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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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“Barcas”, por Armando Fernandes

As chuvas copiosas caídas no Centro e Norte trouxeram ao de cima as barcas que outrora serviam de transporte de pessoas e mercadorias incluindo animais de avantajado porte, entre as margens dos rios. Se nos dermos ao trabalho de pesquisar logo nos surgem inúmeros topónimos a referenciarem barcas, no concelho de Abrantes todos já ouviram falar na barca do Pego, alguns na mais distante barca da Amieira, menos na vizinha barca de Paio de Pele (Praia do Ribatejo) estudada por João José Alves Dias, bem perto a deu origem ao concelho de Vila Nova da Barquinha.

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As televisões mostraram as águas em fúria, seguramente, nesses dias de tormenta as barcas estariam em terra, nos restantes dado os rios engrossarem crescia o número de barcas de passagem desempenhando ingente papel no tocante à vida quotidianas das gentes ribeirinhas ou vindas de paragens mais distantes atraídas pela poupança de tempo e meio mais seguro de atingir a povoação desejada.

Através de vária documentação sabemos da existência de barcas de «caridade» doadas através de testamentos por interesse de salvação da alma, também porque a generosidade não era uma palavra vã, no mais as barcas na Idade-Média podiam pertencer ao rei, a ordens militares, aos concelhos e a particulares.

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Como é evidente as barcas derivadas de doações asseguravam o transporte gratuito de pessoas e bens (havia abusos), as restantes obrigavam ao pagamento do transportado, existindo tabelas que nem sempre eram cumpridas. Os preços tabelados correspondiam ao horário praticado, para além das horas fixadas o preço da passagem ficava ao arbítrio do acordado entre o barqueiro e o passageiro.

No Médio-Tejo as barcas de maior importância eram a de Abrantes, Punhete (Constância) e a já citada Vila Nova da Barquinha, podendo apontar-se como grandes entrepostos comerciais até à construção de pontes e outras vias de comunicação.

As barcas enquanto meio de comunicação só por si podem originar conteúdos de vária ordem numa perspectiva de criação de indústrias da cultura, no referente ao Tejo, se existir vontade, constituem acervo de tomo para tal efeito. Como se faz? Fazendo.

Mestre Gil escreveu um Auto escorado nas Barcas, sobre as barcarolas canções e músicas repousam nos livros de poesia e pautas musicais. Para todos os ouvidos e recitativos. E comeres? Muitos e destinados a corresponderem a toda a casta de paladares.

No respeitante a comeres os «pescadores de barca» ainda vivos contam capturas de arromba em tempos idos, os pescadores raramente se referem ao presente, peixes vivos aos quais só lhes faltava falar, acabavam em sápidas caldeiradas, estaladiças frituras, cozeduras perfumadas, guisados de estalo e assados sem mácula. Os receituários vão-se perdendo, refazendo, criando, inovando à medida do engenho das possibilidades de agora.

Há tempos entrevistei o neto de um pescador de barca, acompanhava o avô e ajudava-o a colocar os anzóis na água, ao tempo o velho pescador entregava metade da pescaria ao dono da embarcação e apetrechos, apesar da exorbitante renda conseguia retirar peixes suficientes para o consumo da prole e a mulher vender.

O neto só pesca no prato, enlevado recorda o pai duas vezes, refere os tais peixes de arroba, afiança ser perito em caldeiradas, uma especialidade da maioria dos portugueses, se existirem dúvidas vejam os programas de análise científica dos jogos de futebol.

No remanescente a Barcas, remato sugerindo a audição de Adriano Correia de Oliveira a cantar sobre as que não eram belas, como a de outrora. E nestes tempos como é?

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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