Torres Novas/Boquilobo | Os caminhos sinuosos de uma área protegida (c/vídeo)

Reserva natural situada entre os concelhos de Torres Novas (Brogueira) e Golegã, o Paúl do Boquilobo foi considerado em 1981 Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO. Zona húmida propensa à observação de uma grande biodiversidade, tem em seu redor um percurso pedestre característico e de fácil circulação. Este está, porém, com fortes sinais de deterioração e algum abandono dos equipamentos, conforme o mediotejo.net pode confirmar numa visita ao local efetuada o ano passado. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) a recuperação das estruturas é uma das suas grandes prioridades, numa Reserva que, estima-se, recebe anualmente cerca de 3 mil pessoas. Mas há ainda a poluição, que chega sorrateira do Rio Almonda…Certo é que no dia 7 de julho deste ano decorreu a cerimónia de lançamento da primeira pedra da obra de requalificação, reabilitação e conservação da Reserva Natural do Paul de Boquilobo.

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Deixamos o alcatrão e percorremos aos solavancos as estradas de terra batida. Após a descida da Serra D’aire e a sua encosta solarenga, entramos quase que por acaso nesse outro Ribatejo, feito de planícies, campos agrícolas, cavalos e rebanhos de grande porte, casas tradicionais e um certo perfume ao Portugal rural mais profundo dos grandes latifúndios. No cruzamento do rio Almonda com o rio Tejo deparamo-nos  – quase como que numa miragem! – com uma reserva natural, simbolizada por um pássaro de pescoço longo e bico grande a aguçado. São as garças, que imaginamos ver ao longe mas sem forte certeza, a menos que sejamos dotados de uma máquina fotográfica com uma grande angular.

O Paúl do Boquilobo é uma zona húmida com grande biodiversidade. foto mediotejo.net
O Paúl do Boquilobo é uma zona húmida com grande biodiversidade. foto mediotejo.net

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Percorridos alguns quilómetros, vemo-lo enfim: o Centro de Interpretação do Paúl do Boquilobo, edifício de linhas modernas com uns estranhos grafitis destacados no seu topo, que nos perguntamos se terão algum objetivo específico ou se são puro vandalismo. Logo ao lado um placard que indica a existência de um percurso pedestre com cerca de seis quilómetros, possibilitando ao visitante conhecer mais de perto a grande biodiversidade que existe na reserva. Paisagem percorrida por salgueiros e diversas plantas aquáticas, assim como aves de variado tipo, mas sobretudo garças, entre outras espécies migratórias.

Para os amantes das caminhadas não há aqui grande desafio: o percurso é quase sempre a direito – embora entre terreno sinuoso, a par de zona pantanosa – percorrendo uma luxuriante vegetação, ávida de pormenores e recantos escondidos. Será sobretudo um espaço de descoberta para os apaixonados da fotografia e da observação da natureza, possibilitando românticos pôr-do-sol, panorâmicas deslumbrantes e repletas de cores, assim como uma contemplação próxima da vida animal. Pede-se respeito pela natureza em jeito de santuário, pois são estes ecossistemas que sabemos estarem perigosamente em risco de destruição.

Segundo o ICNF o Paúl do Boquilobo foi visitando em 2015 por 1741 visitantes, registados, sendo que o número poderá ser muito maior, estimando-se que atinja os 3 mil. O ICNF sublinha que grupos superiores a 10 pessoas “são obrigatoriamente acompanhados, devendo contactar a reserva através do mail rnpb@incf.pt” (existem quatro empresas turísticas licenciadas para o efeito).

Ouvimos falar em poluição, mas percorremos os sete (contabilizados) quilómetros sem nos depararmos como sinais significativos da destruição da mão humana na natureza. Encontramos famílias, observadores de aves, curiosos da fotografia. Há um silêncio aconchegante, ponteado pela sonoridades das aves, mas sobretudo uma envolvência quase mitológica, a lembrar as paisagens mais oníricas do filme “O Senhor dos Anéis”.

A sinalização está a deteriorar-se e em alguns pontos já nem é visível. foto mediotejo.net
A sinalização está a deteriorar-se e em alguns pontos já nem é visível. foto mediotejo.net

Um ponto de vigia bastante abandonado convida à entrada e à observação da vegetação, mas a estrutura é instável e com marcas de anterior existência de colmeias. Há pegadas de javalis e vários sinais da sua passagem em bando, mas não nos deparamos com nenhum episódio selvagem inesperado. Várias indicações do caminho desapareceram. O grande perigo do caminho acaba por ser mesmo o do último viaduto antes da conclusão do trajeto, completamente inundado, que, à primeira vista, não possui qualquer alternativa de passagem que não seja subir o monte e passar a linha do comboio (o ICNF afirma que existe outro percurso, porém não nos apercebemos da sua existência).

