“Brasil”, por Helena Pinto

Assistimos, mesmo com um oceano a separar-nos, a um golpe em direto. Sim, foi na América do Sul, mas não foi um golpe tradicional, com tropas na rua, como ocorreram tantos. Foi um golpe em pleno Congresso do Brasil.

PUB

O processo para a destituição da Presidente Dilma, tem contornos surreais e muito, muito preocupantes. A Constituição do Brasil só admite processos de “impeachment”, desde que exista um crime de responsabilidade. Dilma não está acusada de nenhum crime de responsabilidade, nem sequer é investigada por corrupção. Ao contrário da maioria dos deputados do Congresso, incluindo o próprio Presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

A polémica tem sido muita e acesa. Mas no passado domingo, ou melhor, madrugada de segunda-feira, pudemos assistir em direto à votação e às justificações de voto dos vários deputados/as. Houve de tudo, invocou-se o nome de Deus vezes sem conta, a família, os filhos, os netos, a mamãe, o povo de todos os lugares. Houve quem fosse mais longe e invocasse os torturadores. Votar em nome de quem torturou durante o fascismo no Brasil e em particular quem torturou a mulher que hoje ocupa o lugar da Presidência, tem muito que se lhe diga. Parece impossível, mas aconteceu.

PUB

Se havia dúvidas que este processo era um golpe, elas dissiparam-se todas nas horas da votação.

Sabemos que a situação política no Brasil é complicada. A corrupção tem minado o poder político e a democracia. O mega-processo agora em curso – “Lava Jato”, não é o primeiro a abalar a política, do governo ao parlamento. Lembremos, a título de exemplo, aquele que ficou conhecido como “mensalão”, aquele esquema que comprava votos dos deputados. A corrupção tem cumprido bem o seu papel: por um lado esbulha o Estado dos recursos necessários para investir em desenvolvimento e qualidade de vida para a sua população e por outro introduz a desconfiança das pessoas nos detentores de cargos políticos.

PUB

No caso do Brasil a corrupção já foi mais longe, consolida essa desconfiança todos os dias. As populações são afastadas da cidadania, da participação, retrocede-se nos passos que se deram para a coesão social e destrói-se a esperança de que as coisas podem mudar. Corromper a democracia leva à ditadura. E existe uma direita no Brasil, comprometida com os interesses económicos que nunca perdoou a mudança e quer voltar ao poder. Tudo fará para isso. E conseguiu colocar em marcha um golpe palaciano cujo desfecho ainda estamos para ver.

Não apoio a política do PT nos últimos anos. Mas não é isso que está em causa neste momento. O que está em causa é que a democracia foi golpeada e um Congresso, cheio de deputados que vendem o seu voto, que são investigados e estão implicados no maior processo de corrupção, decidiram que valem mais que a Constituição do País. A avaliação da política do PT far-se-á pelo voto dos brasileiros. É assim em democracia.

O Brasil diz-nos muito, os nossos povos estão ligados e quando fizemos o 25 de Abril eles pediram “um cheirinho de alecrim” urgentemente… e nós enviámos. Hoje, sabendo o quanto sofre o povo brasileiro não podemos ficar indiferentes. Eu não fico.

E não pensemos que não tem a ver connosco. Tem, porque têm a ver com a política, como ela é exercida, com a responsabilidade, com as incompatibilidades dos eleitos/as, com a eleição por círculos uninominais, com a ausência da prestação de contas, com a promiscuidade entre a política e os negócios.

Faço votos para que o povo brasileiro ultrapasse esta situação de grande crise. Sei que buscarão forças na participação popular, na criatividade, na vida sofrida dos milhões que nada têm – os sem terra, os sem tecto, os sem trabalho. Buscarão forças na alegria de viver que transportam para a luta.

Da nossa parte, neste cantinho a milhares de quilómetros de distância – tanto mar a separar-nos, tiremos as lições óbvias.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here