“Banquetes”, por Armando Fernandes

Banquete de Assurbanipal

Esteja o leitor descansado, não vou dissertar acerca dos banquetes nupciais nestes tempos de ora, desses todos sabemos do mimetismo reinante, do esvaziamento da carga simbólica social, de o repasto ter perdido particularidades a favor do vazamento igualitário nos comeres e nos beberes.

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Se o leitor dispuser de tempo e manifestar interesse pelo tema tem a possibilidade de consultar lauta e bem apimentada bibliografia referente aos banquetes nupciais onde até se registam feitos escabrosos, fugas antes da comezaina festiva, ajustes de contas entre famílias, confissões lacrimejantes forçadas ou espontâneas. Tendo o digital na sua carta de identidade incentivar os seus leitores a frequentarem as Bibliotecas, não me parece deslocado fazer apelos deste género.

Nos povos primitivos o Banquete assumia a condição de elo de ligação com a divindade, do mundo visível e do mundo invisível, solidificando as relações de convivialidade entre os homens. Se os banquetes de ostentação do poder – o de Assurbanipal – é o melhor exemplo na Antiguidade, no caso dos de aproximação aos deuses resulta maior e melhor união entre os participantes, comem em redor da mesma mesa.

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É fremente expressão da hospitalidade levando ao aumento da representação social em detrimento da religiosa.

A noção de banquete e seus efeitos de afirmação social nunca esteve restringida ao casamento, ainda hoje nalgumas sociedades o repasto ostentoso pauta a regulação da vida de cada um: nascimento, a imposição do nome (pensemos no baptismo), a passagem da infância à maioridade (ritos de passagem), casamento e morte. *

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Só que o casamento assumia (assume) carácter de outra acuidade, outra grandeza, ainda hoje. Exemplo vivo do atrás afirmado é o cortejo nupcial, pois no tocante a comeres relativamente às outras cerimónias, os mesmos não conheciam grandes oscilações no seio da sociedade grega. O banquete tinha relevo uniforme, no referente ao nascimento ele tinha lugar no quinto dia depois de a criança ter nascido, realizando-se outro após a imposição do nome. No tocante aos mortos, os banquetes fúnebres eivados de profundo significado. Os gregos organizavam uma refeição sobre o túmulo do morto acreditando que com esse rito não serem convidados do falecido, e no aniversário do seu passamento outro banquete recordava o parente falecido.

Na sociedade romana após a noiva chegar à saca do noivo servia uma ceia quase sempre a prolongar-se até ao dia seguinte. Também celebravam o nascimento e a imposição do nome à criança. De igual modo aos Helenos não esqueciam os mortos, evocavam-nos tomando uma refeição sobre as suas campas, bem como partilhavam um banquete em casa antes do seu enterro. No aniversário da morte dos parentes chegados levavam a efeito outra refeição em sua honra.

A história informa-nos de ser comum o banquete ritual fúnebre entre a maioria dos povos, os primitivos cristãos seguiam de perto o ritual hebraico que como sabemos o banquete de grande profundeza simbólica é a festa da Páscoa.

De modo ligeiro aludo ao banquete nupcial a coroar a constituição de nova família, da mesma maneira ao repasto fúnebre da finitude dos mortais, não esquecendo o festejo pelo seu nascimento. Aproxima-se o dia 2 de Novembro, data de lembrança dos mortos nas religiões cristãs, se este artigo contribuir para a revisitação memorialista dos nossos ancestrais já fico satisfeito na justa medida de baptizados e casamentos por óbvias razões terem e serem comummente praticados na sociedade ocidental, já no tocante aos mortos o caso muda de figura.

Para o desvanecimento, para o encolher de ombros, quanto muito referência episódica de momentos do seu viver. Faz pena, mas o frenesim está a «sepultar» vínculos respeitantes às nossas origens.

É a vida, parafraseando António Guterres brilhante vencedor da pugna pelo importante lugar de secretário-geral da ONU. Ainda bem porque aumentam as possibilidades de os refugiados ganharem o direito a viver em paz.

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