Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

“Boneca de cheiros”, por Armando Fernandes

A arte da cozinha é insana, nunca está concluída e, as mulheres e os homens, a toda a hora procuram preparar os alimentos de forma a serem saborosos, suculentos e sadios quanto possível.

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Por isso, ao longo dos milénios, foram experimentando, foram acrescentando, foram rectificando, até chegarem ao denominado ponto de equilíbrio gustativo capaz de conseguir agradar a gregos, troianos e espartanos (estes últimos mais coriáceos, mais teimosos e resmungões), conseguindo impor conceitos, gostos e pratos que, apesar da usura dos séculos, continuam a ser lembrados/confeccionados para nosso aprazimento sensorial, muitas vezes, dos cinco sentidos.

Ora, as cozinheiras e os cozinheiros depressa se depararam e continuam a deparar com o problema de harmonizarem cheiros e temperos, sem os mesmos perdurarem na receita até ao fim do preparo, mas de maneira esses mesmos cheiros e temperos ficarem assinalados na confecção de modo pungente, macio ou suave, para plena satisfação dos manducantes.

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E, no afã de transporem as dificuldades, inventaram-se as bonecas de cheiros. As bonecas de cheiros (um quadrado de estamenha ou musselina em forma boneca) recebem ervas, sementes, rebentos, bagas ou folhas, introduzindo-se na composições o tempo entendido por necessário para se retirar de seguida. Há casos em que a boneca fica até ao fim da confecção sem os seus ingredientes se espalharem.

Os cozinheiros das casas possidentes primavam em construir bonecas recheadas de conteúdos de segredo, daí as subtilezas sápidas de múltiplas receitas que se perderam quando os seus criadores se apagaram do mundo dos vivos.

O célebre Abade Priscos logrou segredos que continuam a ser até hoje objecto de especulação editorial.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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