Bênção do Gado: A Festa que os Lavradores ofereceram a Riachos

foto facebook Bênção do Gado

Um boi, esse animal que se arrastou séculos pelos campos lavrando as terras de cultivo, tem outra dignidade em Riachos. É um símbolo da vivência agrícola e do peso da tradição ribatejana. No início do século XXI, os moradores de Riachos, no concelho de Torres Novas, resolveram dar uma periodicidade fixa a uma Festa particular a que chamavam ‘Bênção do Gado’. Celebrada a cada quatro anos, a Bênção do Gado regressa este mês, de 22 de julho a 1 de agosto, com música, tradição, religião e o peso da história a classificá-la como um dos rituais populares mais característicos da região.

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António Jorge, membro da direção da Bênção do Gado, na secção de Artes, Cultura e Embelezamento das Ruas, marca encontro no Núcleo de Artes de Riachos (NAR), do qual é dirigente. Mesmo ao lado do Museu Agrícola, apercebemos-nos que chegámos pelas pinturas murais que embelezam esta zona da vila. Dali a duas horas joga-se o Portugal – Polónia, mas António Jorge não tem pressa. Prefere falar da Bênção do Gado, esse evento popular que lhe tem roubado horas de sono nos últimos meses e do qual fala com entusiasmo e muito orgulho pelo peso da História na sua terra. À medida que decorre a conversa, várias pessoas o chamam. Querem bilhetes para os espetáculos da Bênção, querem que siga depois para um convívio para ver o jogo. Quando finalmente terminamos e cada um segue o seu caminho, Portugal já perde.

Fotos antigas da Bênção do Gado, sem data. Foto: Facebook Bênção do Gado
Fotos antigas da Bênção do Gado, sem data. foto facebook Bênção do Gado

A Bênção do Gado, começa, “é uma festa tão antiga que a sua origem perde-se na memória do tempo”. Sabe-se que no início do século XX se realizaria quase todos os anos, tendo havido um grande evento em 1937 para comemorar a luz elétrica e a fundação da Casa do Povo. A partir dessa data os registos tornam-se mais raros, passando-se quase 10 ou 20 anos sem que haja uma Bênção. António Jorge tem as suas teorias, fala-nos em “fome de festa” de tempos a tempos, o que originaria grandes iniciativas depois de largos períodos sem qualquer festejo. Mas, na prática, não se sabe bem porque não existia uma periodicidade própria à Bênção do Gado.

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A própria origem é em si desconhecida. A teoria mais credível está ligada ao descobrimento de um grande crucifixo com a imagem de Cristo, algures nos séculos XII ou XIII, enquanto homens da região lavravam os campos. Estavam nos campos do Espargal, perto de Casais de Riachos (zona que hoje é Riachos e os terrenos do concelho da Golegã) quando os bois pararam os trabalhos e se ajoelharam. Algo impedia que eles seguissem com o lavoura. Verificando que a relha do arado estava a ser obstruída por algo, os lavradores cavaram a zona e descobriram uma grande cruz com uma imagem de Cristo, ainda hoje exposta na Igreja de Santiago, em Torres Novas: o Senhor Jesus dos Lavradores.

Senhor Jesus dos Lavradores em procissão. foto facebook Bênção do Gado
Senhor Jesus dos Lavradores em procissão. foto facebook Bênção do Gado

Bois a ajoelharem-se perante o achado de uma enorme cruz escondida foi o suficiente para o episódio ser tido como o milagre. António Jorge coloca uma visão mais prática na história, salientando que o mais provável era os Bois também terem ficado presos no arado. O facto é que o Senhor Jesus dos Lavradores ficou para sempre ligado a Riachos, sendo alvo de grande devoção pelas gentes da terra.

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O Senhor Jesus dos Lavradores, defende António Jorge, terá sido um dos muitos objetos religiosos escondidos pelos povos iberos aquando a invasão bárbara, descoberto séculos mais tarde quando se lavrara o campo. Transportado para o centro da localidade, foi colocado num carro de bois e engalanado de flores, que o levaram a Torres Novas.

