saber que o penichense António José Correia, que uns vinte anos mais tarde veio a ser Presidente da Câmara de Peniche, também foi um dos atletas presentes.

Antes da partida tirámos uma fotografia do grupo de pioneiros do Triatlo em Portugal que ficou para memória futura.

Fotografia de grupo dos participantes do Triatlo de Peniche de 1984 (Fotografia da Organização deste Triatlo).

Contando da direita para esquerda, José Trincão Marques é o oitavo em pé (com o colar de identificação colocado no pescoço), Ricardo Aguiar é o quinto em pé, António José Correia é o sexto em pé e Paulo Carvalho (vencedor desta pioneira prova) é o nono em pé.

Em baixo encontram-se, entre outros, Carlos Adão, Paulo Cavaleiro, Nuno Belo, Mário Machado e Orlando Fernandes.

Depois fomos transportados de barco para a margem oposta da Marina de Peniche, a norte, onde na altura existia uma zona arenosa do lado interior do molhe leste e se situava o estaleiro naval. Este seria o local da partida e a chegada era na Marina de Peniche.

Nenhum dos atletas participante usou fato isotérmico e eu optei por nem usar óculos de natação.

Da experiência que tinha da minha participação nas provas de natação em travessias de águas abertas, em mar ou rio, não tendo uma linha de orientação debaixo de água (como acontecia em piscina) era muito importante de vez em quando colocar a cabeça fora de água e verificar se a direção que levava era a mais correta. Para esse efeito os óculos de natação dificultam a visão fora de água.

Com correntes de água fortes é ainda mais necessário ir retificando o rumo para o destino de chegada.

Antes da prova tive o cuidado de verificar que às 16 horas daquele dia a maré se encontrava a subir, o que provocava a entrada de água do mar dentro do porto de Peniche, vinda da abertura existente entre os dois molhes, originando uma corrente forte da nossa esquerda para a nossa direita, o que se podia ultrapassar nadando em direção mais desviada para a esquerda do que o nosso ponto de chegada.

Quando foi dada a partida para a prova de natação entrei decididamente na água fria, sabendo que era naquele percurso de 600 metros de natação que podia obter alguma vantagem em relação aos outros companheiros atletas participantes.

Imprimi desde o início do percurso de natação um ritmo forte e segui a estratégia previamente definida, tentando não ser muito afastado pela corrente forte que vinha do nosso lado esquerdo.

 

José Trincão Marques no final do percurso de natação do Triatlo de Peniche de 1984 (Fotografia de José Trincão Marques).

Acabei o percurso de natação logo atrás do nadador do Sporting Clube de Portugal, Paulo Carvalho, que nadava mais que eu mas provavelmente não contou com a forte corrente, alcançando nós dois um avanço considerável em relação aos restantes atletas.

Quando saí da água, por umas pequenas escadas de cimento na Marina de Peniche, uns metros atrás do Paulo Carvalho, senti algumas ligeiras e passageiras tonturas devido à água fria e à passagem da posição corporal horizontal para a vertical, o que já era habitual e esperado no final das travessias de mar.

Dirigi-me para a minha bicicleta, vesti os calções de corrida por cima dos calções de banho, calcei as sapatilhas e vesti a camisola o mais rápido que podia.

O Paulo Carvalho arrancou na sua bicicleta poucos segundos antes de mim, mantendo a liderança da prova até ao final e venceu aquele primeiro Triatlo realizado em Portugal. Parti na minha bicicleta logo atrás dele, mas nunca mais o vi até ao final da prova. Em declarações à imprensa mais tarde Paulo Carvalho afirmou que a sua bicicleta era uma pasteleira, mas comparada com a minha era uma máquina mais sofisticada.

Não usei capacete nesta prova de ciclismo, por não ser obrigatório naquele tempo e a maioria dos outros atletas também não.

A prova de ciclismo, com a distância de 17 km, partiu da Marina de Peniche, ou Cais da Ribeira, seguiu em direção à Atouguia da Baleia, passou por Ferrel, depois pelo Baleal e terminou junto às denominadas “Portas de Peniche”, entrada na então vila através de uma abertura na sua muralha.

Consegui manter o segundo lugar na classificação geral até ao final da prova de ciclismo, tal foi a vantagem obtida no percurso de natação, dando o meu melhor e um ritmo esforçado na modalidade em que menos experiência tinha.

Neste local foi feita a transição entre o percurso de ciclismo e o percurso de atletismo.

Esta transição foi a mais complicada para mim. Depois de 17 Km a pedalar intensamente e depois começar imediatamente a correr criou-me a sensação, nos

primeiros metros de corrida, de alguma descoordenção motora, devido à grande diferença e contraste de tipo de movimentos praticados.

Faltavam ainda percorrer os 8 km de corrida que passaram pela marginal norte, perto da Papôa e sempre a subir até ao Cabo Carvoeiro, com o mar logo ali do nosso lado direito abaixo das falésias escarpadas, com percurso idêntico ao da Corrida das Fogueiras que já conhecia.

Ao alcançar o Cabo Carvoeiro o percurso infletia novamente para a esquerda, pela estrada marginal sul até Peniche, novamente sempre com o mar do nosso lado direito, com a meta no Cais da Ribeira, na Marina de Peniche.

Como previa, este último percurso era o mais complicado porque atrás de mim vinham corredores de alto nível e tinham 8 km para me alcançar e ultrapassar.

O que veio a suceder por quatro companheiros de prova.

