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Quarta-feira, Outubro 20, 2021

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“Bicheza”, por Berta Silva Lopes

O tema desta crónica pode ser nojento para algumas pessoas, fica o aviso desde já, e é verdade que não é fofinho, mas é certo que trata de problemas reais, importantes e verdadeiramente perturbadores. Esta crónica é sobre piolhos.

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Corrijo: esta crónica é sobre piolhos e também sobre outras bichezas que tais, daquelas que não matam, mas chateiam que se farta, sobretudo quando falamos da pequenada. Feito o primeiro alerta, passo ao segundo: é provável que este texto possa causar comichão e outros incómodos físicos aos leitores mais sensíveis. Quem decidir continuar a ler deve por isso certificar-se de que está num local onde pode coçar a cabeça livremente a fim de evitar embaraços desnecessários.

Vem tudo isto a propósito de um recado na caderneta escolar da minha filha, mal tinha começado o ano letivo, não este, outro. Ela avisou-me da mensagem, mas não sabia do que se tratava, afinal ainda não sabia ler e não podia adivinhar. Mau Maria, começamos mal, pensei eu.

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Não, não, não, respondia ela às perguntas que lhe ia fazendo. Nenhum problema de indisciplina, falta de educação ou brigas com os coleguinhas; nenhuma repreensão da professora. Apesar do meu sobressalto, as respostas dela são convincentes. Vamos ver o que diz o papel.

“Foram avistados piolhos em algumas crianças desta sala. É favor vigiar a cabeça do seu educando.” Oi? O piolho fêmea possui uma vida média de 30 a 40 dias, podendo produzir até dez ovos por dia, ou seja, ao longo da sua vida, é capaz de depositar mais de 200 lêndeas na cabeça de uma pessoa, leio na internet. Entramos em alerta máximo, portanto.

De repente, pai e mãe estão cheios de comichão, de certeza que os bichos quiseram experimentar outros couros cabeludos e já andam a passear-se por toda a família. Há que preparar um extermínio em massa, mas é tarde, já não há farmácias nem supermercados abertos no bairro. Parecendo que não, o assunto é urgente e requer medidas imediatas. Felizmente temos uma garrafa de vinagre quase cheia na cozinha. E também um frasco de maionese.

Sou doutorada há muitos anos em aniquilação de piolhos e lêndeas, curso ministrado pela minha avó, com paciência e mimo, em horário pós-laboral. A mim, pareciam-me bichos invencíveis, mas a minha avó só descansava quando dava cabo deles.

Seguindo as indicações dela, os piolhos matam-se lavando a cabeça com vinagre e escorregam facilmente se se passar maionese no cabelo, e depois o pente apropriado. Há quem também defenda a eficácia da coca-cola. Por mim, acredito. Não há que duvidar de um produto que até desentope canos, certo?

Ainda assim, o melhor é prevenir o aparecimento dos piolhos, claro está, e para a prevenção aqui fica mais uma dica: borrifar o cabelo deles (e o nosso, se houver bicharocos a deambular na cabeça da criançada) com perfume, todos os dias. O outro segredo todos sabem: inspecionar as cabeças de vez em quando até à exaustão. Foi a primeira coisa que fiz no dia em que li o recado acima na caderneta da minha filha. Felizmente não apanhei nenhum intruso (ufa!), mas confesso que me cocei bastante, vá.

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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