Ainda há quem suba e verifique a perigosidade. Mas, para quem desejar realizar este percurso pedestre, o mediotejo.net aconselha a atravessar o viaduto por baixo, junto à parede, mesmo que este esteja inundado. O caminho-de-ferro é paralelo ao Paúl e vários comboios passam em períodos próximos no tempo, mas nem sempre o caminhante se apercebe com antecipação da sua chegada. Umas boas sapatilhas (ou botins) e algum cuidado são a alternativa mais sensata a esta etapa.

Em cerca de duas horas, sem pressas, termina-se o trajeto. Outrora uma Quinta da propriedade das Ordens do Templo e de Cristo, o território da reserva foi doado pelo Rei D.João I ao Infante D. Henrique e depois a D. Fernando de Castro. Há vária informação dispersa a respeito da história do Paúl espalhada por vários portais na internet, alguma dela referindo que a zona mais alagadiça foi utilizada para caça de reis e da nobreza de outrora. Passando por vários proprietários, acabou nas mãos de uma família de nome Margiochi. Nos anos 70 as culturas envolventes tornaram-se as do milho e do girassol, substituindo o cânhamo e o arroz (fonte: http://torresnovas.no.sapo.pt/ReservaPaul.htm)

Recuperação dos equipamentos aguarda fundos comunitários

O mediotejo.net pediu alguns esclarecimentos ao ICNF a respeito da deterioração do trajeto e da sua sinalização e dos problemas de poluição da Reserva Natural do Paúl do Boquilobo. De salientar que o nosso jornal fez o percurso pedestre em meados de março de 2016, num fim-de-semana de sol depois de várias semanas de chuva.

Da instituição ficou a saber que “a manutenção do percurso é feita com regularidade inclusivamente a re-pintura dos pilaretes que assinalam o caminho, o que irá ocorrer na primavera. Durante o inverno parte do percurso fica coberto de água sendo  arrastados troncos que impedem ou dificultam a passagem dos visitantes e que já foram removidos”. Sobre a etapa da linha férrea referiu que “durante o inverno e princípio da primavera  a água passa por baixo da linha do comboio  porque é esse o seu percurso natural, mas  seguindo as indicações do trilho no terreno este pode ser feito evitando esse troço”.

O troço mais perigoso do percurso pedestre passa por baixo da linha férrea, inundado em certas alturas do ano. foto mediotejo.net
O troço mais perigoso do percurso pedestre passa por baixo da linha férrea, inundado em certas alturas do ano. foto mediotejo.net

O ICNF afirma ainda que “a  manutenção  do trilho e melhoria do observatório são uma das nossas prioridades”. “Dando resposta a essa preocupação  está em curso uma candidatura  em parceria com  a CM da Golegã, ao PO Alentejo que visa, não  só a  melhoria  do trilho existente, como também a implementação de um novo percurso, a construção de um outro observatório e de uma ponte sobre o rio Almonda criando condições para  diversificar a oferta e permitir percursos equestres”.

Já a poluição parece ser uma questão em vias de resolução. A poluição “das águas superficiais, sempre com origem no exterior da Reserva Natural,  é um dos principais problemas ambientais com que se depara o Paul do Boquilobo, embora  os sistemas palustres tenham, naturalmente, uma grande capacidade de regeneração”, sustenta a instituição. “Recentemente, com a melhoria nos sistemas de saneamento do Concelho de Torres Novas, em particular com a reconversão da ETAR dos Riachos , verificou-se uma melhoria muito significativa, invertendo assim uma situação que se prolongava há várias décadas”.

O ICNF termina por frisar que, através de um protocolo com o Instituto Politécnico de Tomar, “procedemos à análise regular das águas em pontos de amostragem fixos ao longo do rio Almonda e noutros locais de Reserva”.

A UNESCO renovou o estatuto de Reserva da Biosfera ao Paúl do Boquilobo a 19 de março de 2016, permitindo ainda alargar o seu território classificado.  Esta inclui hoje  as freguesias de Riachos, Brogueira (Torres Novas), Pombalinho, Golegã e Azinhaga (Golegã).

Em Portugal há apenas dez reservas com esta distinção.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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