Bons Sons | O espírito da aldeia já está entre nós

A viagem até Cem Soldos é tão fácil quanto prazerosa. Começa-se logo a viver a aldeia enquanto se segue ao encontro dela. Chegando àquela fortaleza de cultura, há um entra e sai alegre, e a cada passagem todos se cumprimentam, num gesto afável entre desconhecidos. Quem por estes dias chega a esta aldeia nos arredores de Tomar, passa desde logo a fazer parte dela. Ficamos quase com a sensação de entrar num parque de diversões – com tanta coisa a acontecer, é difícil escolher por onde começar. A única certeza é que a música serve a banda sonora desta aldeia em manifesto, que promove a cidadania ativa, a pedagogia e o convívio intergeracional, num ambiente sustentável e onde todas as ruas e travessas não têm dono. Em Cem Soldos, tudo é de todos, especialmente durante o Bons Sons.

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A chuva deste agosto quis intimidar quem se dirigia à 10ª edição deste festival, mas não conseguiu. Logo às primeiras horas da manhã, os parques de estacionamento começavam a compôr-se e os campistas montavam a tenda, sendo que muitos já haviam chegado na véspera do arranque do festival.

Nos spots de carregamento das pulseiras cashless formavam-se filas (não se utliza dinheiro no festival), a lojinha com as famosas Tixas, as canecas e copos reutilizáveis e personalizados, as camisolas, entre outro merchandising, também já atraíam interessados.

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Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Damos uma volta pela aldeia, atravessando as travessas e ruelas onde este ano as tascas típicas e adegas assumem especial destaque, com programação própria. Vai haver intervenções artísticas ou mesmo poesia à desgarrada, inspirada de copo de vinho na mão.
Na relva, há quem aproveite para descansar junto dos palcos e das zonas de petiscos, nomeadamente no epicentro: o Largo do Rossio.

Foi ali que Luís Ferreira, diretor artístico e fundador do Bons Sons, apresentou o livro ilustrado “Bons Sons x10: Uma Aldeia em Manifesto”, uma edição exclusiva e comemorativa, à venda na loja do festival, com edição da Escafandro.

Ali, sentados, conseguimos aproveitar a brisa e o sol que brinda os festivaleiros com a sua presença. Hora de encher os copos e canecas, aproximam-se os concertos. E nisto, Luís diz que “não é de intrigas”, e aponta para a Travessa da Serrana. Num edifício baixo, de um azul céu e portas largas cinzentas, começa uma atuação-relâmpago de Fogo Fogo, entoando os ritmos cabo verdianos com “Oh Minina”, e logo se juntam as demais vozes naquele momento que “soube a pouco”, mas que lançava o isco para o concerto naquela noite, no Palco Lopes-Graça.

Raquel Ralha & Pedro Renato no Palco Giacometti. Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

Começa a ouvir-se música no Palco Giacometti, logo depois da Entrada das Hortas. A dupla Raquel Ralha & Pedro Renato veio de Coimbra para dar novos ritmos à tarde. Num registo diferente do anterior, com música cantada em inglês e de estilos irreverentes com recriações de bandas como Pixies, The Doors, Pink Floyd, Nina Simone, Nick Cave, The Jesus and Mary Chain e Siouxsie & The Banshees, e outros, depressa enche o largo na frente do palco.

Alguns trouxeram a cadeira de campismo, outros sentaram-se ali no chão. Mas houve quem tivesse direito a camarote VIP. À janela, de estore semi-aberto e cotovelo pousado, apanhava a batida da música a octogenária Maria Rosa da Silva. Naquela tarde, ganhou estatuto de “Senhora estás à janela” e não passou despercebida a nenhuma câmara fotográfica ou telemóvel.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

O mediotejo.net, não ficou indiferente a tão belo quadro, e lá perguntámos se podíamos fotografá-la também e se se importava de vir ali à porta, para conversar connosco.
“Entre, menina, entre! Está calor aí fora, e confusão e muito barulho. Depois não a oiço”, diz, puxando-nos para os seus aposentos. Não que o dissesse de modo depreciativo, porque havia motivo para tal.

Prestes a fazer 85 anos, natural de Cem Soldos, diz que gosta muito daquele ambiente. “Também participei, desde que começou, ajudava a fazer as lagartixas [a Tixa, mascote do festival] e outros adereços. Hoje já estou um pouco surda [e tira e põe os aparelhos, mas esforça-se por nos perceber e responder] já não vou ali para o centro. Mas aqui há música duas vezes por dia, já é muito bom!”, garante, mostrando estar ciente do programa.

Foto: David Belém Pereira

“Gosto muito! Sempre gostei. Agora é que já não posso… Gosto de ouvir a música, e todos os dias pelo menos sei que oiço aqui duas vezes… Olhe! Está a ver?”, e aponta para a janela, quando a banda se lança a outro tema do concerto, já pronta a regressar ao seu lugar reservado. Saúde é o que lhe desejamos. Fecha-se a porta, mas a janela continua aberta.

Ao final do tarde, ainda chegavam festivaleiros. Damos de caras com uma família, sentada na bagageira do carro enquanto petisca qualquer coisa. De Elvas, vem Rui Garrido, com as filhas Joana e Maria Inês. A convite do amigo Tiago Pereira, mentor do projeto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, veio estrear-se no Bons Sons.

Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

“Vim muito por influência do Tiago Pereira, também já trabalho com ele há algum tempo, e em Elvas também fazemos um festival em ponto muito pequeno, dentro da cultura portuguesa, e venho aqui beber um pouco do conhecimento sobre a organização deste tipo de evento, como se divulga e como se consegue envolver a população”, diz-nos.

Expetativas quanto à programação, diz-nos Rui que o cativam nomes como “Três Tristes Tigres”, “diabo na cruz” e outros do panorama português, que cultivam a música popular e o folclore, bem como os instrumentos tradicionais. “É muito importante monitorizar e documentar este espólio musical, porque um dia pode-se perder e não ficamos com nenhum registo”, afirma.

Quanto à vinda das pequenas, diz que é atividade regular, pois a mais velha desde cedo frequenta festivais deste tipo, mais familiares. “Vamos muito ao Andanças, Músicas do Mundo, por aí fora. Já estou a semear, para daqui a uns anos poder vir de bengala com elas”, conta-nos, entre risos e boa disposição.

Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

Miúdos e graúdos entretêm-se, famílias com bebés de colo, outros pequenotes saltitam enquanto tentam alcançar as bolas de sabão que sobem alto, os mais audazes lá experimentam os interessantes jogos do Hélder, que testam a perícia e a paciência de quem participa. Os cães também se passeiam por ali, recebendo afagos e carícias dos visitantes. E os burros de Miranda, lá no curral, também são tratados como reis, fazendo as delícias da criançada.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Vamos passando pelas ruas e encontrando os símbolos do manifesto, dos princípios pelos quais se rege a aldeia, cruzamos a zona onde as bandas de garagem mostram o que valem, ali junto da zona do artesanato. E voltamos à casa de partida, onde já começam a aparecer caras que soam familiares.

O circuito é vasto e o constante cruzar de gente deixa-nos indecisos… tentamos adivinhar (e olhar para a cor da pulseira não vale…) se quem passa por nós são moradores de Cem Soldos, se voluntários ou participantes. Mas que importa? Chegamos à conclusão que isso só acontece porque entrando dentro da aldeia passa-se a fazer “parte da casa”, e dificilmente se consegue sair dela. E só sentindo o espírito que ali se vive, aquela boa onda e espontaneidade, se consegue perceber porquê.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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