A imagem só regressaria a Riachos na Bênção do Gado de 1966, sendo hoje parte integrante da festividade uma procissão de Torres Novas à vila, passando esta para um carro de bois quando chega à rotunda dos Bois (assim conhecida, mas cujo nome verdadeiro é rotunda do Senhor Jesus dos Lavradores). Nessa época, as Bênçãos eram organizadas pelos Cingeleiros, uma associação de criadores de gado que se ocupou do certame nas edições seguintes de 1973, 1985 e 1993.

foto facebook Bênção do Gado
foto facebook Bênção do Gado

“O Boi em Riachos é sagrado”, comenta a dado instante António Jorge, representando a tradição agrícola desta terra. Mas no final do século XX, com o desaparecimento dos Bois em prol dos tratores e máquinas agrícolas, a própria associação dos cingeleiros deixava de fazer sentido. “Funcionava como um seguro para quando morria uma cabeça de boi”, explica, o que existia cada vez menos.

No ano de 2000 foi fundada a Bênção do Gado Associação Cultural que organizou o certame e definiu-lhe por fim a periodicidade de quatro em quatro anos. Hoje obedece a dois momentos altos: a Festa religiosa, com a grande procissão do Senhor Jesus dos Lavaradores, e a Festa profana, com música noturna, espetáculos variados e o desfile da Bênção do Gado, atualmente um cortejo de tratores e carros a representar as atividades económicas da vila.

Bênção do Gado antiga, sem data. foto facebook Bênção do Gado
Bênção do Gado antiga, sem data. foto facebook Bênção do Gado

A isto acresce o embelezamento da vila, este ano a cargo da António Jorge, com luzes, pinturas murais pelas casas e surpresas que o responsável pede para não divulgarmos. Pede-se aos riachenses que no dia do desfile da Bênção venham vestidos à moda de 1900.

Apesar da Festa arrancar a 22 de julho, o seu ponto alto é no fim-de-semana. A imagem do Senhor Jesus dos Lavradores sai da Igreja de Santiago na última sexta-feira, dia 29, às 18 horas, numa carrinha de caixa aberta, acompanhada pela Confraria da Santa Casa da Misericórdia, num percurso seguido por imensos tratores dos lavradores de Riachos. Na rotunda dos Bois, à entrada da vila, a cruz é mudada para um carro de bois à moda antiga, ao cuidado da Irmandade do Menino de Deus. Segue assim, em procissão pedonal, até à Igreja de Riachos, acompanhada pela Banda Filarmónica, onde permanece sob vigília até segunda-feira, 1 de agosto, repetindo-se a procissão inversa.

Bênção do Gado antiga, sem data. foto facebook Bênção do Gado
Bênção do Gado antiga, sem data. foto facebook Bênção do Gado

A parte popular também tem os seus momentos altos, mas aqui é sem dúvida o cortejo da Bênção do Gado, no domingo, dia 31 de julho, que atrai mais visitantes. “Estamos a fazer esforços suplementares para que seja uma grande festa”, frisa António Jorge, que com o seu NAR tem pintado as paredes da vila, com homenagens a figuras particulares da história da terra, como de José Marques, no Museu Agrícola.

Inicialmente procurou-se imitar a decoração de outros eventos regionais, mas hoje a Bênção do Gado tem uma marca própria, que foi evoluindo ao longo dos anos. A festa teve este ano um apoio de 40 mil euros da Câmara de Torres Novas, mas o dinheiro é pouco para apoiar toda a estrutura da festa. Os bilhetes para entrar no certamente estão neste momento a 17,50 euros todos os dias e 25 euros a diária.

António Jorge reconhece que é elevado, mas salienta a quantidade de iniciativas que irão decorrer e os artistas que estarão presentes. Esta será uma das maiores Bênçãos do Gado alguma vez realizadas em Riachos! Entre os artistas vão estar presentes: Tempo e Modo, dia 25, Célia Barroca, dia 26, David Antunes, dia 27, Quim Barreiros, dia 28, The Gift, dia 29, e Teresa Tapadas, dia 31.

António Jorge, membro da organização de 2016 da Bênção do Gado. foto mediotejo.net
António Jorge, membro da organização de 2016 da Bênção do Gado. foto mediotejo.net

Mas o programa é muito mais extenso. Gincana de tratores, torneio de judo, passeio de pasteleiras, prova de trail, yoga, Festival de Folclore, corrida columbófila, caminhadas, teatro, patinagem artística, largada de toiros, exposição fotográfica, corrida de toiros, entre almoços de convívio e muito mais.

“O povo está à espera deste momento” e “vive a festa com uma intensidade espetacular”, termina António Jorge.

foto Bênção do Gado
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