- Publicidade -

“Bocado”, por Armando Fernandes

No domínio da culinária bocado tanto pode ser doce como salgado. Por opção prefiro bocados salgados, que são feitos com massa folhada, redondos, do tamanho de uma tapa, guarnecidos conforme o gosto e as possibilidades de cada qual.

- Publicidade -

Estes bocados, tal como noutros tempos podem ser comidos de uma só vez, no entanto, as regras de civilidade e etiqueta preconizam que assim não aconteça até para se evitar a possibilidade de o bocado se estilhaçar em bocados minúsculos provocando nódoas na roupa, especialmente nas gravatas.

Os bocados salgados são muito reclamados em cerimónias de apresentação de pessoas, de lançamento de livros e/ou obras de arte, em que as senhoras fazem questão de se apresentarem bem arranjadas, enquanto os homens concedem primazia aos bocados guarnecidos com delicadezas gastronómicas fora do circuito habitual das tapas pré-refeição no registo de beber um copo nos finais de tarde antes de recolherem, tal qual os recrutas militares.

- Publicidade -

Os bocados, não raramente, quando muito apelativos (ovas de peixe e moluscos, foie-gras, presunto e salpicão) levam a múltiplas repetições atraindo a atenção (negativa) das legítimas esposas a redundarem em discussões e amuos. Não são os bocados os culpados das questiúnculas, são os acompanhantes líquidos.

Sem surpresas é enorme a quantidade de livros de receitas dedicados aos bocados, já os espanhóis inventores das tapas (de tapar com uma fatia de presunto ou de salpicão a abertura dos copos a fim de evitar a queda de moscas na bebida) concedem inusitado apreço aos bocadillos.

Debaixo da designação de tapas nuestros hermanos impuseram a nível mundial o conceito de tapear a toda a hora e momento, enquanto nós estamos restringidos aos bocados a por vezes apelidamos de petisquinhos, assim ao modo de rodelas de chouriço, farinheira ou simplesmente uma azeitona.

Não vou dizer quem foi o ribatejano que bebeu um garrafão de vinho acompanhado com uma azeitona, mas que bebeu os cinco litros com tão singelo bocado lá isso bebeu!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).