O conceituado corredor Carlos Adão ultrapassou-me antes de chegar ao farol do Cabo Carvoeiro.

Ainda consegui aguentar o terceiro lugar até entrar na localidade de Peniche, a cerca de 2 ou 3 km da meta, onde comecei a sentir algum cansaço e desgaste e acabei por ser ultrapassado pelo António Lamelas, depois pelo Paulo Cavaleiro Correia (um dos inspiradores desta prova) e já quase em cima da meta pelo Manuel Correia (tudo corredores de alto gabarito e mais velhos que eu).

Acabei esta pioneira prova de Triatlo em Portugal, em 6º lugar, com o tempo de 1h:27m:30s.

Dos 30 participantes iniciais desistiram apenas dois, tendo terminado a prova 28 atletas.

Lista manuscrita com a classificação final da Prova do Triatlo de Peniche de 1984 (Fotografia da Organização desta Prova)

Mais uma vez à chegada o ambiente foi de sã camaradagem, confraternização e de entreajuda entre todos, em que o mais importante é a prática do desporto, a convivência entre os participantes e o prazer de fazer exercício físico, sendo oferecida no final da prova pela organização uma saborosa sardinhada aos participantes, distribuídas as medalhas e algumas recordações.

Medalha entregue aos atletas participantes no Triatlo de Peniche de 1984 (Fotografia de José Trincão Marques)

Entretanto vim a saber que, por razões de segurança, a prova de natação de mar da Travessia da Nazaré, que estava também agendada para o dia 15 de Agosto de 1984, tinha sido adiada para o dia 18 de Agosto seguinte (Domingo), devido ao denso nevoeiro que afetou toda a costa oeste continental naquele dia, tendo em conta que esta prova de natação com a distancia de 1.500 metros tinha a particularidade de começar além do farol da Nazaré, para onde os nadadores eram transportados de traineira, com chegada à praia da Nazaré.

Este adiamento permitiu-me regressar a Torres Novas logo no dia seguinte, 16 de Agosto de 1984, de autocarro da Rodoviária Nacional, fazendo o percurso inverso que tinha feito antes, com as mesmas três etapas (Peniche-Caldas da Rainha- Rio Maior-Torres Novas), com tempo ainda de recuperar algumas forças e participar conjuntamente com os meus companheiros e amigos do CNTN na prova Travessia da Nazaré, conseguido nesse ano, por sorte, conciliar a participação nas duas provas.

Notícia sobre o Triatlo de Peniche de 1984 publicada na Revista Atletismo, nº34, de Setembro de 1984 (Fotografia de José Trincão Marques) 

5 – DESPORTO E AMBIENTALISMO. Sempre percebi desde cedo existir uma ligação profunda entre a prática desportiva e o ambientalismo, o respeito pela Natureza e a defesa do ambiente.

Quem pratica desporto ao ar livre (nomeadamente natação, ciclismo ou corrida) interioriza até de forma involuntária que faz parte da Natureza, sente o ciclo das estações do ano com os seus diferentes e característicos cheiros, cores, sons, temperaturas, tons de luz, animais e plantas.

Ao sentirmos a Natureza desta forma tão intensa e direta aprendemos a conhecê-la, a respeitá-la e a amá-la.

Em geral, quem pratica desporto ao ar livre tem consciência ambiental e é um defensor das causas ambientalistas.

Curiosamente, outro dos participantes neste primeiro Triatlo realizado em Portugal, no ano de 1984, foi António José Correia, cerca de vinte anos depois Presidente da Câmara Municipal de Peniche e hoje Consultor da Fundação Oceano Azul, tendo ao longo do seu percurso de vida demonstrado preocupações com a defesa do ambiente e em particular com a defesa dos oceanos.

Há três ou quatro anos, no final de uma das aulas da parte curricular do Curso de Doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável que frequentei na Universidade de Lisboa, ao falar com o Professor Ricardo Aguiar sobre determinada matéria da sua disciplina, no decurso da nossa conversa o mesmo referiu ter sofrido recentemente uma ligeira lesão muscular ao fazer desporto e disse-me que praticava Triatlo.

– Triatlo? Perguntei eu com curiosidade e alguma admiração (até devido à sua veterania). E contei-lhe que também já tinha sido praticante de Triatlo e que participei no primeiro Triatlo de Peniche de 1984. Ficámos os dois ao mesmo tempo agradavelmente surpreendidos e com cumplicidade recíproca quando tivemos conhecimento que ambos participámos naquela inesquecível e emocionante primeira prova de Triatlo em 1984, nunca imaginando as circunstâncias daquele nosso reencontro mais de trinta anos depois.

O que para nós representou uma enorme alegria e a confirmação de que a prática desportiva promove e fomenta o ambientalismo, a defesa da Natureza e o combate contra as alterações climáticas.

Deixo por isso aqui um apelo a todos os jovens: que pratiquem desporto e que se empenhem na defesa do ambiente, no combate às alterações climáticas e na conservação da Natureza de que também somos parte integrante. Fazendo jus à velha citação latina do poeta romano Juvenal: “Mens sana in corpore sano”.

Alto do Fogo, 1 7de Fevereiro de 2021

Presidente da Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Assembleia Municipal de Torres Novas. Mestre em Gestão e Conservação da Natureza e Doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa. Foi assessor jurídico do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e da Reserva Natural do Paul do Boquilobo durante cerca de quinze anos. Advogado há mais de 25 anos, participa ativamente em vários
órgãos e institutos da Ordem dos Advogados Portugueses.

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